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quarta-feira, março 30, 2011

Podia ser sonambulismo

Hoje já é muito tarde.

Hoje, quando tenho todos os motivos para isso, não me apetece um cigarro.
Eu não gosto de cigarros. E não sei por que gostaria de ter fumado.
Há alturas em que pensar no cigarro enjoa-me.

Hoje não me apetece um cigarro.

Nem sei bem o que me apetece... Não sei o que me apetece hoje ou amanhã ou no dia a seguir. Nem queria ter de pensar nisso. E na verdade não é uma obrigação. Não TENHO de pensar no que me apetece amanhã. Mas dava jeito que soubesse o que fazer hoje, agora. Só para não ficar mergulhada... nisto.

Como é que eu conseguiria pensar no final da semana se não sei o que fazer com o dia de hoje? Sejamos mais rigorosos: com o agora.

Eu sei o que tenho de fazer. Sei quais são as obrigações que a minha vida actual me impõe. Mas... não me apetece.

E já não sei o que escrevo. São 3 da manhã e o único motivo por que estou aqui é porque não quero dormir. Não quero adormecer.

Mas estou cansada e dava jeito parar de pensar por uns momentos, se bem que não é o sono que me vai ajudar a conseguir isso.

Na verdade, estou muito bem. Só me apeteceu dar cá um salto por causa do copo de vinho.

sábado, novembro 20, 2010

É o que me apetece

Apetece-me pintar o cabelo de vermelho. Sacar de um cigarro e fumá-lo na esplanada de um café. E apetece-me beber um café, com uma linha de fumo a dançar por cima da chávena que tem a marca dos meus lábios vermelhos gravado na beira com a gordura do meu bâton.
E apetece-me estar na esplanada de um café, num dia de chuva, mas sem chuva em mim e sem estar numa redoma. Não quero estar numa redoma. Não me apetece estar... não me apetece estar numa... não me apetece estar num... não sei, apetece-me sentir o vento entrar pela frincha do casaco onde falta o botão, pelo zona do pescoço que o cachecol não tapa, só para depois poder aconchegar-me. Apetece-me ter um livro aberto pousado na mesa, mas não me apetece lê-lo. Apetece-me ter um livro para ler, mas ignorá-lo para ver as pessoas passar.
São tão poucas as pessoas que passam. Talvez por estar a chover. Acho que está a chover. Eu não sinto as pingas, mas eu acho que está a chover. Está, está, olha a chuva a cair. Eu só sinto o vento. E o cheiro do café. Também não sinto o cheiro do cigarro, nem o sabor do cigarro. Quer dizer, eu tenho um sabor na boca, mas não é do cigarro. Ou se calhar é, mas este cigarro não sabe a cigarro. Este cigarro sabe bem. É um sabor fresco, mas não tão fresco que faça parecer a minha boca um pedaço de gelo. Quando o vento sopra, 'tás a ver? Como quando metes um rebuçado de mentol à boca e depois inspiras o ar pela boca, 'tás a ver? Não é assim. Não é esse fresco. É só fresco. Fresco bom. Mas depois há o café. E o café é quente e avolumado e macio. E não é amargo. O meu café não é amargo. Está bom assim.
Apetece-me que a cadeira onde estou sentada seja de metal. Aquele metal de que são feitos os bancos de jardim antigos. Sabes quais são? E que fazem um barulho arrepiante a arrastar. A mesa da esplanada também é assim, faz conjunto com a cadeira. Mas não é desconfortável. Eu estou muito confortável, apesar de estar vento e de eu estar sentada numa cadeira de metal. Estou muito confortável. Estou bem aqui. Estou tão bem aqui. Só porque é o sítio que eu quero. Só porque não é o sítio onde estou agora. É aquele que eu quero. Feito à minha medida. Feito à medida do que eu quero. Com as coisas que eu quero, da maneira que eu as quero. Assim, como eu quero.

Sabe bem.

É meu.

Mais ninguém conhece.

Não há mais ninguém. Só aquelas pessoas que eu quero que estejam. E são aquelas pessoas que não sabem quem eu sou. E eu também não sei quem elas são. São os estranhos que passam na rua e que sabe bem observar enquanto estamos sentados numa esplanada a beber um café, a fumar um cigarro e a fingir que lemos um livro.

sábado, agosto 16, 2008

Título por definir (Parte I)



Mais um gole.
O copo não parava na mesa um minuto. Não gostava de vinho, mas aquele até nem era muito mau. Não era a única. A maioria dos copos erguiam-se no ar em brindes e patetices corriqueiras. Havia vinho nas toalhas das mesas, nas camisolas, no chão, nas bocas... Havia tanta gente.

Eu saçaricava de uma mesa para outra. Havia tanta gente. Todos espalhados. Tantas mesas. Tantos copos. Sorria muito, falava muito, demais, como de costume. “Tenho de deixar de ser tão desbocada” e lá saía mais uma intimidade que ficava bem do lado de dentro da boca. O discernimento já ia longe. Mais umas piadas, mais uns copos, mais uns abraços, uns sorrisos, umas patacoadas. Muita gente. Só vozes. Todos conversam e riem. Mais vinho. Só garrafas... vazias. E os empregados em pressa, com os seus carrinhos, em aceleradas corridas por entre as tantas pessoas descoordenadas. Os pratos são levados. (Houve sobremesa?) Já são poucos os que estão sentados. (Há alguém sentado?) O que vale é que o restaurante é grande e os espelhos na parede, junto à entrada, não permitem a sensação, por vezes claustrofóbica, de se estar no meio de tanta gente.

De repente, estamos na casa-de-banho, depois de sentados a uma mesa que não a nossa, a conversar sobre mais patetices, sabe-se lá sobre o quê. Há tanta gente! Até na casa-de-banho há muita gente. Rapazes na das raparigas. Está tudo misturado. Fui à casa-de-banho, mas não queria “ir à casa-de-banho”. Devo-me ter guiado pelas vozes. Gosto de estar onde estão as pessoas, nestas alturas. Tanto riso! Dá-me vontade de rir só de olhar este festival. Os copos continuam nas mãos. A casa-de-banho não é pretexto para abandonar o copo na mesa. O meu... (onde está o meu copo?). As minhas mãos estão livres e eu gesticulo muito quando falo. Gesticulo sempre muito quando falo. Tanta gente conhecida. A Clarice apoia-se no meu ombro e ri. O Mário fala connosco (que somos mais que eu e a Clarice) sentado em cima de uma das sanitas com a porta aberta. Felizmente está só sentado. (de que se fala?) A certo ponto, incomoda-me tanta gente num espaço fechado e tão pequeno. Saio um pouco para tentar perceber se a mesma confusão se passa do lado masculino. Nem por isso. A confusão começa entre as duas portas e acaba do lado de dentro da nossa. E eis que mais alguém conhecido aparece.

domingo, abril 20, 2008

Aturdimento

Há momentos depois que acordo em que me perco. Confundo-me entre o sonho e a realidade e não sei se acordo para a vida, se para a verdade de que já não sou mais.
Sinto-me eu mais todas as personagens que sonhei. Sinto a cama e todos os sítios que idealizei. Sinto sensações que não me pertencem, mas criei. Eu sou a autora e a criação. E não distingo uma e outra.
Vejo a sensação do volume das coisas. Sinto a confusão das vozes no silêncio do corpo. Não sinto o corpo. Sinto a vertigem da impotência. Eu não me pertenço. Sou arrastada.
Dura uns segundos. Não é muito. Depois devolvem-me à vida.

sábado, fevereiro 16, 2008

enquanto não estás

Tenho o teu cheiro na minha pele. O teu hálito na minha boca. A tua voz na minha cabeça. E o teu corpo ao meu lado.
Concentro-me em ti. Reparo nos mais pequenos detalhes, agora que me concentro só em ti.


Tens um sinal no canto do olho. Eu já o sabia, mas gosto de o descobrir várias vezes. E o teu cabelo só encaracola nas pontas. (ainda há-de ficar liso?)
Tens o ar mais sereno a dormir que já vi, sabias? Nem pareces a pessoa racional que és. És doce enquanto dormes. E não te podes defender nesse sono. Estás exposto.
Deixa-te estar. És bonito. Gosto de ti assim.


Tens tanto. Dás tanto sem querer.


Queria que ficasses assim a dormir. E eu ficava assim a mirar-te. Mas gosto tanto quando me olhas. E gosto tanto das nossas conversas.
Deixa-te estar. Eu espero. Gosto de ti das duas maneiras.


Sabe-me tão bem.
Apetecia-me beijar-te a testa. Mas não quero acordar-te. Dorme. Descansa que os dias são duros. Aproveita essa paz do sono. Faz por dormires bem. Não é assim que dizem? “Dorme bem”. Então, vá.


Eu sei que não me ouves os pensamentos. Mas eu gosto de conversar contigo assim.Tu não sabes, mas eu estou em constante conversa contigo. As tuas respostas são imagens e sensações. Não há som. Nem palavras. Mas eu gosto.


Estou sempre contigo.


Às vezes gostava que me sentisses. Assim quando não estou por perto. Quando não me podes ver, nem me falas, nem sentes o meu cheiro, nem sabes as minhas palavras. Gostava que me sentisses em ti. Desta mesma forma que te guardo em mim.


Estás sempre comigo.


E sabe tão bem. Este calor que acompanha este carinho. Este carinho que me dá este sorriso. Gosto de te sentir assim. Sabe-me bem, caraças.


Deixa-te dormir. Ou acorda. Vive. Vive a tua vida. Eu guardo essa serenidade. Eu guardo-te em mim. Há de cá ficar essa doçura.
Sabe bem demais para deixar de ser algo e perder-se junto às outras memórias. Por isso há aqui um cantinho. Morno, seguro, protegido, lembrado.


És saboroso. Perco-te e acho-te nestes momentos. Momentos de um quarto cheio.

sábado, fevereiro 09, 2008

Espera e calor

Início: 05 de Março de 2007


Estavas à porta do nosso café. Sentado no chão com as pernas cruzadas. Esperavas por mim. Soube-o quando me lançaste aquele teu olhar maroto. Sabia que tinhas planos para essa noite. Todos os traços da tua expressão denunciavam uma surpresa iminente.


Desci os degraus do nosso café em direcção a ti com um sorriso colado na cara. Já sabias que eu o sabia e o desejava alegremente. Pegaste-me pela mão, fizeste-me rodar e observaste-me com um olhar guloso. Paraste o meu lanço, seguraste-me a cabeça e beijaste-me. Um longo e húmido beijo envolvido em tanta paixão que provocou olhares curiosos e surpresos nos restantes. Corei. Corei imenso! (Como sempre.) Agarrei-te o braço e obriguei-te a correr para fugirmos dali.


Chegados ao parque de estacionamento, onde estava o meu carro, recuperámos o fôlego e rimos. Soltámos altas gargalhadas feitos loucos. O riso fazia-nos bem. Libertava a tensão. A ansiedade. O nervosismo. A antecipação. Ambos sabíamos o que se seguia. E ambos o desejávamos ardentemente.


Tirei a chave da bolsa e dirigi-me à porta do carro para a abrir, quando tu me enlaçaste a cintura amavelmente e me obrigaste a dar-te as chaves. Prendeste-me contra o carro entre os teus braços e olhaste-me. Profundamente. Contemplaste o meu olhar apaixonado e envergonhado. Olhámo-nos por uns momentos em silêncio. E sorriste. Um sorriso aberto, sincero. Sorri de volta. E beijaste-me. Os teus braços em volta do meu corpo aproximavam-me de ti. O mais possível. Juntos. Muito juntos. Quase desconfortáveis. Amei-te. Desejei-te. Apaixonei-me uma e outra vez. Num só beijo. Nesse beijo. O segundo dessa noite. O mais longo. O menos envergonhado, pois ninguém nos interromperia com o seu olhar inquisidor. Arrepiei-me. Estremeci. E no entanto ardi de calor, de paixão. Desejavas-me. E a tua língua, os teus dentes, os teus lábios evidenciavam esse desejo.


Paraste. Nessa noite tu controlavas, meu rei, meu imperador. Paraste e beijaste-me a testa tão carinhosamente que não contive as lágrimas. A tua ausência fora demais. Um mês de separação. Apenas um mês. Mas um longo e doloroso mês. Faltaste-me. Abandonaste-me. Na pior das alturas.


Chorei. Chorei de saudade. Chorei de tristeza. E chorei ainda mais por saber que a tua ausência foi forçada. Contra a vontade de ambos. Chorei por saber que gostarias de estar presente. Por saber que sofreste porque eu sofri. Chorei por mim e por ti. E tu choraste comigo. Não falámos. Não falámos nem precisámos. As lágrimas, os olhares e o silêncio diziam tudo por nós. Melhor do que quaisquer palavras. E amámo-nos tanto nesse não-dizer que diz tudo.


Pegaste-me pela mão e levaste-me contigo. Não sabia onde me levavas. Como sempre, surpreendias-me e eu adorava. Adorava-te. Caminhámos. Caminhámos bastante e eu senti que era exactamente aquilo que eu precisava. (Precisávamos?) O ar fresco da noite lavava-me a cara. A nossa cara. Refrescava-me. Invadia-me uma sensação de leveza. O poder de qualquer brisa da noite. Elevava-me. Tudo nessa caminhada fascinava. O som das folhas secas debaixo dos nossos pés. O uivo dos cães nas varandas ou nos terraços dos muitos prédios da cidade. As vozes altas e a alegria de um grupo de amigos que passeava do outro lado da rua. O barulho do camião do lixo que recolhia as sacas colocadas à porta das casas. Tudo era belo porque tudo se passava nessa noite. Nesse noite em que te revi. Em que matei saudades. Em que te amei tanto, meu amor.


Parámos em frente ao teu prédio. Silêncio. Olhares e sorrisos cúmplices. Entrámos. Degrau após degrau, subimos devagar os lanços de escadas que nos separavam da tua casa. A euforia em nós dera lugar à calma. Já esperávamos tão pacientemente por este momento que era agradável prolongá-lo o máximo possível. Abriste a porta, não acendeste a luz e fomos directos ao teu quarto. Lá, ligaste o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Não precisaríamos de muita luz, apesar da ausência ainda nos sabíamos de cor. Correste apenas os cortinados para que passasse alguma da luz da noite.


Eu já estava sentada na tua cama, descalça, sem casaco. Tu estavas de pé a olhar para mim. Tiraste a camisola, descalçaste-te e ajoelhaste-te, sentado, na cama em frente a mim. Puxaste o meu cabelo para trás dos ombros e das orelhas e observaste-me com aquele olhar meigo que é tão teu. Tornaste a puxar o cabelo todo para frente do meu corpo e, delicadamente, tiraste-me a camisola. O meu cabelo tapava os seios desprotegidos. Assim não estás nua, dizias tu muito baixo, quase de forma imperceptível. Estendi as minhas pernas para ti e tu despiste-me a saia muito lentamente, observando cada centímetro de pele. Esticaste-te e obedeci à tua ordem muda: desabotoei-te as calças, e tu desfizeste-te delas. Restava a pouca roupa interior nos nossos corpos, tu de boxers, eu de tanga. O meu cabelo solto sobre o corpo. O teu selvagem, no ar. Passaste as tuas mãos pelas curvas do meu corpo, acariciaste a minha pele, o meu cabelo, e deitaste-me, deitámo-nos, suavemente na cama, no teu edredão fofo.


Deitado sobre entre as minhas pernas tacteavas o meu corpo com a boca. Beijaste-me as mãos. As dobras dos braços. Os ombros. O pescoço. Beijaste-me docemente as pálpebras dos olhos. O nariz. O queixo. E enfim os teus lábios encontraram os meus e beijámo-nos. Beijámo-nos sofregamente como se nos quiséssemos possuir, como se aquele beijo contesse todas as palavras, todas as ideias, todas as emoções, como se partilhássemos entre nós toda a energia que nos molda. E de novo os teus beijos abraçaram o meu pescoço que se estendia em prazer e eis que a tua boca descobriu os meus seios. Desceste com a língua até ao umbigo e daí até ao íntimo do êxtase.

Inacabado.


[Não consigo. Tentei várias vezes. A parte que mais desejo saber descrever... e não consigo. E já não gosto como comecei. Quem quiser pode dar-lhe uma continuação.]

quinta-feira, janeiro 31, 2008

One night she said

Eu sei que não me mereces, mas eu quero ser tua. Quero que me possuas. Que enchas o meu corpo das tuas mãos. Que me enchas os ouvidos com doce e me deixes no olhar essa meiguice toda.
Deixa-me ser tua. Deixa-me gostar de ti como quero. Mas não me faças chorar. Estou tão cansada de estar triste. (...)
Que saudades, meu... nada meu. Tuas. Que saudades de ti. (...)
Preciso da emoção do teu abraço. Encontra-te comigo. Encontra-te em mim.
Não mais te quero esquecer.
Adoro-te.

C.



[Cheira-me que este blogue terá (já está a ter) um rumo que nunca teve. Nunca tive intenção de escrever textos com este teor e muito menos de os publicar num blogue. Julgava demasiado banal e nada a ver comigo. Porém, o que me apetece escrever é isto. Histórias, personagens, emoções. Apetece-me inventar o mundo em palavras doces e amargas sobre um tema banal, algo comum de todos os dias e de todas as pessoas. Apetece-me narrar e estou a gostar.]

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Devaneios Narrativos

Preciso sentir a tua presença esvair-se de mim para ser capaz de lhe dar valor. É como a vida, não é, meu amor? Preciso que não sejas garantido, nem constantemente presente, nem sempre certo. Preciso exactamente daquela quantidade de ti. A quantidade certa que não me intoxica até à morte e que não te eleva até ao esquecimento. Preciso de ti na medida certa. E para que eu perceba qual a medida certa, preciso sentir-te ao longe. Preciso sentir que preciso de ti. Que me fazes falta. Para saber o valor da tua presença, preciso conhecer a tua ausência. E precisamos oscilar entre isso para que isto não morra, meu amor. Precisamos equilibrar as nossas mãos em razão e emoção, no ponto certo, naquele ponto que nos permita ficar dentro um do outro todos os minutos, mesmo naqueles em que julgamos não estar lá. Milímetro a milímetro, precisamos de nós. Eu preciso do teu eu que é meu e tu precisas de mim exactamente da maneira que necessitas. E para que sejamos para o outro o nosso alimento, precisamos sentir a fome e só assim, meu amor, voltarei a ti e tu a mim.

16 Nov. 07

sábado, outubro 27, 2007

Afecto

Era quase meia-noite e o dia estava para acabar. Já deixaria de ser o meu dia. Aquele dia a que todos dão especial importância e o qual, na realidade, pouco siginificado tem. No entanto, havia ainda uma prenda por oferecer. Uma prenda prometida, ainda não cumprida.

Chamei-o. Larguei as folhas que tinha comigo e corri para a casa-de-banho para me preparar. Fiz questão de me vestir de forma provocadora. Usei o vestido que lá ficou da última vez e as meias que ele me ofereceu. Esperava agora pela sua chegada, entre pequenas corridas do quarto para o armário e para a casa-de-banho. A única luz que existia vinha do meu quarto e todo o resto da casa estava mergulhado na penumbra. Não havia preparação. Apenas um corpo quente e um desejo aceso.

A campainha tocou e a voz grave dele no intercomunicador aproximou o momento e aumentou a ansiedade. Subiu e precisou bater à porta porque, ainda na correria, esquecera-me de lha abrir. Rodei a maçaneta e, lentamente e escondendo o corpo atrás da porta, permiti-lhe a entrada. Olhei-o com o sorriso tímido de quem não se encontra totalmente confortável. Olhou-me com o sorriso confiante e satisfeito de quem gosta do que vê, e beijou-me. Prendeu-me em beijos, os dois encostados à porta fechada. Sem palavras, no silêncio da saliva que se partilha entre duas bocas que se desejam.

Não sei quanto tempo passou até ele me puxar pela mão até ao quarto. Entrámos. Eu junto à cama, ele fechando a porta atrás de si. Caí no erro de falar, mas rápido a boca dele abraçou a minha e os nossos corpos caíram na cama. Dois corpos que se queriam ainda antes de se encontrarem. Dois corpos que aos poucos se tocavam, despiam, acariciavam, num êxtase crescente que concretiza a paixão da carne. Esse momento, que eram muitos momentos, criou-se num silêncio que estremecia. No silêncio dos murmúrios, dos olhos fechados, dos corpos quebrados em prazer. Os momentos sofriam metamorfose. Os movimentos amadureciam. Os movimentos de luxúria e os movimentos de carinho. O carinho que passeava na pele, nos sussurros, no abraço dos olhares, de lábios em lábios.

Uma noite. Uma prenda. Poderia ser oferecida em qualquer dia, por qualquer motivo, sem motivo, com o único objectivo de deleitar dois seres que desejam, procuram, satisfazem. Dois seres de paixões. Dois seres de caprichos. E depois, o suor e o odor que desaparecem. E depois, a lembrança que fica. Uma noite que toca onde poucas vezes se sente.

finalizado a 27 de Outbro de 2007

segunda-feira, setembro 17, 2007

Conclusões tão conclusivas

E ela disse:
- Uma merda, portanto. E a merda só serve para adubar. Tal como as cinzas. Faça-se de mim cinzas, então, para que eu tenha um papel a desempenhar no mundo.

sábado, setembro 15, 2007

Atracção

Foi a sair da sala, pela manhã, que ela te viu pela primeira vez nesse dia. Não o queria admitir, mas sentiu saudades da tua figura no fim-de-semana.
E ali estavas tu, sozinho, encostado à parede a olhar em redor alheadamente para todos os que passavam. O coração dela disparou ao ver-te e sentiu o rubor crescer nas suas faces. Disfarçava, porém. Ou tentava disfarçar. O calor que crescia no seu corpo e a ansiedade que turvava o pensamento eram difíceis de disfarçar.
Passou por ti e tentou exprimir um “olá” imparcial, vulgar. Mas os teus olhos grandes e expressivos a olharem para ela confundiram-na e o seu calor corporal, quase vergonhoso, intensificou-se ainda mais. A tua presença perturbava-a. Ela sabia-o e era impossível negá-lo.
Continuou o seu percurso e fingiu não te ver mais. Afinal, iria estar ocupada. A aula que se seguiria, pouco tardava a começar. Além do mais, estavam imensas pessoas no corredor e ela não se ia entregar à triste figura de furar os espaços livres com o olhar só para te avistar. Contudo, em alguns momentos, não resistia e saciava a sua sede de te observar. Mas rápido desviava o olhar e distraia-se a conversar com outras pessoas.

Esta atracção irresistível por ti tornava-se insuportável. Não queria sentir esta força incontrolável, mas não conseguia resistir-lhe, guiada pelo desejo de te ter, ainda que com o olhar, apenas.

09.10.06

sexta-feira, setembro 07, 2007

Heart's Dialogues

She: The more I learn to care for you the more we drift apart. Why can't I free your doubtful mind and melt your cold cold heart?

He: Don't you cry when we're through. I got a cold cold heart, I do.

She: You look so fine, I want to break your heart and give you mine. You're taking me over.

He: Growing hold, faking new, something borrowed and then again something blue. My cold heart can't go wrong and it gets me around in bounds along.

She: It's so insane! You've got me tethered and chained. I hear your name and I'm falling over.

He: Can't define what is love. Should I then pray out to the one above?

She: You come on like a drug, I just can't get enough. I'm like an addict coming at you for a little more and there's so much at stake, I can't afford to waste.

He: I don't have that stuff you need, but I can get down on my knees. I'll ease your pain, your appetite, for today it's ok, it's alright. It's alright as long as I don't have to stay, my cold heart can't take it any other way.

She: I don't care. I want you to stay and hold me and tell me you'll be here to love me today.

He: "Long before I knew you there was someone who cared that warned my heart and made it part so high above the land."

She: A memory from your lonesome past keeps us so far apart. Why can't I free your doubtful mind and melt your cold cold heart?

He: Out of luck, knock on wood and I just left you because I could. My cold heart, who could tell? That all this silence would burn and turn to hell.

She: I used to adore you, I couldn't control you. There was nothing I wouldn't do to keep myself around and close to you.

He: I know what you're going through. I feel like I already know you. Why don't you come here near the light? It's ok. It's ok. It's ok. It's ok. It's alright.

She: You hold my hand, but do you really need me?

He: I don't have that stuff you need.

She: I'm just sitting here waiting for you to come on home and turn me on.

He: But I can get down on my knees. I'll ease your pain, your appetite, for today it's ok, it's alright.

She: Bend me, break me, any way you need me. All I want is you. Bend me, break me, breaking down is easy. All I want is you.

He: It's alright as long as I don't have to stay. My cold heart can't take it any other way.

She: Please me, tease me, go ahead and leave me.

He: It's alright as long as ice can't turn to stone, I won't be alone.

She:
That sinking feeling when you are leaving, all I believe in walks out my door.


He: Don't you cry when we're through, I've got this cold heart because, because I do.

She: Do what you want to do, just pretend happy end. Let me know, let it show. Ending with letting go, let's pretend happy end.



[As letras de "He" são da música Cold Heart de David Fonseca e as de "She" são das músicas Cold Cold Heart, Be Here To Love Me, Thinking About You e Turn Me On de Norah Jones e das músicas Temptation Waits, Special, I Think I'm Paranoid, Wicked Ways e You Look So Fine de Garbage.]

sexta-feira, agosto 24, 2007

Exercício dos 5 minutos

Eram exactamente 1h11 quando ela pegou na faca da cozinha e a fez deslizar por embos os pulsos. Não queria que tivesse sido assim, mas não havia outra forma e ela não aguentaria esperar mais um dia. Pelo menos acertava na hora e isso era ainda mais importante do que o modo como o fazia. Toda a sua vida tivera um qualquer pressentimento relativamente àquela hora e esta noite dava-lhe finalmente um significado.
Não sabia se olhava para o sangue escorrer ou se simplesmente encarava a parede da casa-de-banho até... até não ser preciso preocupar-se com isso ou qualquer outra coisa.

17 de Agosto de 2007

sexta-feira, agosto 17, 2007

Exercício das Palavras I

Palavras:
  • café
  • baunilha
  • lençóis
  • ballet
9h da manhã. Lara esperava apoiada ao balcão que o café se aprontasse na cafeteira eléctrica e o sol, na sua pujança matinal, invadia a cozinha fazendo-a brilhar em todos os seus pormenores. Os bilhetinhos do pequeno Tomé eram uma vez mais passados por debaixo da porta e Lara perguntava-se como poderiam parecer tão sinceras as juras de amor de um miúdo de apenas 8 anos.
Do quarto chegavam os roncos de um desconhecido encontrado na noite anterior. Ela mirava os seus pés descalços semi-encobertos pelo lençol e preocupava-se em não chegar atrasada à aula de ballet. Num impulso dirigiu-se ao quarto, abriu os estores acordando o jovem mais pelo barulho do que pela luz que lhe lavava a cara directamente.
Rapidamente se sentou e a fixou. Lara com frases curtas, mas um sorriso dócil informou-o de que tinha de ir embora. Voltou à cozinha, levou-lhe uma caneca de café e insistiu na urgência por causa da sua aula. Enquanto ele apanhava as roupas do chão e se vestia, ela desfazia a cama e continha a expressão de nojo que o perfume de baunilha dele lhe causava. O cheiro impregnava os lençóis e por isso apressou-se em enfiá-los na máquina de lavar. Ele não acabara o café, mas já estava vestido, então indicou-lhe a saída, acompanhando-o à porta e despedindo-se com dois beijos inocentes.
- Posso voltar a estar contigo?
- Hã... como era mesmo o teu nome?
- Ricardo.
- Ok, Ricardo. Gostei muito da noite, mas precisas mesmo de ir.
De novo o sorriso e a porta fechou-se. Era tempo de se aprontar para mais um dia.

domingo, agosto 12, 2007

Simbiose

Todo um misto de euforia, prazer e desejo que acaba lenta e calmamente em mais uma conversa que se prolonga nas horas, num longo momento de troca de pensamentos que nos transportam ao transcendente do comum, ao império da racionalidade, da compreensão, da consciência. E é por esse processo de libertação que se anseia, por esse momento de exploração do ser.

21 de Maio de 2007

sexta-feira, agosto 03, 2007

Descontração

Enquanto mergulhava os pés na piscina, uma andorinha sobrevoava a água em voos rápidos como se desafiasse algo ou alguém. O sol brilhava lá no alto do céu e Norah Jones fazia-se ouvir na aparelhagem atrás de mim. O dia estava magnífico e eu ansiava por um bloco e uma caneta para o poder descrever. Mas não me apetecia pensar demasiado. O meu verdadeiro desejo consistia em apreciar o momento. Fechar os olhos, lançar a face ao céu, agitar as pernas na água fresca e respirar.
Inspiro, expiro… inspiro, expiro… até sentir cada centímetro de pele no meu corpo, inspiro, expiro… até ser sensível ao som do passeio das formigas na relva, inspiro, expiro… até transcender não sei bem o quê. Simplesmente ser e sentir, na borda daquela piscina, com aquela andorinha a sobrevoar os meus pensamentos e Norah Jones para os embalar.

quarta-feira, julho 18, 2007

Um sonho

Há uma semana não o via. Ele estava para fora e eu não sabia exactamente quando o tornaria a ver. Simplesmente esperava que ele chegasse de viagem e quisesse saber de mim e estar comigo.
Apenas uma semana se havia passado e a mim parecia-me muito mais. Até aquela altura nunca tinha estado mais que dois, três dias longe da sua presença. E custava-me tanto não poder estar com ele. Desde o início daquela época, essa semana foi a pior que passei naquele lugar. Ele fazia-me falta e só me apercebi do quanto naquela semana.

Ele voltou. Era noite e estávamos no café, como de costume. Era Verão e a janela atrás da nossa mesa estava aberta. Senti que a noite estava diferente. Não sabia porquê, mas o ar que inspirava alegrava-me e essa alegria despertava as borboletas da barriga. Estávamos à porta, a sair do café, quando o vi lá fora, muito quieto a olhar para mim. Parei a olhá-lo também. Ele estava diferente. O seu olhar e a sua postura evidenciavam decisão, como se estivesse prestes a revelar algo. Os outros passaram, cumprimentaram-no e foram embora. A Soraia, porém, demorou-se um pouco mais e ficou à conversa com ele.
Sentámo-nos os três nas escadas da entrada do café. Relaxado, ele contava maravilhas sobre a sua viagem, de como tinha adorado e de como ainda estava fascinado. Eu olhava-o atenta e sorria quando ele me olhava. Algum tempo depois também a Soraia se despediu e restámos nós, sentados lado a lado. Ele olhava-me com uma alegria imensa e o meu coração palpitava tanto que só ouvia o seu bater e nada mais. Até que ele tocou uma madeixa do meu cabelo e me disse o que há tanto queria ouvir. Perguntei-lhe por ela, mas ele apenas fez sinal com a cabeça e eu percebi que ela agora estava no passado. Acariciou-me a face e gentilmente abraçou os meus lábios com os dele numa meiguice intensa, e eu rendi-me. Esqueci os problemas e as mágoas do passado e concentrei-me no presente. Levantámo-nos, demos as mãos e caminhámos em direcção ao centro. Entretanto amanhecera e o chilrear dos pássaros embalava o nosso caminhar. Olhei-o uma vez mais antes de enlaçar a sua cintura e proteger-me no seu braço. Nunca antes eu me lembrara de me sentir tão bem. Era feliz no seu abraço e nada mais importava. Encontrara o meu conforto. O meu sorriso. Passámos o centro e ele levou-me para a sua casa.

12 de Abril de 2007

sexta-feira, maio 05, 2006

Teatro

Regressei. Não definitivamente porque ainda não tenho internet em casa, pelo que, neste momento, me encontro na biblioteca da escola. Fiquei tocada pelos vossos comentários. São todos muito queridos e é bom saber que apesar da pasmaceira deste blog continuam a visitar-me. E, por isso, vos agradeço.

Este é o único texto completo que escrevi nos últimos meses e que é mais que um aglomerado de frases. É um texto que nasceu da vontade de cumprir um pedido da professora da aula de Oficina de Expressão Dramática que nos convidou a encarnar uma personalidade conhecida e a escrever por ela uma definição de teatro e, afinal, serviu também de pretexto para me lançar nas malhas da escrita, novamente.





Uma cidade de um país de um continente, do dia X do mês Y do ano Z

Queridos irmãos galácticos!

Durante e após 13 anos de infiltração neste vosso planeta Terra percebi e conclui, com certeza, que o teatro é um método importantíssimo no processo de socialização entre vós.
Como seres sociais que sois, demonstrais uma grande necessidade de vos integrardes em grupos e de não vos sentirdes excluídos, pelo que fazeis uso de várias artimanhas, de modo a serdes bem sucedidos nesse vosso propósito. Por isso, representais. Representais das mais variadas formas sem nunca perderdes, no entanto, a identidade que vos torna diferentes e únicos. Encarnais as mais variadas personagens e o que me causa maior espanto é nem vos aperceberdes que o fazeis. Por isso, sois o filho ou a filha quando estais com os pais, sois o trabalhador ou o aluno para os colegas e o trabalhador ou o aluno para o patrão ou para o professor, sois alguém em grupo, sois alguém em privado com outra pessoa e sois ainda outra pessoa quando estais sozinhos.
Como vedes, sem o teatro a vossa vida perderia o significado, vós perderíeis a vossa identidade e perderíeis a noção dos outros e do vosso papel para com os outros. Como vedes, o teatro não é a mentira, é a capacidade de poderdes ser outros, é a capacidade de vos camuflardes a vosso bel-prazer sem , no entanto, deixardes de ser quem sois, ainda que não saibais quem verdadeiramente sois. Podeis dizer que as personagens que representais escondem o vosso verdadeiro "eu", mas também podeis dizer que as personagens que representais constroem o vosso verdadeiro "eu"e fazem de vós o que verdadeiramente sois: actores do mais íntimo da vida que existe em vós.


Respeitosamente,
o Extra-Terrestre





28 de Abril de 2006

domingo, outubro 02, 2005

Recordações de invenção

Como em todas as minhas histórias de adolescente, estava um fim de tarde ameno. O sol mergulhava, na sua calma, nas águas do oceano atlântico e pintava o céu num tom de laranja que me preenchia a alma. Alma que se encontrava, ainda, presa a este corpo de pele branca e seca, escondida, apenas, pelo biquini laranja e o saiote azul marinho, com cujas tirinhas me entretinha. A maresia fresca que pairava no ar enchia-me os pulmões e fez-me divagar... O corpo estava naquela praia, mas a mente viajava já entre mil e um pensamentos das mais variadas sensações. A primeira a sobressair do baú das memórias foi o cheiro ao cozido de bacalhau que a minha mãe costumava fazer no tempo inverniço. Sempre cozinhou com tanto carinho!... Tudo era cuidado ao mais ínfimo pormenor, nada podia faltar e tudo o que havia era maravilhoso. "Um verdadeiro jantar dos deuses!", dizia o meu pai limpando a boca ao guardanapo, encostado à cadeira de papo para o ar. E realmente, os jantares da minha mãe sempre foram deliciosos e eram sempre propícios a longas conversas que se estendiam até altas horas da noite. Eram bons os tempos passados com os meus pais. A nossa relação era, sem dúvida nenhuma, uma amizade extremamente forte e rica. Tantas experiências em comum, tantos conhecimentos e relatos partilhados, tanta vida entre nós. E as nossas viagens? Oh, as nossas viagens!... De um canto ao outro do país, dormitanto em hóteis, cantando no carro ao som dos velhos cd's do meu pai, comentando, criticando, rindo... Ainda me lembro quando fomos todos juntos ao Jardim Zoológico de Lisboa. Saí de lá com os pés em bolhas, mas valeu tanto a experiência! Era (e ainda deve ser) enorme! e são tantos os animais lá hospedados! Desde os ferozes leões tão esperados naqueles sítios, os chimpanzés tão fofinhos e brincalhões, aquelas aves pequenas todas coloridas, as girafas com o seu pescoço grandemente engraçado, os hipopótamos, até os répteis e lembro-me de ver avestruzes! Houve até uma avestruz deveras patusca que decidiu engraçar com a minha mãe, talvez pela camisola colorida que ela levava nesse dia, ainda não sabemos. As lembranças de bons momentos passados saltitavam em mim e eu deixava-me ir... até sentir na cara uma pequena gota de água que, insistentemente, se multiplicou. Começou a chover fortemente e de rajada e fui obrigada a levantar-me e atravessar a praia até ao café. Agora, era o ar fresco que avizinhava a noite que me despertava de regresso ao corpo e ao presente.

11 de Agosto de 2005


Em resposta ao desafio do mês "Palavra de ordem!" do Escreva!