segunda-feira, maio 16, 2005

Carta de um suicídio

Não quero começar com porques como toda a gente faz. Queria começar com outras palavras para ser diferente. E é disso que eu tanto necessito. Diferença. Diferença sem escândalo e sem me sentir mal com isso. Diferença disfarçada, só dentro de mim. Os olhos que passem por mim, as bocas que falem de mim, mas que eu não os veja nem os ouça. Não vos quero sentir em mim, por isso afastem-se quando me falarem. Os pensamentos são fontes de energia, sabiam? Quanto mais longe estiverem, melhor. Não vos sinto. Não quero. Há quem fale em fossos; entre o “eu” e o “vós”. Prefiro a palavra abismo. Dá-me uma ideia de maior distância. De distância mortal. Eu tenho o meu. E pretendo que ele cresça bem fundo... Até um grito se perder nas paredes. Não quero aproximação. Por isso não se atrevam a construir pontes. Não que se importem em fazê-lo, mas quando se lembrarem já estão avisados. Afastem-se que é o melhor a fazer. Não sou coitada. Sou suicída. Deixem-mo ser. Só peço que se afastem e me deixem matar. Não quero pena nem compaixão. Não faço isto com essa intenção. É tão difícil de perceber? Nunca tive amor em mim e, sem vos querer chocar propositadamente, vocês também não. Amor... Uma palavra viva para um sentimento morto. Aqui! Noutros mundos talvez seja vivo. Aqui nunca nasceu; por isso, nem morto está. É inexistente. Não amem porque não são capazes. Nem pensem que são amados. Ilusão é uma perda de tempo. Mas sou eu quem fala: a suicída. Por isso não me escutem. Não pretendo pregar. É uma espécie de aviso. Só para não dizerem que não me despedi. Não é que sinta necessidade de vos responder aos caprichos. É apenas ao meu que respondo. O capricho rebuscado de escrever. Ai... a escrita é a minha pá. Sem ela o meu suicído seria tão mais difícil. Obrigada. Ajudas-me a cavar o abismo e eu acaricio-te. Troca justa diria eu. Só quero o afastamento. Mas de ti isso é impossível. Sem ti morreria para a existência própria. Não imagino sequer um algo em mim sem ti. És a minha vida. Mas tendo em conta que vida é o encarne da alma e que só assim vivo, és mais que minha vida, és a minha alma. Talvez seja isto que eu queria verdadeiramente dizer. O entorpecimento da mente dificulta-me a expressão. Desculpa-me. Eu tento, mas as névoas adensam-se tanto...! Inspiro, expiro, suspiro... mas o peso continua. Perdoa-me a minha fragilidade. Perdoa-me o ser fraco. Ajuda-me a alimentar a alma. No fundo és tu própria que cresces se assim for. Sim... eu sei que sou suicída, mas só para os outros. Para ti quero viver. Abraça-me, bafeja-me que sem ti sou inconcebível.

12 comentários:

Lana disse...

"só morrendo aos poucos
descubro que ainda estou vivo." disse alguém...

Miguel disse...

"I die a little everytime I cry my loneliness" disse-o Francisco Silva, mentor do projecto Old Jerusalem. ouve. vale a pena. e quanto à carta, gostei da maneira como te dirigiste a quem a lê, e da distância que queres manter, para teres o teu espaço.

beijo *

João Teixeira disse...

Hum, e a piada que tem escrever cartas de suicidio. Já escrevi duas, talvez três, nunca contando com a minha propria morte.

Mas a morte meu amigo, se me permites a amizades, é apenas um estado de transição, segues tu o caminho que te apetecer apos a morte de ti mesmo.

PS: Lembrou-me um pouco da Rui Zink, a maneira como escreves.

uranio disse...

"Aqui nunca nasceu; por isso, nem morto está. É inexistente."
estranho como algo inexistente provoca tantas coisas, provoca dor, alegria, saudade... e como se torna tão aborrecido como assunto batido, batido e mais que batido em textos de toda a gente e de ninguem.
este parece ter o toque especial que o "amor" dá às coisas, mesmo numa "carta de um suicídio" ;)
**

Der Uberlende disse...

Frequentemente, o suicida fantasia a reacção dos vivos perante a sua morte: o sentimento de tristeza, remorso e culpa. O suicida elimina a sua vida, paga com ela, mas não está totalmente consciente disso. Está condicionado pelo prazer de tornar real sua fantasia de vingança, de causar sofrimento aos outros. Muitas vezes, ele nem deseja a morte, mas sim uma nova vida, em que a pessoa se sinta querida, seja importante. O final fantasiado, se possível, implica que as pessoas que o magoaram sintam culpa e remorsos. Nesse caso, o suicida como que ressuscitaria, haveria perdão de parte a parte e a vida continuaria. Existe uma independência entre o desejo de morrer e o de matar-se. Aquele que se mata não quer necessariamente morrer, pois pode nem estar consciente do que ‘morrer’ realmente significa. Mata-se porque deseja uma outra forma de vida, fantasiada. Nessa outra vida encontra amor ou protecção, vinga-se dos inimigos e reencontra pessoas queridas.

De qualquer modo, estamos a falar de um tema altamente complexo e sensível.

Só por curiosidade, sugiro a visita à página do Núcleo de Estudos do Suicídio (http://www.tu-importas.org/geral/Investigacao.asp). Parece-me interessante saber o que se faz em Portugal a nível da investigação do suicídio na adolescência

Anyway, suicídio juvenil faz-me sempre pensar no 'Coma Black' do Marylin Manson ou no 'Suicide Veil' dos Anathema, só para citar alguns exemplos

Seja como for, o teu texto está muito tocante e perturbador. Transmite perfeitamente as três dimensões/condicionantes do gesto suicida: dor, tensão e depressão

em anexo:

Marilyn Manson - Coma Black (Holy Wood)
[ a) EDEN EYE ]

My mouth was a crib and it was growing lies
I didn't know what love was on that day
my heart's a tiny bloodclot
I picked at it
it never heals it never goes away

I burned all the good things in The Eden Eye
we were too dumb to run too dead to die

This was never my world
you took the angel away
I'd kill myself to make everybody pay
This was never my world
you took the angel away
I'd kill myself to make everybody pay

I would have told her then
she was the only thing
that I could love in this dying world
but the simple word "love" itself
already died and went away

This was never my world
you took the angel away
I'd kill myself to make everybody pay
This was never my world
you took the angel away
I'd kill myself to make everybody pay

I burned all the good things in The Eden Eye
we were too dumb to run too dead to die

[ b) APPLE OF DISCORD ]

Her heart's bloodstained egg
we didn't handle with care
it's broken and bleeding
and we can never repair


Anathema - Suicide Veil (Eternity)

A sacrifice in the flight of dawn
The beauty of twisted reality
In my heart, my dreams

A sacrifice for freedom
Alone in the grace of the dark
The pains of a failed generation

I longed for the death of the sun
Another glorious revelation
Destiny's plan for ruin

I danced with the shadows
In tranquil chaos, I lay naked in the rain
An interception of light
A disturbing memory
This suicide veil I wear in shame

Bellatrix disse...

bolas..nem me deixaste respirar..
beijo*

Der Uberlende disse...

Olá Doce Serenidade,

O teu nick é um daqueles casos em que me soa lindamente em Português, é belo e místico, deixa adivinhar coisas boas e pensamentos profundos....

Em relação ao teu texto, talvez haja uma diferença entre o que consideras ter escrito e o que de facto foi escrito. Não me interpretes mal, não pretendo impingir-te pseudopsicologia de bolso, mas é algo que acontece quase sempre. Eu próprio fico surpeendido quando analiso o que eu mesmo escrevo... e muitas vezes considero que me revelei demasiado, mais do que o pretendido.
De qualquer modo, é perceptível que pretendes isolar, matar algo que te atormenta e renascer. É o processo de reconstrução da personalidade, o renascimento interior, o amadurecer do espírito!
Usa a tua força, inspiração e serenidade para crescer em harmonia, em equilíbrio.

A morte é a mais poderosa expressão da mudança. Não é por acaso que 'mato' quase sempre a,guém nos textos que escrevo e depois me auto-intitulo de 'O Sobrevivente' (trad: Der Uberlende)

Em relação ao Desafio Parte II, fiquei radiante com a tua disponibilidade para entrar! De certeza que vai ser uma versão fortíssima e acutilante. Como a autora deste blog!

beijos serenos,

Der Uberlende

lenore disse...

Um homem apanha um comboio para ir a uma cidade.
Um homem tem de apanhar a morte para ir a uma estrela!
Van Gogh

negative creep disse...

alice in chains "dirt"
"Nutshell" estas 2 musicas resultam sempre
mais depressivas nao podiam ser
xau

Anónimo disse...

Morrer é aquilo que busco pra mim, é o sedejo de minha alma. O seu texto exprime meu grande desejo de morrer aos poucos sem nenhum contato, ou ainda nenhuma misericórdia, quero morrer, quero acabar com a minha droga de vida, e esse poema só alimentou isso em mim!

SweetSerenity disse...

Não entendeste verdadeiramente o significado do texto. Não falo em matar o corpo. E além disso o objectivo do texto não é nem nunca foi servir de incentivo a alguém. Escrevo como forma de catárse. E não me sinto nada elogiada com esse tipo de comentário.

Lamento.

SweetSerenity disse...

P.S. nem sei se voltarás aqui para ler alguma resposta. De qualquer forma quero acrescentar que há sempre um porto de ajuda, aqui pouco ou nada posso fazer, por isso não percebi o motivo do comentário. Não quis ser rude.