quarta-feira, abril 04, 2007

Covarde

Irrita-me não ter coragem. Irrita-me ter 18 anos e saber-me tão novinha, tão inexperiente, tão insegura, tão receosa.

30.09.06

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Razões de desconfiança

A principal razão pela qual não confio totalmente nas pessoas é porque estas são normalmente levadas por tendências. Dizem o que normalmente se diz e gostam do que normalmente se gosta, na altura normalmente mais apropriada, do modo como todos os outros julgam ser mais adequado. As pessoas não dizem o que verdadeiramente pensam nem sentem o que verdadeiramente sentem que já nem sabem o que isso é. E quando ousam pensar e sentir por elas próprias em vez de por um colectivo ou são abafadas pelos que ainda temem ser verdadeiros, tornando-se alvo de injúrias e olhares dissimulados, ou fracassam numa tentativa frouxa de se dizer e sentir o que se quer.
Somos tantas vezes bonitos, fofos, o máximo, fixes, 5 estrelas, as pessoas mais amigas e espectaculares que alguma vez conheceram... Somos? Que dizem eles? Ouvem-se, leêm-se? Nem sabem o peso das suas palavras... As palavras querem-se sinceras e respeitadas!
Por acaso sabem que sou irónica, por vezes precipitando-me no sarcasmo? que por detrás desta voz aguda e ameninada também existem palavras rudes, cuja missão é atingir-vos. Sabem que quando realmente desejo algo não me consigo impedir de ignorar as vossas necessidades, preenchendo-me de egoísmo e egocentrismo e focando toda a minha atenção no alvo desejado?
Que é feito das menções aos defeitos quando se comenta uma pessoa na sua totalidade? Eu tenho defeitos. Todos têm defeitos. E quantas vezes não gostariamos ou precisariamos que nos dissessem directamente para que nos pudessemos emendar. Quantas vezes não prefeririamos palavras azedas e expressões de desgosto, ao invés de sorrisos amarelos e atitudes dissonantes com as palavras amáveis que com tão pouco empenho nos dirigem e que, logo, denunciam a existência de conversas ocultas.
Eu sei que erro. Todos erramos! E por isso são precisas discussões. Discussões francas, onde demonstremos respeito e apreço pelo outro e onde as nossas palavras sejam bisturis que abrem mas curam e não balas que furam e matam. Eu voto pela sinceridade e pela delicadeza também. Que é possível conjugá-las sem ser necessário sucumbirmos a tendências ou estereótipos.

E depois disto lerem, pensarão se eu própria sou assim. Para os que se perguntarem, eu respondo que não. E ao longo do texto vim a confessar-me. Escrevo sobre um ideal. Escrevo sobre os outros e sobre quem gostaria de ser. Eu, mais que muitas pessoas e como tantas outras, sofro do mal de não conseguir ser directa com receio de ser desgostada. Confesso ainda que quando o sou nem sempre alio a delicadeza às minhas críticas, tornando-me grosseira.
Preciso mudar, preciso melhorar. E aos poucos consigo. Muito lentamente, muito a modo e muito receosa, mas conseguirei tornar-me nem que seja numa ínfima parte do que tanto almejo. E para tal preciso saber, conhecer-me. O mundo da ignorância e do facilitismo nada de novo me traz. E bem sei que há quem me desgoste, com razão ou sem razão nem é chamado à questão, mas quão bom seria que se expressassem. Julgo que é pior não saber do que saber mesmo que isso implique dor. É que, na verdade, a dor desperta-nos e isso é um óptimo passo para a mudança.
Mudança. Progresso. Basta de viver presa ao passado.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Tudo o que faço ou medito...

Um poema...
daqueles que memorizamos de tantas vezes o lermos
daqueles em que choramos ao ler o primeiro verso.

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica
E eu sou um mar de sargaço -

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa

sábado, dezembro 30, 2006

Sem voz

Preciso de gritar ao mundo e não pensar nas consequências dos meus actos. Estou farta de ponderar, de esperar, de avaliar!... Quero gritar! (...)

sábado, dezembro 16, 2006

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Onze Minutos

"O desejo profundo, o desejo mais real é aquele de se aproximar de alguém. A partir daí, começam a ocorrer as reacções, o homem e a mulher entram em jogo, mas o que acontece antes - a atracção que os juntou - é impossível de explicar. É o desejo intocável, no seu estado puro.
Quando o desejo ainda está nesse estado puro, homem e mulher apaixonam-se pela vida, vivem cada momento com reverência, e conscientemente, sempre à espera do momento certo de celebrar a próxima benção.
Pessoas assim não têm pressa, não precipitam os acontecimentos com acções inconscientes. Elas sabem que o inevitável se manifestará, que o verdadeiro encontra sempre uma forma de se mostrar. Quando chega o momento, elas não hesitam, não perdem uma oportunidade, não deixam passar nenhum momento mágico, porque respeitam a importância de cada segundo."

Paulo Coelho

sábado, novembro 18, 2006

muito, meu amor

"És tão linda que nem dás vontade de foder, dizia. Eu não consigo. Dizia outras coisas, grande parte perde-se no ar, mas algumas, poucas, raras, ficam guardadas e voltam de vez em quando, nas alturas mais despropositadas, atrapalhando o que se está a fazer. És tão linda que nem te consigo foder. Eu, pelo menos, não consigo. A beleza não seduz, assusta quase, leva-nos para um sítio que não sabemos onde fica, sabemos só que não é aqui. Era assim que ele tentava explicar, como quem precisa de uma desculpa, o que lhe estava a acontecer, sabendo de antemão que não ia conseguir. Se há coisa que não se sabe explicar é por que se gosta do que quer que seja - um perfume, uma flor, um beijo - e o que seja isso de gostar que traz duas coisas tão próximas que as põe misturadas numa só e as outras tão distantes que se apagam facilmente. (...)"

"Todas as feridas serão material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. De preferência mantê-las abertas, até por fim sararem. De outro modo não deixarão outra cicatriz que não seja umas linhas, uma página, no máximo. (...)"

Pedro Paixão

sábado, novembro 04, 2006

domingo, outubro 15, 2006

Is it?

Sometimes I think I already am who I want to be, but I just can´t notice it.

04.07.06

sábado, outubro 07, 2006

à espera não sei de que momento

A minha mãe costuma-me dizer: "Não te preocupes que a verdade vem sempre ao de cima." E eu penso que enquanto ela não vem, o sofrimento permanece. Dói saber que alguém anda enganado, principalmente quando somos nós, ou alguém que nos está, directamente, ligado.
11.09.06

Mudez

(...)
Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda
Na voz dos outros, todo eu me afogo
Neste mar de silêncio, íntima noite
Sem madrugada.
(...)

Miguel Torga


[Post não relacionado com o dia de hoje. J
á há duas semanas que o pretendia escrever. (É necessário dizê-lo).]

sábado, setembro 23, 2006

(alguns) Mecanismos de defesa do ego

(de acordo com a teoria psicanalítica)



Mecanismos de defesa do ego: estratégias inconscientes que a pessoa usa para reduzir a tensão e a ansiedade, fruto dos conflitos entre o id, o ego e o superego. São mecanismos que visam evitar a angústia resultante dos conflitos intrapsíquicos.


  • Recalcamento - pelo recalcamento, o sujeito envia para o id as pulsões, desejos e sentimentos que não pode admitir no seu ego. Os conteúdos recalcados, apesar de inconscientes, continuam actuantes e tendem a reaparecer de forma disfarçada (sonhos, actos falhados, lapsos de linguagem...).
  • Regressão - pela regressão, o sujeito adopta modos de pensar, atitudes e comoprtamentos característicos de uma fase de desenvolvimento anterior. Frente a uma frustração ou incapacidade de resolver problemas, a criança ou adulto regridem, procurando a protecção de épocas passadas. Assim, o nascimento de uma irmão pode levar uma criança a fazer chichi na cama (eunerese) ou um adulto, face a problemas, pode fugir à realidade refugiando-se em atitudes infantis (dependência excessiva, choro, chantagem...).
  • Racionalização - pela racionalização ou intelectualização, o sujeito, ocultando a si próprio e aos outros as verdadeiras razões, justifica racionalmente o seu comportamento, retirando assim os aspectos emocionais de uma situação geradora de angústia e de stress. Deste modo, com justificações racionais tenta explicar-se de forma "aceitável" porque se bateu no irmão, se faltou ao exame médico, se mentiu ao marido ou à mulher, etc.
  • Projecção - pela projecção, o sujeito atribui aos outros (à sociedade, a pessoas, a objectos) desejos, ideias, características que não consegue admitir em si próprio. São reflexos desde processo, frases como Fulano detesta-me; aquele indivíduo não suporta críticas; a sociedade não tem ideais solidários; a boneca é má..., quando é a pessoa que as profere que tem esses sentimentos.
  • Deslocamento - pelo deslocamento, o sujeito transfere pulsões e emoções do seu objecto natural, mas "perigoso", para um objecto substitutivo, mudando assim o objecto que satisfaz a pulsão. Exemplos: o funcionário que sofre de conflitos no emprego e é agressivo ao chegar a casa; a criança que desloca a cólera sentida pelos pais para a boneca
  • Formação reactiva - pela formação reactiva ou inversão dos aspectos, o sujeito "resolve" o conflito entre os valores e as tendências consideradas inaceitáveis, apresentando comportamentos opostos às pulsões. Assim, uma pessoa pode ser demasiado amável e atenta com alguém que odeia; um sujeito afasta-se de quem gosta; manifesta uma excessiva caridade para esconder um sadismo latente; uma pessoa submissa e dócil pode esconder um dominador violento.
  • Sublimação - pela sublimação, o sujeito substitui o fim ou o objecto das pulsões de modo que estas se possam manisfestar em modalidades socialmente aceites. A eficácia do processo de sublimação implica que o objecto de substituição satisfaça o sujeito de forma real ou simbólica. Frequentemente, a sublimação faz-se através de psubstituições com valor moral e social elevado. Exemplos: um pirómano pode ingressar num corpo de bombeiros, modificando as suas relações com o fogo, agora utilizadas de forma socialmente reconhecida; o amor platónico pode esconder desejos considerados inaceitáveis pelo sujeito. A arte tem sido estudada como uma área que permite sublimações.
Fonte: Psicologia 12º ano (2ª parte), Manuela Monteiro e Milice Ribeiro dos Santos, Porto Editora (www.portoeditora.pt)


Decidi deixar-vos com este excerto, um pouco comprido, porque é realmente fascinante como podemos ver algumas pessoas aí retratadas.
E também para vos anunciar que entrei em Psicologia na Universidade do Minho e que estou muito contente com isso. Era o que eu queria e espero gostar muito do curso, apesar de já ter visto que tenho algumas cadeiras que não têm nada a ver com uma aluna que saiu de Humanidades (como é o caso de Fundamentos Matemáticos da Psicologia O.o).
Uma vez que esta semana, que começa já amanhã, é a semana de eu me mudar para Braga porque já começam as "actividades" e depois as aulas, penso que não vai haver possibilidade de eu actualizar o blog durante a semana, pelo que se o fizer, será exclusivamente ao fim-de-semana. Deixo, desde já, o meu aviso :)

P.S. Podem usar do vosso direito de não ler isto tudo! :p

segunda-feira, setembro 04, 2006

Desabafo "em cima do joelho"

És uma estúpida!


...

21.03.06

É triste aperceber-me que gosto de ti, verdadeiramente. É estranho dizê-lo. Mas gosto de ti, tanto quanto te odeio.



[Incapaz de dizer tudo o que sinto, fico-me pelas poucas palavras.]

sábado, setembro 02, 2006

Devaneios patetas

habituei-me ao cheiro da cebola nas mãos
já espremi limão entre os dedos e tentei eliminar o cheiro
confesso que não o fiz com muita convicção
de modo que o cheiro permaneceu
por isso habituei-me
julgo que até sinto um certo gozo em cheirar este aroma ácido
doentio? ridículo? não sei
julgo que a habituação nos leva a estas atitudes
habituação que poderá ter como sinónimos conformismo e preguiça
é isto que me move
ou melhor dizendo que não me move

01.09.06




[Não ia publicar esta patetice, mas como não havia nada mais que me incentivasse a uma actualização ao blog, cá ficou este pedaço de escrita, graças à insistência do colega blogger Rock rola em Barcelos que pergunta sempre por novidades :)
Em relação às actualizações ao blog, não sei se repararam que adicionei as "Leituras Recentes" (novamente). Estejam à vontade para comentar, tanto a patetice como o livro, se por acaso já o leram; eu vou a caminho de o finalizar (ainda falta...).]

sexta-feira, agosto 18, 2006

Manias (finalmente!)

Um convite recebido pelo estimado GatoPreto em Março e que só hoje consegui responder.

"Cada blogger nomeado tem de enumerar cinco manias suas, hábitos pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de tornar público o conhecimento dessas particularidades, terão de nomear cinco outros bloggers para participarem igualmente no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs, aviso do 'recrutamento'. Além disso cada participante deve reproduzir este 'regulamento' no seu blog."

1ª mania
Tenho a mania de trocar olhares com as pessoas que conduzem em vias rápidas e de sorrir às crianças que vão atrás.

2ª mania
Tenho a mania de pensar que as pessoas que conheço conspiram contra mim.

3ª mania
Tenho a mania que existem câmaras de vídeo por detrás dos espelhos de locais públicos (ex.: vestiários) ou salas com pessoas que observam as pessoas diante dos espelhos.

4ª mania
Tenho a mania de ler as últimas frases dos livros que começo a ler.

5ª mania
Tenho a mania de falar sozinha como se fosse com outrem e normalmente em inglês.



Muito bem, agora chegou a pior parte, principalmente porque a maior parte dos bloggers já deve ter respondido a este desafio, por esta altura. Enfim... vou tentar:

Hasta Siempre... por ti!
Sara Cohen

[Ambas ainda não responderam ao desafio (tanto quanto sei) : à primeira pela novidade, à segunda como incentivo ao seu regresso. Quanto aos outros 3 que faltam: não sei.]

sexta-feira, agosto 11, 2006

Tempo

Tudo o que existia no presente, deixará de o ser no futuro. Tudo porque o tempo transfigura. Somos esculturas do tempo. Somos a imagem viva do desgaste que o tempo inicia e prolonga. O que fomos não o somos. E o que somos não o seremos. Somos todos esculpidos da mesma matéria-prima. E essa matéria está sujeita à mudança, à vida, ao desgaste, à morte.

12 de Julho de 2006




[Inacabado? Talvez.]

quarta-feira, agosto 02, 2006

Não deixem morrer as palavras

- O Sr. já reparou bem num dicionário?... Num dicionário qualquer?... No de Morais, por exemplo... Ou no do povo... (Tanto faz!...) Já reparou?...
Eu esperei pela sequência do discurso. A aproveitar aquela mandriice tão boa de ter alguém a raciocinar por mim.
- Já reparou?... Pois a mim faz-me lembrar, sabe o quê?... Um jazigo de família. Ou melhor: um jazigo de nação. Uma espécie de mausoléu de papel, onde gerações de gatos-pingados empilharam séculos e séculos de palavras, alguma já definitivamente mortas, cobertas de bichos e de coroas saudosas... Outras vasquejaram nos últimos estremeções... E muitas, apenas em estado cataplético, à espera de um toque de dedos para regressarem à monotonia da vida diária... A este maldito bolor, onde ultilizamos ao todo quantas palavras vivas - diga-me lá quantas? Quinhentas? Mil?... Nem tantas, talvez!

Garanto-lhe que, em certos dias, quando subo o Chiado... ou entro num café da Baixa... e ouço essa gente parda a repisar, de manhã à noite, os mesmo termos... as eternas expressões... os substantivos inevitáveis... os adjectivos fatais... e o verbo ser, o verbo haver, e o verbo ter, e o verbo fazer... sabe o que me apetece?... Saltar para cima de uma mesa ou de um marco postal e gritar furioso aos homens: não deixem morrer as palavras, assassinos! Não deixem morrer as palavras!
Caía de bêbado, evidentemente. Mas pela boca roçava-lhe a alegria da volúpia de um sentimento fundo.
- E algumas são tão bonitas!... murmurava absorto. - Quando as vejo deitadinhas nas páginas dos dicionários, com mais de trezentos ou quinhentos anos, sabe do que me lembro sempre?... Daquela lenda das velhinhas milagrosas que, de ninguém as usar, o tempo tornou outra vez novas e virgens...
Deteve-me um momento a esquadrinhar na memória e por fim levantou um dedo de exclamação triunfante:
- Ardimento, por exemplo... Como é que os portugueses puderam esquecer-se desta palavra tão jovem, tão quente, tão expressiva e teimam em usar a infame «coragem» e o ignóbil «entusiasmo»?
E exemplificava:
- «Beija-a com ardimento...» E mais... muitas mais... Tantas que só por ablepsia... Olhe outra: ablepsia... E solerte! Agora já ninguém diz solerte! Porquê? «Fulano é solerte»? E ardiloso? E roaz?...
Para me eximir àquela autêntica inundação de palavras difíceis (e de gafanhotos) formulei com rapidez um plano de defesa que abrangia o seguinte desenvolvimento táctica: «concordar e retirar-me».
Mas o beberrolas, com a presença de um sorriso de lágrimas nos olhos, fincou-me as mãos no casaco, numa brandura de rogo:
- Antes de se ir embora quer fazer-me um favorzito, quer?... Só um favorzinho?... Faz?
Aquiesci.
- Então diga, em voz alta, só para eu ouvir, esta palavra tão bonita: protérvia... Diz?... Protérvia...
E, como eu me retraísse, intimou-me autoritário:
- Vá, diga: protérvia.
- Protérvia... - desembuchei, envergonhadíssimo como se pronunciasse uma obescinidade.
A boca do explicador de português babou-se de consolo admirativo pelas palavras esdrúxulas.
- Protérvia! [...] E impérvio? E estólido? Ouça: e se eu lhe chamasse estólido, gostava? Seu estólido!...
E riu, riu, riu, desdentadamente. [...]
Confesso que aproveitei a aberta do estólido e fugi.


José Gomes Ferreira, Gaveta de Nuvens

quarta-feira, julho 26, 2006

Soneto a Antero de Quental

Antero de Quental, o sonetista,
Obrigou-se às regras do soneto,
Compondo sempre e mais um quarteto
Tal filósofo e idealista

Que avança em busca da Razão,
Sobrepondo-se às dificuldades,
Confiando nas suas faculdades,
Intentando chegar à perfeição

Conseguindo por essa forma clássica,
Aliando inspiração fantástica
A um talento que lhe foi inato,

Disciplinar a personalidade
Que ficará na perpetuidade
Memorizada em cada soneto


Construído a 24.10.05, a 03.11.05 e a 08.11.05.


[Tentativa... Sugestão da professora de Português A que o corrigiu.

Muitas falhas na estrutura do soneto.
E a meu ver, pouco conteúdo.
Mas afinal de contas, foi o meu primeiro.]

terça-feira, junho 27, 2006

Descobertas

Descobri que já não receio escrever uma vírgula antes de um "e".
Descobri que nem sempre os advérbios de modo precisam estar entre vírgulas, nem o "portanto" ou o "enfim" ou o "então" ou o "até"...
Descobri que as pequenas frases podem ser simples, mas cheias de significado e importância.
Descobri que o mundo que uma palavra contém é muito maior do que eu possa imaginar.
Descobri que aprendi a desafiar o dicionário.
Descobri que o tempo de uma descoberta não se pode apressar.

Descobri que a cada momento me vou aventurando, sem saber.

A escrita não pode ser prisão.

"(...) só para dizer que escrevo com convicção. Não... Só para dizer que me liberto. Sim, é isso."

Não continua a ser este o objectivo?

sexta-feira, junho 16, 2006

21.12.05

Julgo que é receio o que sinto pela escrita. Receio de falhar. Receio de já não saber. Receio de desgostar. O desejo de melhorar assola-me demasiado o espírito e, por isso, receio tentar.
Escrever bem. O que é isso? Saber usar correctamente as regras gramaticais? Escolher cuidadosamente as palavras a usar? Escrever bonito? Qualquer um que saiba bem o português, que domine os dicionários e as gramáticas sabe escrever bem.
Julgo que é nesse escrever que me tenho concentrado. Escrever textos bonitos que deliciem o leitor; histórias que chamem, que apaixonem; palavras que brilhem aos olhos do leitor. Para quê o brilho quando não há chama? Para quê um reflexo quando não há uma imagem?
E cansa-me esta escrita. Talvez, porque não a sei. É bom imaginar: vaguear no pensamento e inventar cenários, personagens, situações e relações. É bom e eu gosto, e gosto muito. Mas ainda só sei imaginar e sou incapaz de palavrar as muitas ideias que crio. E é isso que cansa, a tentativa frustrada e falhada e não saber sequer palavrar esse cansaço.

domingo, junho 11, 2006

Conclusão I

Ando a nadar contra a maré, mas para onde a maré vai há uma parede que me barra o caminho.
(25.05.06)
...

Só me resta morrer.

sexta-feira, maio 05, 2006

Teatro

Regressei. Não definitivamente porque ainda não tenho internet em casa, pelo que, neste momento, me encontro na biblioteca da escola. Fiquei tocada pelos vossos comentários. São todos muito queridos e é bom saber que apesar da pasmaceira deste blog continuam a visitar-me. E, por isso, vos agradeço.

Este é o único texto completo que escrevi nos últimos meses e que é mais que um aglomerado de frases. É um texto que nasceu da vontade de cumprir um pedido da professora da aula de Oficina de Expressão Dramática que nos convidou a encarnar uma personalidade conhecida e a escrever por ela uma definição de teatro e, afinal, serviu também de pretexto para me lançar nas malhas da escrita, novamente.





Uma cidade de um país de um continente, do dia X do mês Y do ano Z

Queridos irmãos galácticos!

Durante e após 13 anos de infiltração neste vosso planeta Terra percebi e conclui, com certeza, que o teatro é um método importantíssimo no processo de socialização entre vós.
Como seres sociais que sois, demonstrais uma grande necessidade de vos integrardes em grupos e de não vos sentirdes excluídos, pelo que fazeis uso de várias artimanhas, de modo a serdes bem sucedidos nesse vosso propósito. Por isso, representais. Representais das mais variadas formas sem nunca perderdes, no entanto, a identidade que vos torna diferentes e únicos. Encarnais as mais variadas personagens e o que me causa maior espanto é nem vos aperceberdes que o fazeis. Por isso, sois o filho ou a filha quando estais com os pais, sois o trabalhador ou o aluno para os colegas e o trabalhador ou o aluno para o patrão ou para o professor, sois alguém em grupo, sois alguém em privado com outra pessoa e sois ainda outra pessoa quando estais sozinhos.
Como vedes, sem o teatro a vossa vida perderia o significado, vós perderíeis a vossa identidade e perderíeis a noção dos outros e do vosso papel para com os outros. Como vedes, o teatro não é a mentira, é a capacidade de poderdes ser outros, é a capacidade de vos camuflardes a vosso bel-prazer sem , no entanto, deixardes de ser quem sois, ainda que não saibais quem verdadeiramente sois. Podeis dizer que as personagens que representais escondem o vosso verdadeiro "eu", mas também podeis dizer que as personagens que representais constroem o vosso verdadeiro "eu"e fazem de vós o que verdadeiramente sois: actores do mais íntimo da vida que existe em vós.


Respeitosamente,
o Extra-Terrestre





28 de Abril de 2006

domingo, dezembro 04, 2005

Selma's Songs

- What about China?
Have you seen the Great Wall?

-All walls are great
If the roof doesn't fall



Björk & Yorke- I've Seen It All

sexta-feira, novembro 25, 2005

Leituras

Todo este tempo que fiquei sem escrever, foi o tempo necessário para me aperceber que precisava de voltar a ler.



"Fédon" de Platão (aula de filosofia)

"Os Mais" de Eça de Queiroz (aula de português)

"Onze Minutos" de Paulo Coelho (acabei de o ler hoje)

"Inês de Castro" de María Pilar Queralt Del Hierro (é o livro que se segue)



sábado, novembro 12, 2005

Oxalá

*

Oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
Oxalá, o passo não me esmoreça

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, o povo nunca se esqueça

Oxalá, eu não ande sem cuidado
Oxalá, eu não passe um mau bocado
Oxalá, eu não faça tudo à pressa
Oxalá, meu Futuro aconteça

Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá
Oxalá, que a tua vida também

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, O povo nunca se esqueça

Oxalá, o tempo passe, hora a hora
Oxalá , que ninguém se vá embora
Oxalá, se aproxime o Carnaval
Oxalá, tudo corra, menos mal


"Oxalá" de Madredeus
*Fotografia de: Daniel Blaufuks (www.madredeus.com - galeria)

quarta-feira, outubro 26, 2005

Pedro e Ana


Não há luz no início da cena. Uma personagem masculina está sentada, numa cama, virada para a parede com as mãos na cabeça e com um ar de tristeza. Começa-se a aproximar em direcção à cama uma personagem feminina. Duas luzes focam-se sobre ambas as personagens.

Ana: Pedro?... (tom de voz baixo que denota receio)

A personagem feminina, Ana, hesita e pára a meio caminho. Silêncio. Ana reaproxima-se e deixa-se pousar ao de leve na cama apoiada nos joelhos. A personagem masculina, Pedro, permanece imóvel.

Ana: Eu sei que não me queres por perto neste momento e muito menos ouvir-me… mas eu não posso partir sem te dizer algumas das coisas que tenho entaladas na garganta. (pausa) Quero que compreendas que é uma oportunidade única e que… e que é praticamente irrecusável! Nunca na vida teria algo tão maravilhoso aparecer assim diante de mim. Tens de compreender que eu também fiquei numa situação demasiado delicada. (pausa) É o sonho da minha vida! Não o posso perder assim sem mais nem menos! (silêncio na vã espera de receber algumas palavras do receptor) Também compreendo que estejas, assim, nesse estado. Mas gostava imenso que me dissesses alguma coisa. (pausa) Pelo menos olha para mim!

Pedro vira-se repentinamente e olha-a intensamente. Ana retribui o olhar e ficam uns longos minutos naquele olhar silencioso.

Ana: Pedro, também não é nada fácil para mim…

Pedro encosta um dedo aos lábios de Ana num gesto silenciador.

Pedro: Não digas mais nada. Era inevitável. (tom de certeza)

Silêncio. Ana tem um impulso de quem vai falar, mas Pedro interrompe-a e continua.

Pedro: A dança é o teu sonho, sim, eu sei. Não podias perder esta oportunidade, sim, eu também sei. Nós… (o discurso que se segue denota grande incerteza) nós fomos um acaso; nunca planeamos nada; foi tudo uma incerteza; não havia nenhum ponto nos “is”. Eu para ti sou exactamente o “sem mais nem menos” e pelo qual não podes desistir desta oportunidade. (pausa) Passámos um longo tempo juntos, mas nunca chegou a ser nada sério, certo? (a expressão de Ana, neste momento, torna-se drasticamente triste) Eu sei que esta não é uma situação fácil, mas não há necessidade de dramatizá-la, não é? Segue o teu coração, segue o teu sonho. Tu foste feita para a dança. E eu… eu hei-de continuar com o curso de arquitectura.

Silêncio prolongado. O ambiente torna-se, extremamente denso.

Ana: Se tu realmente pensas assim, fico aliviada por saber que compreendeste. E sim, nasci para a dança. (pausa) Faz-me um favor…

Pedro assente.

Ana: Fica com as sabrinas que deixei cá.

Dão um beijo apaixonadamente triste. Ana levanta-se, sem olhar Pedro, pega na mochila que anteriormente pousara no chão e dirige-se à porta. Pedro tem o olhar fixo no chão. Silêncio pesado. Ainda antes de sair, Ana vira-se para Pedro.

Ana: Nunca foste o “sem mais nem menos”.

Ana sai e Pedro fica a olhar a porta, triste.



23 de Outubro de 2005






Esta foi uma tentativa de um texto dramático que fiz para a aula de teatro, mas como se vê, "saiu" assim, muito fraquinho. Já não escrevo (mesmo) há bastante tempo e o pouco que tenho escrito tem sido assim, fraco. Os pseudo-dotes talvez se estejam a evaporar... Nada dura para sempre, enfim. De qualquer das maneiras quero e gosto muito de ler os vossos comentários aos teus textos que cá ponho :)

P.S. Não sei o autor desta imagem :/

terça-feira, outubro 18, 2005

Poema

Já lhe falei
Mas não compreendeu
Repeti, expliquei
Mas não percebeu

Não sei o que fazer
Não sei o que dizer

Mas insistiu em saber
E eu mais palavras não sabia
Para lhe poder dizer
O que não percebia

A pequena era persistente
Mas o que podia eu fazer
O amor é algo que se sente
E não há palavras que o possam descrever




Porque gosto de recordar e acho engraçado o que se deixa escrito com 12 anos.

domingo, outubro 02, 2005

Recordações de invenção

Como em todas as minhas histórias de adolescente, estava um fim de tarde ameno. O sol mergulhava, na sua calma, nas águas do oceano atlântico e pintava o céu num tom de laranja que me preenchia a alma. Alma que se encontrava, ainda, presa a este corpo de pele branca e seca, escondida, apenas, pelo biquini laranja e o saiote azul marinho, com cujas tirinhas me entretinha. A maresia fresca que pairava no ar enchia-me os pulmões e fez-me divagar... O corpo estava naquela praia, mas a mente viajava já entre mil e um pensamentos das mais variadas sensações. A primeira a sobressair do baú das memórias foi o cheiro ao cozido de bacalhau que a minha mãe costumava fazer no tempo inverniço. Sempre cozinhou com tanto carinho!... Tudo era cuidado ao mais ínfimo pormenor, nada podia faltar e tudo o que havia era maravilhoso. "Um verdadeiro jantar dos deuses!", dizia o meu pai limpando a boca ao guardanapo, encostado à cadeira de papo para o ar. E realmente, os jantares da minha mãe sempre foram deliciosos e eram sempre propícios a longas conversas que se estendiam até altas horas da noite. Eram bons os tempos passados com os meus pais. A nossa relação era, sem dúvida nenhuma, uma amizade extremamente forte e rica. Tantas experiências em comum, tantos conhecimentos e relatos partilhados, tanta vida entre nós. E as nossas viagens? Oh, as nossas viagens!... De um canto ao outro do país, dormitanto em hóteis, cantando no carro ao som dos velhos cd's do meu pai, comentando, criticando, rindo... Ainda me lembro quando fomos todos juntos ao Jardim Zoológico de Lisboa. Saí de lá com os pés em bolhas, mas valeu tanto a experiência! Era (e ainda deve ser) enorme! e são tantos os animais lá hospedados! Desde os ferozes leões tão esperados naqueles sítios, os chimpanzés tão fofinhos e brincalhões, aquelas aves pequenas todas coloridas, as girafas com o seu pescoço grandemente engraçado, os hipopótamos, até os répteis e lembro-me de ver avestruzes! Houve até uma avestruz deveras patusca que decidiu engraçar com a minha mãe, talvez pela camisola colorida que ela levava nesse dia, ainda não sabemos. As lembranças de bons momentos passados saltitavam em mim e eu deixava-me ir... até sentir na cara uma pequena gota de água que, insistentemente, se multiplicou. Começou a chover fortemente e de rajada e fui obrigada a levantar-me e atravessar a praia até ao café. Agora, era o ar fresco que avizinhava a noite que me despertava de regresso ao corpo e ao presente.

11 de Agosto de 2005


Em resposta ao desafio do mês "Palavra de ordem!" do Escreva!

sábado, setembro 17, 2005

Tragic Kingdom

"You and me
We used to be together
Every day together always

I really feel
I'm losing my best friend
I can't believe
This could be the end"


No Doubt - Don't Speak

segunda-feira, setembro 05, 2005

Cartas a um Jovem Poeta

"Rainer Maria Rilke nasceu em Praga em 1875, filho de um oficial do exército e de uma mãe fanaticamente religiosa.
Estudou filosofia, história, literatura e arte em Praga, Berlim e Munique. Começou a escrever poesia desde muito cedo.
Em 1901 casou com Clara Westhoff e viveram em Worpswede até ao nascimento do único filho, tendo-se depois mudado para Paris, em 1902. Morreu em Valmont, a 29 de Dezembro de 1926."*




"Atraídos pela sua poesia, era frequente alguns jovens escreverem a Rilke, falando-lhe dos seus problemas e aspirações. De 1903 a 1908 Rilke enviou um notável conjunto de cartas a um jovem cadidato a poeta, sobre a poesia, o amor e a sensibilidade, revelando também, desta forma, a sua relação com a vida e a dificuldade que um espírito sensível tem em sobreviver num mundo duro e implacável."*




Adorei ler este livro e agradeço imenso ao AF do Segundo Impacto que me sugeriu a sua leitura num comentário a um texto que eu cá tinha posto. Tal como ele disse, é um livro "recheado de conselhos e ideias muito interessantes" e eu aconselho, vivamente, a todos aqueles que se interessam pela escrita e a tantos outros também, porque são conselhos acerca da vida.


*Direitos reservados por Coisas de Ler Edições, Lda.

segunda-feira, agosto 08, 2005

10 Coisas

Esta foi uma resposta a um post do Blog Luz e Sombra que pedia 10 coisas sobre nós próprios e, como tenho andado "seca" de ideias, achei que isto vos pudesse interessar; sempre é um bocadinho mais de mim.

1.Fisicamente. Há duas coisas que gosto especialmente em mim: os meus olhos e os meus sinais. Os olhos, apesar de serem comummente castanhos, são grandes e fascinam-me pela sua vivacidade de expressão, pelo brilho das emoções e pela sua mobilidade observadora. Os sinais são, para mim, marcas de identificação pessoais e adoro cada um deles em mim (não são poucos).
Nos outros, perco-me apaixonadamente nas mãos e nos sorrisos. Adoro mãos finas de dedos compridos, as mãos ágeis e delicadas. Os sorrisos se forem alegres e sobretudo sinceros, enfeitiçam-me por completo, indescritível. Adoro também cabelos compridos e lisos (não fosse o meu assim); a minha mãe bem insistiu, quando eu era pequena, em cortá-lo pequenino (à tigela), mas não adiantou, a minha fixação “falou” mais alto.

2. Desorganizada. Sou muito desorganizada mentalmente e isso verifica-se depois nas pequenas coisas diárias. É aborrecido porque me esqueço, muito facilmente, de várias coisas, como compromissos, aniversários, tarefas, planos e afins… e também na própria escrita, em que o pensamento é muito mais rápido que a mão, as ideias perdem-se na confusão e os parágrafos, muitas vezes, ficam incompletos. Isso faz-me sentir sempre um pouco perdida e, consequentemente, frustrada por nunca encontrar algo que se assemelhe a um Norte.

3. Monotonia. Posso muito bem usar o verbo “detestar” sem hesitação porque detesto, mesmo (!), a monotonia. Deixa-me doente psicologicamente. Repetições, rotina são me embaraços. Preciso de ver, ouvir, fazer coisas diferentes quase constantemente. Para mim a vida tem que ser aproveitada e a monotonia anula esse possível proveito.

4. Sem pontualidade. Vergonhosamente, chego atrasada a todo lado. Não tenho a mínima noção do tempo, por isso não consigo controlar o tempo e as minhas tarefas, chegando atrasada a qualquer lado. Acho que se chega a tornar uma deficiência porque eu não consigo mesmo ter noção, quando penso que 10 minutos chegam, afinal eram preciso 15 ou 20 e nunca aprendo.

5. Preguiçosa. Demasiado preguiçosa! Qualquer espécie de iniciativa ou vontade própria são aniquiladas sem piedade nenhuma. Tão preguiçosa que chego a ser apática. A minha posição favorita é deitada e qualquer oportunidade que tenha para deitar a cabeça é, imediatamente aproveitada, como por exemplo, nas cadeiras ou mesas do café, ou até na mesa de jantar cá de casa ao fim da refeição. Por isso, uma das coisas que muito prezo, é dormir. É uma característica que choca bastante com a vontade asfixiante de querer fazer coisas novas e diferentes. Enfim… contradições.

6. Letras coloridas. Associo cores às letras e simpatizo com algumas e outras não. Alguns exemplos: para mim o “e” é amarelo e o “i” é vermelho; não gosto da letra “F” porque a acho antipática e feia, adoro as letras redondinhas, como o “B” e o “G” porque são amigáveis e fofinhas.

7. Música. Apercebi-me, recentemente, que é um vício ouvir música. Não ouvir música um dia inteiro é uma tortura, mas, felizmente, isso quase ou nunca acontece. Se não ouço música, tenho com certeza alguma na cabeça e chego a cantarolar inúmeras vezes, apesar da minha voz soar um pouco a “cana rachada”. A música para mim é o “background” da minha vida. Tal como os filmes têm sempre uma qualquer música a acompanhar cada cena, eu associo músicas a alturas da minha vida. A música é o embalo das minhas emoções; emociono-me conforme a música que estiver a ouvir ou escolho, delicadamente, as músicas de acordo com a minha disposição.

8. Escrita. Sufoco se não escrever. Chego a desesperar se estiver numa daquelas alturas em que preciso mesmo (!) de escrever e não consigo. A mão fica parada, a caneta escorrega pelos dedos, o papel continua em branco, os olhos vagueiam… não me há cenário interior mais agoniante. Como nunca converso com ninguém (excepto comigo própria) acerca dos meus sentimentos, tenho uma necessidade enorme de os despejar através das palavras escritas. Caso contrário, fica tudo entalado, sufocando a garganta e, às vezes, acabando em lágrimas.

9. Racional. Não sou uma pessoa muito emocional, a minha tendência é mesmo para o racional e como tal sufoco tudo que seja emoção ou sentimento, racionalizando a maior parte das coisas da melhor maneira possível. Fico deveras embaraçada quando vejo alguém chorar ou a falar de sentimentos abertamente. Por isso, evito situações demasiado delicadas nesse aspecto porque nunca sei o que fazer ou dizer. Penso que todas as pessoas que convivem comigo têm noção disso e por isso, sabem que não me conhecem muito bem, pois nunca conto nada de mim, a não ser coisas banais do quotidiano.

10. Teatro. Em pequena, quando exploramos desejos de ter diversas profissões, decidi, por último, que queria ser actriz. Entretanto, o tempo passa, uma pessoa aprende que há coisas que não podem passar de sonhos e que até são absurdas, esquece-se, até que escolhi Humanidades para o 10º ano e no 11º tive O.E.D. (Oficina da Expressão Dramática), o que fez com que o desejo voltasse. Adorei a experiência. Passaria tempos infinitos naquelas aulas e até me cheguei a inscrever num workshop de teatro leccionado pela companhia de teatro de Barcelos – Capoeira – que, por sua vez, também foi uma experiência muito proveitosa. Com este desejo crescente e fortificado, espero entrar na esmae, no Porto, daqui a um ano e licenciar-me em Teatro.

quarta-feira, julho 27, 2005

...

O silêncio pairava no quarto.Duas da manhã e sem saber o que escrever.
Estava tudo calmo, nada se mexia e apenas se ouvia o respirar leve da cidade.
Duas e meia da manhã e ainda sem saber o que escrever. A caneta andava de um lado para o outro na sua mão, o caderno estava pousado na cama com as folhas em branco e uma tela preta havia atravessado a sua mente. As suas pernas moviam-se debaixo do lençol ansiosas, as mãos começavam a transpirar e a caneta escorregava. Um calor intenso percorria-lhe o pescoço e descia até às pernas. A impaciência era grande e a necessidade de o fazer ainda maior. O calor abafado não ajudava e os olhos também começavam a pesar.
Tinha que escrever! Ela sentia-o e por isso não conseguia largar a caneta nem deixar de fixar o caderno. A caneta estava pousada na folha, mas esta continuava em branco. A mão não se mexia e ela esperava ansiosamente que as letras se começassem a desenhar e o texto a formar-se, mas o que existia era apenas um cadeeiro de luz fraca, ela e um silêncio que escorria nas paredes, que preenchia o quarto e a sua mente.
Adormeceu sobre o caderno. Esta noite não o conseguiu, tinha que tentar outra vez. Não podia desistir. Ela sabia que existia, ela sentia... Era forte, tão forte que a deixava de rastos. Não conseguia e sentia-se mal. A força estava dentro dela, mas como conseguir transpô-la no papel?
Iria esperar que o dia de amanhã corresse para que a noite se exibisse.
Iria passar todo o dia à espera. Esperaria ansiosamente pela noite, para tentar mais uma vez. Apenas na noite.





[Não tenho andado em bons dias de escrita e como outro dia descobri mais uma pastinha com os meus escritos, resolvi mostar-vos este porque se adequa ao que ando a sentir. (Se bem que a noite já perdeu um pouco dessa magia.) O texto não tinha título e não sei qual lhe pôr e, infelizmente, também não tinha data marcada na folha, todavia presumo que seja perto de 2003.]

quarta-feira, junho 22, 2005

Uma noite

Os seus pés hesitavam em subir os degraus da escada de caracol. Ele estava lá em cima, sentado na cama, virado para a parede à espera dela. Ela sentia-o entristecer ainda antes de o avistar. Demorou-se em passos pequenos a subir as escadas, no último degrau parou. Parou a olhá-lo. Estava encurvado e as suas mãos continuavam a segurar a cabeça como há minutos quando a havia sentido sair. Pousou levemente a mochila no chão, descalçou as sabrinas e começou a caminhar… pé ante pé, sem pressa, num cuidado intenso preocupado com o ruído. Queria conservar o silêncio, não para surpreendê-lo porque sabia que a sua presença lhe chegava aos sentidos, mas para eternizar o momento nos sons mudos que cresciam no silêncio. Aproximou-se da cama, deixou-se apoiar suavemente nos joelhos e chegou-se a ele. Com receio estendeu a mão e acariciou-lhe a cabeça rapada. Ele virou-se num movimento demorado e fitou com profundidade os seus grandes olhos brilhantemente castanhos. Olharam-se durante uns longos minutos e conversaram, assim, em silêncio. Partilharam emoções de boca fechada e entenderam-se sem linguagem palavrada. Um beijo profundamente sentido quebrou a linha do olhar e lançou-os delicadamente nos lençóis da cama. Os lábios dele percorriam-lhe o pescoço e o peito numa suavidade que saboreava. Em movimentos sensuais as mãos dela acariciavam-lhe a careca tão apreciada e descendo pelo corpo apertavam os dedos contra as costas dele. As roupas iam deslizando pela cama e as pernas moviam-se, entrelaçavam-se, as dele nas dela. A pele pálida dos dois confundia-se, o suor misturava-se e os corpos uniam-se. Os movimentos da paixão cresciam, iluminados pela vela repetidamente acesa a cada noite como uma espécie de lembrança, e cuja chama crescia como que alimentada da energia que unia os dois amantes. Amaram-se apaixonadamente toda a noite e, ainda antes dos raios do sol poderem intensificar-se, ela vestiu-se, pegou nas suas coisas e partiu definitivamente, deixando apenas a vela e a memória de uma noite em que ele a sentiu apaixonar-se.

20 de Junho de 2005

sábado, junho 18, 2005

Hoje, matei-me

É hoje que me mato. Falta-me pensar numa forma de o fazer. A ideia dos compridos associo-a a uma morte indesejada com o objectivo de chamar a atenção. A ideia de me atirar para debaixo de um comboio não me satisfaz; é demasiado rápida, não se sente a dor como se deveria. Quero sentir a vida esvair-se do meu corpo. Quero sentir as picadas da morte roçarem a minha carne até aprofundarem a ferida da dor. Quero morrer de dor! Há quem diga que ninguém assim morre, mas eu quero. E como é hoje que o quero, vou contrariar os instintos que se apoderaram de mim por todos estes anos fétidos e vou ter iniciativa. Sim. Vou começar algo e vou acabá-lo. Vou ter a força de vontade para elevar o meu espírito e materializar uma ideia, escapando assim do mundo ilusório em que sempre vivi; um mundo de pensamentos, teorias, intenções, suposições…! Vou construir algo. E vai ser algo que vos vou poder mostrar. A seu tempo tudo se irá compor. Hão-de ver a minha energia numa criação minha. Numa criação minha, minha! Eu vou fazer algo… nem acredito nisto. Não posso perder tempo novamente com divagações. Vamos ao que interessa: a forma de me matar. Será uma criação vermelha, pintada com o meu sangue. A ideia de cortar os pulsos não me sai de mente, mas não é original, vão desprezar a minha criação por ser repetida. Como me mato então? Algo que doía muito. Tem que ser com dor! Não pode ser de outra forma porque é de dor que quero morrer. Já o disse e repito.
Posso escrever Dor bem fundo na barriga e deixar o sangue escorrer até o corpo secar. Assim alio o desejo de morrer de dor à vontade fatal de escrever. A escrita da morte em mim. Eis uma ideia bonita. A navalha está já ao meu lado, juntamente com os meus outros instrumentos: a caneta e o papel. Tenho o cenário perfeito! Um chão frio de cimento carregadamente cinzento e nada e ninguém ao meu lado exceptuando o meu consolo: os meus instrumentos. Mato-me com o que mais gosto. Mato-me da maneira que quero e realizando um desejo velho que havia guardado há já um tempo na gaveta dos pendentes.
Deixei as roupas à porta de entrada. Sempre gostei da arte do nu e é assim que me vão fotografar quando me encontrarem. Vai ser tão belo... Espero poder apreciar esse momento do outro lado, como lhe chamam. Vão me encontrar na posição em que nasci, escondendo a Dor em mim, assim abraçada pelos meus braços, guardando-a bem junto ao peito que deixará de respirar em breve. Sim, vai ser a minha criação final, mas vai ser a melhor que alguma vez terei feito. Duvido que conseguisse, algum dia, fazer alguma que superasse esta que estou prestes a começar. Assim, despeço-me deste esterco numa beleza jamais vista por mim e pelos que me conhecem. Estou ansiosa por ver as expressões nas caras deles. Não que isso seja muito importante, mas quero ver reacções; é sempre bonito.
Inspiro fundo… não por receio, mas por ansiedade. Não paro de repetir mentalmente que vou, finalmente, iniciar e finalizar algo com as minhas próprias mãos. Pego na caneta para desenhar as letras da Dor na minha barriga. Uma letra seguida da outra com espaço suficiente para não se atropelarem, para se distinguirem maravilhosamente umas das outras. A tinta sinto-a fria e é um primeiro sinal de que a minha criação começou. O papel ao meu lado está preenchido como há muito já não estava. Este dia é meu! A caneta já não treme nos meus dedos, está firme e desenha. A minha caneta desenha! Já não me lembrava de tal coisa. Estou prestes a emocionar-me, mas tenho que continuar, tenho que combater os meus instintos por mais fortes que eles aparentem ser. Pego na navalha com cuidado para ter a certeza que não me engano em nenhum passo. Levanto-a, agarro-a com firmeza e começo a desenhar com determinação. Já dói… Dói e os meus lábios erguem-se num ligeiro sorriso. O D está desenhado e sangra. O o ganha vida e seguidamente o r. O sangue escorre lentamente da barriga para as virilhas e daí para o centro de fertilidade. É tempo de me deitar… A caneta ensanguentada está sobre o papel que agora vive. Deito-me, abraço-me e fecho os olhos a metade. A dor torna-se aguda e invade-me o corpo como nunca. Sinto as feridas abrirem-se como quem se encontra no processo de nascimento. Gostava de poder descrever esta dor por que tanto ansiei, mas é demasiado real para a retratar só com palavras. A dor é tanta que de mim e dela já não há linha separadora. Somos uma. Unidas para a morte que se avizinha. Aos meus olhos o cinzento carregado, nos meus ouvidos o zumbido do silêncio e do escorrer do sangue. Sorrio… eu sorrio! Olho-me o melhor possível para que possa fechar os olhos e ficar com a imagem da minha criação gravada nas pálpebras. Sei que a minha expressão facial é a de alguém que dorme tranquilamente um sono de satisfação. Consegui finalmente… Quem me achou incapaz de fazer algo por mim? Mais cedo ou mais tarde todos acabam por encontrar o seu momento de felicidade. Eu encontrei-o hoje.

quarta-feira, junho 15, 2005

A espera

Uma camisola colorida
Umas calças confortáveis
Dois pés de meias frios
Uma mão quente outra fria
Olhos cansados expectantes

Os óculos repousam no nariz
A boca fina mais pequena ainda
Bochechas trincadas por dentro
Movimentos parados

Uma música vibrante
No coração a bater
Um peito que sobe e desce
Acompanhado da barriga
As pernas cruzadas
E os ombros caídos

Olhos abertos caminhantes
Dedos separados impacientando
Movimentos de silêncio
Parados na espera de escrever

quarta-feira, maio 25, 2005

Cansaço


(olhares.com)

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço. (...)"

Álvaro de Campos

segunda-feira, maio 16, 2005

Carta de um suicídio

Não quero começar com porques como toda a gente faz. Queria começar com outras palavras para ser diferente. E é disso que eu tanto necessito. Diferença. Diferença sem escândalo e sem me sentir mal com isso. Diferença disfarçada, só dentro de mim. Os olhos que passem por mim, as bocas que falem de mim, mas que eu não os veja nem os ouça. Não vos quero sentir em mim, por isso afastem-se quando me falarem. Os pensamentos são fontes de energia, sabiam? Quanto mais longe estiverem, melhor. Não vos sinto. Não quero. Há quem fale em fossos; entre o “eu” e o “vós”. Prefiro a palavra abismo. Dá-me uma ideia de maior distância. De distância mortal. Eu tenho o meu. E pretendo que ele cresça bem fundo... Até um grito se perder nas paredes. Não quero aproximação. Por isso não se atrevam a construir pontes. Não que se importem em fazê-lo, mas quando se lembrarem já estão avisados. Afastem-se que é o melhor a fazer. Não sou coitada. Sou suicída. Deixem-mo ser. Só peço que se afastem e me deixem matar. Não quero pena nem compaixão. Não faço isto com essa intenção. É tão difícil de perceber? Nunca tive amor em mim e, sem vos querer chocar propositadamente, vocês também não. Amor... Uma palavra viva para um sentimento morto. Aqui! Noutros mundos talvez seja vivo. Aqui nunca nasceu; por isso, nem morto está. É inexistente. Não amem porque não são capazes. Nem pensem que são amados. Ilusão é uma perda de tempo. Mas sou eu quem fala: a suicída. Por isso não me escutem. Não pretendo pregar. É uma espécie de aviso. Só para não dizerem que não me despedi. Não é que sinta necessidade de vos responder aos caprichos. É apenas ao meu que respondo. O capricho rebuscado de escrever. Ai... a escrita é a minha pá. Sem ela o meu suicído seria tão mais difícil. Obrigada. Ajudas-me a cavar o abismo e eu acaricio-te. Troca justa diria eu. Só quero o afastamento. Mas de ti isso é impossível. Sem ti morreria para a existência própria. Não imagino sequer um algo em mim sem ti. És a minha vida. Mas tendo em conta que vida é o encarne da alma e que só assim vivo, és mais que minha vida, és a minha alma. Talvez seja isto que eu queria verdadeiramente dizer. O entorpecimento da mente dificulta-me a expressão. Desculpa-me. Eu tento, mas as névoas adensam-se tanto...! Inspiro, expiro, suspiro... mas o peso continua. Perdoa-me a minha fragilidade. Perdoa-me o ser fraco. Ajuda-me a alimentar a alma. No fundo és tu própria que cresces se assim for. Sim... eu sei que sou suicída, mas só para os outros. Para ti quero viver. Abraça-me, bafeja-me que sem ti sou inconcebível.

domingo, maio 15, 2005

Plof!


Sensação de silêncio, isolamento, conforto...
Suave, macio...
Adormeço...



[Ofereceram-me a imagem, por isso, não sei qual é o autor.]

segunda-feira, maio 09, 2005

O que eles escreveram sobre Fernando Pessoa

"Pessoa, seu primeiro leitor, não duvidou de sua realidade. Reis e Campos disseram o que talvez ele nunca diria. Ao contradizê-lo, expressaram-no; ao expressá-lo, obrigaram-no a inventar-se. Escrevemos para ser o que somos ou para ser aquilo que não somos. Em um ou em outro caso, nos buscamos a nós mesmos. E se temos a sorte de encontrar-nos - sinal de criação - descobriremos que somos um desconhecido. Sempre o outro, sempre ele, inseparável, alheio, com teu rosto e o meu, tu sempre comigo e só".

(Otávio Paz, O Desconhecido de Si Mesmo: Fernando Pessoa in Signos Em Rotação, col. Debates, nº 48)

quarta-feira, maio 04, 2005

quinta-feira, abril 28, 2005

Dimensões

Um ímpeto move-me à escrita
E dele alimento a caneta
Até que os olhos se perdem
No imenso branco do papel

Vagueiam perdidos no pensamento
Alheados do brusco sentir exterior
Que anestesia fortemente a alma
Tal é o choque do subtil com o real

Um real indefinido a todos
Porque vive de si para si
Reflecte-se em si mesmo
E a dimensão torna-se outra

O choque é então ilusão
Não chega a existir
Porque os diferentes reais
Jamais se encontrarão

Vivo assim num despertar
E adormecer ilusório
O exterior não existe em mim
Só o interior me engole

É o exterior ilusão?
Como é ilusão o choque de reais?
Do meu real com o real em si
Que é real e ninguém conhece

27-04-05

sexta-feira, abril 22, 2005

Re-definições

"Nunca vamos ter o amor a rir para nós
Quando queremos nós ter o sorriso maior."

Da Weasel [com Manel Cruz, vocalista dos Pluto] - Casa (Vem fazer de conta)

quarta-feira, abril 20, 2005

Sobre livros

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um de páginas em branco que pudesse ser rabiscado à vontade porque a ideia de algo permanente não me agrada.

2 -Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Penso que em relação a isso costumo afinizar-me muito com as personagens que gosto. Por vezes, adopto expressões semelhantes sem me aperceber; sou influenciada sem querer, mas por poucos momentos. No entanto, não tenho nenhum em especial que me "apanhe".

3 -Qual foi o último livro que compraste?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett

4 -Qual o último livro que leste?
Por inteiro, penso que foi "Harry Potter e a Ordem da Fénix" - J.K. Rowling

5 - Que livros, estás a ler?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett
"Choque do Futuro" - Alvin Toffler


6 -Cinco livros que levarias para uma ilha deserta.
"O Rosto e as Máscaras" - Fernando Pessoa (antologia cronológica, organizada e prefaciada por David Mourão-Ferreira)
"Os Filhos da Droga" - Christiane F.
"A minha Melhor Amiga" - Anne-Sophie Brasme
Um caderno em branco (e respectiva caneta ou lápis)
Um desconhecido, obrigatoriamente, de poesia


7 -Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Talvez as três primeiras que lerem isto serão essas três pessoas :) Mas vou passa-lo a quem quiser lê-lo; está à vista de todos que por aqui passeiam.


[Achei engraçado este questionário que vi nos blogs Tá de noite e My Soul Pieces e copiei-o para aqui. Pode ser que vos interesse lê-lo e copiar para os vossos Blogs. Sempre se fica a conhecer um bocadinho mais de quem o responde.]

terça-feira, abril 19, 2005

Nota

Este é só um pequeno post para agradecer aqueles que deram uma opinião no post anterior e para anunciar que o título da peça foi votado e escolhido segunda-feira; a peça intitula-se, agora, por "Realidade fictícia". A meu ver, é um título interessante, embora não fosse o meu preferido. De qualquer das maneiras, entre este e um outro que estava com grande destaque "Eles andam aí!", fico satisfeita por ter sido o actual o mais votado.

domingo, abril 17, 2005

Preciso duma opinião

Eu tenho aulas de teatro na escola e andamos a ensaiar uma peça para apresentar no fim do ano, só que não sabemos que título lhe havemos de dar, por isso, vou tentar resumir o melhor que posso (apesar de ainda não ter a peça toda) e dar-vos a escolher alguns títulos que uns colegas meus proporam de forma a ajudarem-nos :)
Muito bem... A peça é basicamente sobre os diferentes grupos que existem entre os adolescentes e os respectivos problemas. Existem as betas, os noctívagos, os dreads, os cromos da Net, os góticos, um gay, um traficante de exames, uma intelectual e os freaks. Os grupos vivem uma vida que os pode levar a enfrentar sérios problemas no futuro. Eu interpreto duas personagens: a Luana e a Lipa. A primeira está inserida no grupo dos góticos, constituido pelo namorado Roger, a amiga da banda Verónica, a extrema Erika e a Paloma e caracteriza-se pelo facto de serem anti-sociais e nem sequer conseguirem criar laços fortes de amizade dentro do próprio grupo. A Lipa faz parte do grupo dos noctívagos, constituido pela melhor amiga Kak's e pelo irmão Pikas que, por sua vez, vai aliciar a irmã para o mundo da noite repleto de drogas, álcool e rapazes. No meio de toda esta "anarquia juvenil" andam uns ET's que aterram no campo de basquetebol da escola no início da peça e que são invisíveis devido a um dispositivo. Estes decidem estudar as crias da espécie porque lhes resta pouco tempo naquele planeta. Porém, à medida que o estudo avança, levados pelo espanto das barbaridades com que se deparam, estes vêem-se obrigados a desligar o dispositivo de invisiblidade e a intervir na vida de cada adolescente, de forma a, mostrar-lhes o futuro. Uma vez visto o futuro pelo adolescente este, de regresso ao presente e sem se aperceber do que acabara de acontecer, conscencializa-se e tenta deixar algumas coisas que prejudicavam a sua vida, como a droga, a vergonha (ex. dos cromos e do gay) e outras coisas mais que iriam destruir o seu futuro. Assim sendo (espero ter-me feito entender no resumo) os títulos propostos foram estes:

Eles andam aí!
/ Eles andem aí! (ou um ou outro)
Efeito boomerang
Efeito extraterrestre
Só não vê quem não quer
O código da adolescência
/ O Código Adolescente (ou um ou outro)
Afinal são nossos amigos
O nosso reflexo
Nós somos piores
A nossa sombra
Ligação extraterrestre
Uma espécie aparte
Acreditas em ET's?
Afinal eles existem
Tudo louco
Atinem, pá!
O abc da adolescência
Uma peça do outro mundo
O Senhor dos ET's
Os ET's e os prisioneiros da adolescência
(à estilo Harry Potter)
O futuro é agora
Realidade fictícia
Saber quem somos
(ideia do meu irmão)

terça-feira, abril 12, 2005

Devaneio

A verdade é que a provável bipolaridade do meu ser pode ser explicada pela indefinição do mesmo.

segunda-feira, abril 11, 2005

Ecoponto doméstico


"Os ecopontos podem ser adquiridos nos super e hipermercados, nomeadamente, Jumbo, Continente, Feira Nova, Modelo, etc. a um preço que deverá rondar cerca de 10/12 euros.
(...)
Os ecopontos domésticos são disponibilizados incluindo um guia de reciclagem de edição e responsabilidade da Sociedade Ponto Verde, que contém as regras de separação de embalagens, para facilitar ainda mais a tarefa.
(...)
Estes ecopontos, (...) dispõem de três divisões e permitem separar num só contentor os diferentes materiais, à semelhança do que acontece com os ecopontos de rua. Ou seja, possuem uma divisão para o plástico e o metal, outra para o papel/cartão (especialmente concebida para o formato dos jornais e revistas) e finalmente uma para o vidro."

Para mais informações visitem o link: http://www.pontoverde.pt/sala_imprensa/sala_imprensa_press63.html
Porque nunca é demais lembrar...

E para que conste, também ainda tenho que comprar um :$ (só porque acho mais eficiente em comparação com as sacas penduradas na cozinha)

Sempre pensei que me preocupava com os males feitos ao meio ambiente, até me aperceber que nem a separação de lixo em casa fazia. Ora bem, quem se preocupa de corpo e alma, faz algo pela sua causa, não é verdade? E muitos podem associar, apenas, as fábricas à poluição, mas penso que todos tomamos consciência que não parte exclusivamente dos outros prejudicar ou ajudar o meio ambiente, não é? Afinal de contas, nós também não poluímos? Se de cada vez que fossemos ao supermercado, olhassemos antes para o rótulo e verificassemos se o produto é um forte contaminador para o ambiente, em vez de olharmos exclusivamente para a marca e os "afins" que esta promete, estariamos a contribuir para vivermos num mundo mais fresco. E quem diz ir ao supermercado, diz outras coisas. A separação de lixo em casa é uma delas. Não custa nada, pois não? Quero dizer... é preciso ter cuidado com o que se separa porque nem tudo pode ser reciclado, mas há guias que nos informam e sites como o ponto verde. Penso que não custa nada tentar reanimar o nosso planeta. Afinal, é o único que nós temos.

Quando penso no mundo actual, a ideia imediata (talvez por ser citadina) que me vem à cabeça é o fumo, o barulho, o stress e, consequência disso, pessoas rezingonas, o trânsito, edifícos, cruzamentos, buzinas, passadeiras, alcatrão, preto... Por vezes dá vontade de dar um berro seco e esperar que tudo pare, tal como nos filmes. Vê-se apenas o vácuo da vida das pessoas. Serão felizes? Alguns podem julgar que sim. Talvez o sejam, talvez não. Será que se lembram de pensar nisso sequer? Para a frente, para trás... para ali, para acolá... Agora, neste instante, atrasos... esgotamento... a sucção da vida. Cansaço... "Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo, cansaço...".
Talvez não sejam todos assim. Mas é essa a imagem e a sensação que tenho quando penso neste mundo. Sim há o verde, os montes, o azul, os rios... há o riso, o sorriso... Há quem os procure? Agora, talvez mais. Porque eu acredito que cada vez mais pessoas se apercebem o que está a acontecer ao planeta. Mais e mais pessoas se apercebem e sentem que a cidade satura tudo em si e ao seu redor mais próximo. Tentam, agora, uma forma de evasão da agitação diária. Eu que ainda sou jovem e não sofro dum mal desses ainda muito grande (penso eu), sinto necessidade de respirar. Assim, o ar puro, que por vezes, posso sentir em Esposende. Perto da praia, da maresia, da brisa fresca... é tudo tão suave e tão bom...
Talvez esteja a divagar demasiado, mas a verdade é que sinto saudades de sentir. Sinto-me anestesiada pela cidade (que até é pequena). Precisava de algum espécie de meditação, descanso, sorriso puros e suaves como quem fica alegre alheadamente...
Todo este discurso... que não sei adjectivar, para apelar à sensibilidade de quem me lê e da minha própria. Nós somos Natureza, mas parece que tentamos rasgar o nosso cordão umbilical, ferindo o que eu considero a origem. Já são tão notáveis os danos que fizemos ao longo de séculos. Os ventos zangam-se, as águas agitam-se, a terra treme, as estações confundem-se... Não sentem? Contudo, nunca é tarde demais para nos preocuparmos e agirmos. Tentemos...

sábado, abril 02, 2005

Tentativa falhada

Hoje quero ser escritora
Assim na noite calada
Que não é tão calada assim

Envolvida na música de piano
Tentando alhear-me ao ritmo da casa
Tento penetrar no mundo das palavras

É como adormecer
E acordar noutra dimensão:
A dimensão palavrada

A passagem é difícil:
O adormecer demora
E o acordar pouco acontece

É preciso ser consciente
Não deixar fluir o espírito
Não sair do corpo pensante

As emoções não escrevem
Escrevem-se emoções
De mão rija e não solta

De pensamento pensado
Porque divagado é sentido
Alia-se às emoções

Quero que esse repouse
No canto ameno do sono
Envolvido na névoa sentida

Porque não quero mais aquelas
Aquelas palavras descoordenadas
Sem nexo, com emoção em demasia

Enjoei, cansei e desisti
Porque queria ser escritora
À noite quando desperta o coração

sábado, março 26, 2005

Dejà vu

Julguei-te
E perdi-me
Na imensidão do teu olhar

Calei-te
E sofri
Com o teu silêncio prolongado

Engasguei-me
Comi palavras
E esqueci outras

Rodei
Sem preocupação

Insultei
Gritei
Desmedidamente

E fugi

Em mim
De mim
Tudo era eu

Não gostei
Mas fiz
Detestei
Mas repeti

E não te ouvi
E calei-te
E ousei julgar

Acusei-te
E não aceitei
As tuas palavras
Porque eram soltas
Porque magoavam

Esqueci
Beijei
E passei

Mas repeti...

Desculpa

É repetido
É cansativo

Mas a rua
O contacto
Tudo me droga lá fora

Poetismo

Uma ideia que tive há pouco tempo levou-me à criação deste Blog. Poetismo... apenas isso, poesia e poetas; foi com esse fim que considerei criar outro Blog. Com a minha participação, de Lana, de O Empalador e de Perséfone, esperamos poder partilhar convosco, leitores de Blogs, a delícia que é a leitura da poesia que, na minha opinião, guarda consigo uma beleza própria. Espero que visitem e apreciem :)

sexta-feira, março 25, 2005

Noite de Luxúria

Hoje quero beijos!
Dói-me a garganta
Mas berro.
A água secou
E o sorriso abriu.
As portas abertas
Deixam a luz entrar.

Já me vês?
Sim!
Sim, sim, sim...

Estou aqui!
Berro, berro e berro.

De veste branca,
Transparente e suave
Me apresento a ti.

Eu sempre danço!
Vês-me? É só para ti!

Beija-me!
Agarra-me!
Leva-me!

Estou aqui!
Para ti!
Para ti!

Quero tanto,
Mas tanto
Sentir as tuas mãos.

Percorre-me...
Vá! Eu já deixo...
Sou para ti...

Só por hoje
Porque é noite de luxúria....

segunda-feira, março 21, 2005

Só de emoção

Diz que me amas!

Não é bem isso que quero ouvir
Mas diz que gostas de mim!

Diz-lo com convicção
Diz-lo para eu acreditar
Diz-lo vezes sem conta

De maneiras diferentes
Faz-me crer que tu
Tu me amas

Não é amar
É gostar

Mas diz-mo!
Queria tanto ouvi-lo...
Não! Quero!
Agora, neste instante!

E é neste instante
Em que não estás
E é neste instante
Que preciso

E preciso tanto...

Mas são das palavras
Dessas letras coladas
Que tanto preciso?

Não sei...

Quero uma palavra
Que me beije

Beija-me!

Com ardor, paixão
Esquece o amor!
Não existe....

Ama-me de paixão
E esquece o sentimento

Ama-me só de emoção
E mais não peço
E mais nem sequer quero

Ama-me de emoção
E esquece o sentimento!

segunda-feira, março 14, 2005

Ego

Sabes quantas vezes quis chorar sem razão nenhuma? Quantas vezes tu não possas imaginar. Sabes que de todas essas vezes prendi o choro? E sabes porquê? Porque me senti ridícula por não ter razão. Porque sem motivo fico perdida, sem referências... Porque sem motivo o importante desaparece. Porque o motivo me faz pensar, indagar, sentir, acreditar. Porque tudo que possas imaginar para mim tem que ter razão ou deixo-o de parte na caixa onde vês "Por definir". E sabes que o pensar me causa dores de cabeça? Por isso me vês de mãos escondidas nos cabelos a tapar a cara e de olhos direccionados para o chão. E por isso me vês, por vezes, cerrar os lábios para não dizer o que penso. Mas tu sabes que o digo, não sabes? Claro que sim. Tu recriminas-me por isso. Não sei coser a boca e digo o que penso pelas palavras que não são doces de ouvir e digo-o duma forma bruta e arrogante. E sabes porquê? É simples de explicar, chama-se orgulho. Aquele sentimento do qual o ego se alimenta tão intensamente. O ego... esse bicho roedor do nosso coração que nos tenta sempre colocar num pedestal. Atencioso ele, não? Claro que não! Destrói-nos! Rasga-nos fazendo-nos acreditar que nos preenche. Traiçoeiro, isso sim! É esse mesmo ego que não me deixa chorar sem razão. Que me impede de deixar escorrer as mágoas do meu coração. É esse mesmo ego que se apresenta a ti e a todos. É ele que recriminas. Mas é a mim também, não é? Claro que sim. Eu deixo o meu ego tomar conta de mim, duma tal maneira que tudo o que uma vez vi junto de mim se vai afastando... Lá longe vejos os reflexos. Lá longe ouço as vozes distorcidas. Mas já nada entra aqui. A crosta formou-se forte e não parece mostrar fraquezas por onde um sopro, um suspiro doce possa espreitar e rachá-la.

A criança que fui chora na estrada...

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

[A lágrima quase espreitou mal li a primeira quadra. Adoro este poema! Diz-me tanto...]

domingo, março 13, 2005

Frase apropriada

"A minha vida não tem nexo
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim."

Ornatos Violeta - Débil Mental

quarta-feira, março 02, 2005

Selvagismo do ser

Sou selvagem do meu mais profundo ser
A primitividade habita em mim
Sorrateira, duma estranha inteligência,
Como um pequeno engenho programado

Ao mínimo ruído mal captado desperta
Soltando ondas de calor e agitação
Percorrendo o caminho que se lhe depara
Até encontrar um meio de fuga

Escapando de uma matéria densa
Lança-se numa forte brusquidão
Como se de um sufoco apertado
Se tentasse libertar

Contorce-se e vocifera
Como se de mão atadas se encontrasse
Impossiblitada de atingir por actos
Necessitada de praguejar e gritar

Os olhos espelham cólera
E os lábios são mordidos
Por uma irritação profunda
Pela incapacidade de atingir

Mas eis que a fúria se acalma...

De imediato, toma conhecimento
Que as suas palavras foram fortes
Para atingirem e criarem danos
Em todo o seu maldito redor

Apercebe-se dos efeitos causados
E delicia-se com o caos provocado
Ri silenciosa e maliciosamente
E goza, agora, baixinho...

Satisfez os seus caprichos
Mesquinhos e maldosos
Fica completamente saciada
E não oferece resistência

Deixa-se engolir pela carne
De encontro ao seu antro
Pronta para hibernar levemente
Atenta a outra faísca atraente

“Deixo-te a ti as questões,
oh corpo inútil!”
Resmunga ela
Enquanto mergulha...

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

No dia um

Está demasiado calmo para escrever,
Escrever da forma que o tenho feito:
Com todos aqueles lamentos,
Todas aquelas lágrimas engolidas,
Aquelas feridas abertas e aquela dor...

As palavras soam-me tão estranhas
Tão distantes, sem sentido...
Os meus dedos tentam alcançá-las
Porém, o esforço perde-se no ar
E os dedos acabam por desistir.

Não sei escrever palavras bonitas
Como aquelas que se gostam de ler
Ou aquelas que obrigam a repensar

Essas palavras não as encontro
Para paz interior e finais felizes,
Apenas para desespero da falta
Dessas emoções a atingir...

Ouço as gargalhadas dos que conversam,
O galope desenfreado da cadela...

01 de Janeiro de 2005

[Encontrava-me, nesta altura, numa aldeia ecológica. O ar era tão puro, o verde tão bonito, as montanhas inspiradoras e uma calma pairava em mim. O yoga, a dança e a meditação eram práticas correntes o que conferia uma paz (ainda que momentânea) de espiríto. Passei lá apenas uma noite e uma tarde, mas adorei a experiência. Foi, com certeza, a melhor passagem de ano que já tive oportunidade de experienciar.]

domingo, fevereiro 27, 2005

The Chains of Our Mind

It seems what makes us happy
Is what we wanted to have
It seems our present happiness
Has its place in the past

It seems we don’t seek the future
But we regret what it’s gone
And we don’t live the present
Trapped with all these thoughts

We go round and round…
Staying always in the same place
We don’t seem to find a way
To get free from these chains

16th January 2005

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Afastamento

Já não sabes disfarçar que a minha presença te incomoda, que a minha imagem fere os teus olhos. Já não sabes disfarçar... Eu vejo na tua cara o desgosto quando me aproximo, as tuas expressões e os teus olhares confirmam os receios que sempre tive. Os receios que nunca me abandonaram porque me sentia insegura face ao que se passava. Foi tudo tão rápido e tão intenso que nunca julguei que durasse por muito tempo. Tudo o que nos era comum parecia ilusão; todos os olhares amáveis que substituiam as palavras, todos os sons desencadeados que formavam conversas... Nesse espaço de tempo senti-me intimimamente ligada a ti, julguei ter encontrado alguém com quem um simples gesto bastava, alguém com os mesmos gostos e ideias, com as mesmas paixões e com necessidades semelhantes... Mas o tempo passou... e os meus receios realizaram-se, os meus receios realizaram-se! Naquela alegria, tantas vezes eufórica, senti-me bem, compreendida e arrisco-me a dizer amada, mas o mundo fora desse circuito continuava e tu e eu viviamos nele, mas nele eu não quis continuar... sentia-me receosa de continuar num mundo com o qual nunca me identifiquei tanto como contigo. Mas tu tinhas uma vida nesse mundo e, muitas vezes, tentei seguir-te, caminhar contigo, integrar-me, mas sempre me senti uma intrusa, uma desconhecida... Era o teu mundo não o meu, um mundo há muito construido por ti e no qual nunca tinha existido. Era tão difícil sentir-me parte dele. Até que cometi um erro. Quando me tentei ligar a outra pessoa, quando julguei que o tempo nos ajuda a gostar, mas afinal... Esse tempo causou problemas e, penso que foi nessa altura que tudo se quebrou. Quando senti vergonha de falar com um olhar, quando já pouco me contavas, quando te senti a afastar. Foi apenas nessa altura que me senti cansada de variar o meu humor pelos teus, foi aí que senti que tu para mim agias de outra forma. Senti-me triste... os meus receios apoderavam-se, agora, de mim com uma força extraordinária. As minhas emoções para contigo começaram a variar a um ritmo muito acelerado e, então, calei-me e afastei-me. Esperei, sinceramente, que sentisses a minha falta e viesses ter comigo e esse foi outro dos meus erros. Não tinha o direito de esperar tal coisa. Mas eu quis apenas uma prova... E, assim de repente, tudo o que se tinha passado entre nós pareceu-me um sonho muito longínquo. A nossa ligação quebrou-se como um vidro... rachou, aos poucos foram caindo pedaços, com o tempo foram calcados e agora já não são se vêem... estão enterrados no chão. Tento passar por cima e esquecer porque sei que nada jamais será igual... a mágoa profunda não deixa. Mas é tão difícil fazer de conta que nada se passou! É difícil tentar esquecer a única pessoa com quem mais me identifiquei. Por isso, espero tanto poder sair daqui e ir para um sítio longe onde as recordações não me visitem, onde tudo seja novo e onde possa começar, uma vez mais, do zero. É errado... mas o passado jamais tornará a ser presente e o futuro que se aproxima não traz a estrutura desse período que tanto amei. E deambulo, agora, por aqui e por ali esperando...

sábado, fevereiro 19, 2005

Por cobardia

Por vezes, quero tanto voar...! Levantar os pés, erguer o corpo e lançar-me à escuridão da noite, esperando ser agarrada pelos seus braços, esperando ser abraçada pelo bafo envolvente do seu ar. Quero sentir-me envolvida naquela névoa suave; quero ser aconchegada pelo poder do seu sopro. Quero sentir o frio gélido, que passeia no ar, gelar-me o nariz, moldar-me a cara e entrar, sorrateiramente, no meu corpo e quero ver o vapor sair da minha boca e desvanecer-se no céu escuro.
Quero sentir-me a voar de encontro às estrelas; de encontro aos chamados anjos. Quero ter o que parece ser uma utopia: a paz de espírito que fará com que possa dormir descansada. Sim... quero poder fechar os olhos sem receios, estender os braços e suspirar... Quero poder expôr-me ao mistério da noite sem medos. Quero ser assim, segura de mim, livre do mundo provocador e sentir-me em consonância com o mundo puro. Quero ter os olhos bem abertos para poder ver com sentimento o escuro que me rodeia; para poder ver a claridade, o brilho, a magia do negro cerrado.
Quero olhar o céu em noites de lua-cheia e uivar... rasgar a pele e arrancar os ossos com cuidado e expôr os meus pulmões ao mundo.
Por vezes, quero tanto gritar... Abrir a boca e soltar a voz até ficar rouca e sem força. Quero cantar e lançar o meu som aos cantos do mundo.
E por vezes, quero tanto rasgar-me...! Despir as roupas, arranhar a pele, sangrar, correr e escorregar... Quero partir os dedos dos pés, virar os dedos das mãos, abrir a boca até cortar os lábios, estender os tendões do pescoço até não poder mais... Quero tanto soltar-me...! Não existir aqui, neste corpo imundo que me causa nojo e desgosto; este corpo que parece não ajudar e só me desgasta, que me impede e me anestesia. Quero ser uma só e mais ninguém.
Tantas vezes quis entrar dentro de mim e procurar, percorrer, encontrar... mas em cada tentativa uma nova porta me barrava o caminho, uma nova janela se fechava e me deixava às escuras num mundo tão desconhecido. Então, por vezes, ousei desistir... Ousei deixar as portas fechadas e o interior abafado. Ousei desistir porque não conseguia ver a luz... Quis a facilidade e não tive forças para continuar. Não quis percorrer o escuro com receio e acabei por barrar a entrada em mim. Tive medo; medo do que não via, do que não sabia e voltei para trás, tentando esquecer que um dia tentei, para que não vivesse com a memória dum falhanço. Não queria admitir o maior erro. Quis escondê-lo por detrás do sorriso e dos gestos amistosos, tentei ignorar a escuridão pensando que aquela porta não seria necessária aberta e enclausurei, então, o meu ser naquele mundo frio e dum negro pesado que me turva a mente. Desisti, porque a cobardia, uma vez mais, se revelou em mim. Sou cobarde e o peso da preguiça faz-me rastejar nestes chãos sujos que vomito... Ah! Como pude pensar que seria fácil? Como pude fechar-me por dentro e pensar que seria a melhor maneira? Que seria a melhor maneira, deixar-me às escuras e ir viver para um mundo de falsas luzes e enganos constantes... Como pude ser tão enganada por mim? Eu sei e talvez sempre soubesse que o meu ser definhava dentro das portas que construi em mim. Eu sei e sempre soube que teria que lidar com a sua tristeza, mais cedo ou mais tarde. Contudo, também sei que lido com ele todos os dias... De cada vez que solto um som mais forte, de cada vez que escrevo uma palavra, que crio poemas e relatos de mim... de cada vez que amuo quando o orgulho se sobrepõe. Sem me aperceber, deixo fugir um pouco do meu ser de dentro de mim a cada instante, a cada risada, a cada olhar, por mais que o tente desviar... Sei que sou sem querer e também sei que o que sou é, muitas vezes, as palavras rudes, o fugir de um gesto afectuoso, o refugiar-me na distância. Sei que, talvez, possa ser presente pela minha ausência ou pela minha euforia estranha. Sou uma antítese aos olhos do mundo e aos meus olhos. Em suma, mostro o meu ser a todos a todo o momento... todavia, a subtileza desse mostrar pode-se desvanecer na brisa do dia. Por isso, anseio as noites. Anseio o escuro porque sei que é dele que fujo, porque sei que é ele que tenho de enfrentar. Tento formar a coragem à medida que sinto o momento chegar... mas, por todas as vezes, vou dormir mais cedo deixando a batalha para outra noite. Vou descansar o corpo, esperando amassar a memória de outra noite de derrota por ausência. Tento esconder-me no sono e perder-me nos sonhos de um mundo alheio e tão meu. Por isso, custa o acordar... Não! Não quero levantar-me e esperar por outro momento de luta que sei que nunca conseguirei vencer.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Hurt

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear my crown of shit
On my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stain of time
The feeling disappears
You are someone else
I am still right here

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Nine Inch Nails

Resolvi fazer post desta música porque a adoro. Tem uma letra fenomenal, muito tocante e sentida, bem como a melodia que é bastante calma e nos embala nos sons e nas palavras.
Aproveito também para dedicar este post à pessoa que me deu a conhecer a música que, por sua vez, também gosta muito dela. Na minha opinião, e ainda não confrontei a pessoa com esta, a letra da música tem muito a ver com o seu ser; a ideia contida é muito semelhante aos seus pensamentos e certos versos são semelhantes a frases que outrora disse numa das nossas conversas alargadas.
Apercebi-me desse facto há pouco enquanto me deixava levar pela música e achei necessário mostrar-to, duma forma personalizada, devo dizer :)

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Assim

Tenho saudades de escrever como já não me lembrava, mas sinto que as minhas mãos estão magoadas, frágeis e sem forças. A minha cabeça pesa-me e não consigo pensar com clareza. Os sentimentos formam nós que me apertam o coração. O meu coração que é frio e duro como uma rocha, aquele a quem nunca ninguém tem acesso e, portanto, do qual nada sabem. O meu coração é assim... pequeno, gélido e só... Pequeno porque o aperto com as amarras da repugnância do emocional; gélido porque não permito em tempo algum que um raio de luz ou uma onda de calor nele penetre; só porque os outros não fazem nem nunca farão parte dele. É assim, sobrevivente da minha malícia, esquartejado pelas minhas próprias mãos, sufocado pelo aperto de não querer sentir... Eu sou o meu coração. Aquela que não se dá nem deixa que lhe deêm. A que sorri com vontade na presença dos outros, mas chora sozinha no seu canto. Aquela que tem vergonha das suas lágrimas e engole-as com o desgosto num sufoco. A que fica com o sabor amargo na boca das palavras mal ditas, a quem dói os ouvidos por não saber escutar, a que se revolta por não saber compreender. Esta sou eu. A distante, a ausente, a rapariga dos sorrisos frios, das mãos gélidas e dos olhos grandes e baços... Os olhos que já não são janelas para o interior, mas vidros embaciados por entre os quais nada é visível. Sou a rapariga da euforia da rua e da tristeza do quarto fechado. O que sinto está enterrado em mim e nas minhas palavras. Os meus textos são o ponto de luz na escuridão da minha própria incompreensão. São a minha libertação do sufoco das lágrimas secas e dos sorrisos apagados... São o guindaste amável que afasta o peso da minha cabeça. São as mãos delicadas de um ninguém que me massaja os ombros e a face. São a brisa morna de Verão que me oferece uma calma momentânea. Os meus textos são a fonte de serenidade que resta em mim. Deixo nas palavras rudes e desencadeadas o sentimento recalcado do meu coração. Transfiro o meu sofrimento para os textos para sentir o meu próprio alívio. Deixo a vós, palavras, a linha que cose o meu coração, o fogo que queima as minhas mãos, as lágrimas ácidas que corroem os meus olhos, a amargura que me resseque os pulmões e a secura que me empasta a boca. Deixo-vos os meus gritos para que me dêm o silêncio e deixo-vos o meu ser agitado para que eu possa dormir sem pressaltos.

Deixem-me...


Raquel (olhares.com)

Deixem-me porque eu quero o silêncio que nunca existe... Deixem-me porque eu quero o que não me podem dar... Deixem-me porque eu sou uma antítese e causo danos em meu redor... Deixem-me porque sou rude, revoltada e sem mão nos meus actos... Deixem-me porque não quero ser responsável... Deixem-me porque me sinto morta, presa ao chão e lá quero ficar... Deixem-me porque eu sei que assim não vos perturbo mais...

07 de Dezembro de 2004

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Mergulhar

*

Sustenho a respiração
E mergulho...

Cansei-me do calor.

Quero algo fresco...
Preciso despertar!

Estendo os braços
E puxo-os para trás
Com toda a força que tenho.

Bato os pés energicamente
Para sentir os ossos estalar.

Preciso esticar o corpo.

Fecho os olhos
E deixo-me deslizar...
Sinto a agua fria
Moldar a minha cara.

Ah...! Arrefeço...

Encolho-me...
E deixo-me rolar
Ao sabor da àgua.

Sinto um turbilhão de sensações
Percorrer todo o meu corpo.
Mil imagens correm na minha mente.

Ah...! Sinto-me viva.

A frescura trespassa o corpo
E toca-me o espírito.

Agora posso sorrir...
* fotografia por Ricardo B. Gomes (olhares.com)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005