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segunda-feira, julho 21, 2008

sábado, fevereiro 02, 2008

Alma de Pássaro

"E o homem certo para ti, se é que isso existe (...), é aquele para quem tu também fores a pessoa certa."

Margarida Rebelo Pinto

quarta-feira, setembro 12, 2007

Livre do passado

- Aprende-se a esquecer?
- Não se trata de esquecer. O que importa é aprender a lembrar e, ao mesmo tempo, estar livre do passado. É importante aprender a forma de estar ali, com o morto, e ao mesmo tempo estar aqui, neste lugar, com os vivos.
Lançou-lhe um sorrisinho triste e acrescentou:
- Não é fácil.

Aldous Huxley, in A Ilha

terça-feira, agosto 07, 2007

Livro do Desassossego

"A única atitude digna de um homem superior é o persisitir tenaz de uma actividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico e metafísico cuja importância se sente ser nula."

Bernardo Soares

domingo, julho 08, 2007

Sobre Relacionamentos

"Se o nosso entendimento se basear apenas na razão, surge o isolamento, o orgulho e a falta de amor, e se basearmos o nosso entendimento meramente na emoção, então ele não terá profundidade; haverá apenas um sentimentalismo que logo evapora, sem nada de amor."

Krishnamurti

terça-feira, janeiro 16, 2007

Tudo o que faço ou medito...

Um poema...
daqueles que memorizamos de tantas vezes o lermos
daqueles em que choramos ao ler o primeiro verso.

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica
E eu sou um mar de sargaço -

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Onze Minutos

"O desejo profundo, o desejo mais real é aquele de se aproximar de alguém. A partir daí, começam a ocorrer as reacções, o homem e a mulher entram em jogo, mas o que acontece antes - a atracção que os juntou - é impossível de explicar. É o desejo intocável, no seu estado puro.
Quando o desejo ainda está nesse estado puro, homem e mulher apaixonam-se pela vida, vivem cada momento com reverência, e conscientemente, sempre à espera do momento certo de celebrar a próxima benção.
Pessoas assim não têm pressa, não precipitam os acontecimentos com acções inconscientes. Elas sabem que o inevitável se manifestará, que o verdadeiro encontra sempre uma forma de se mostrar. Quando chega o momento, elas não hesitam, não perdem uma oportunidade, não deixam passar nenhum momento mágico, porque respeitam a importância de cada segundo."

Paulo Coelho

sábado, novembro 18, 2006

muito, meu amor

"És tão linda que nem dás vontade de foder, dizia. Eu não consigo. Dizia outras coisas, grande parte perde-se no ar, mas algumas, poucas, raras, ficam guardadas e voltam de vez em quando, nas alturas mais despropositadas, atrapalhando o que se está a fazer. És tão linda que nem te consigo foder. Eu, pelo menos, não consigo. A beleza não seduz, assusta quase, leva-nos para um sítio que não sabemos onde fica, sabemos só que não é aqui. Era assim que ele tentava explicar, como quem precisa de uma desculpa, o que lhe estava a acontecer, sabendo de antemão que não ia conseguir. Se há coisa que não se sabe explicar é por que se gosta do que quer que seja - um perfume, uma flor, um beijo - e o que seja isso de gostar que traz duas coisas tão próximas que as põe misturadas numa só e as outras tão distantes que se apagam facilmente. (...)"

"Todas as feridas serão material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. De preferência mantê-las abertas, até por fim sararem. De outro modo não deixarão outra cicatriz que não seja umas linhas, uma página, no máximo. (...)"

Pedro Paixão

sábado, outubro 07, 2006

à espera não sei de que momento

A minha mãe costuma-me dizer: "Não te preocupes que a verdade vem sempre ao de cima." E eu penso que enquanto ela não vem, o sofrimento permanece. Dói saber que alguém anda enganado, principalmente quando somos nós, ou alguém que nos está, directamente, ligado.
11.09.06

Mudez

(...)
Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda
Na voz dos outros, todo eu me afogo
Neste mar de silêncio, íntima noite
Sem madrugada.
(...)

Miguel Torga


[Post não relacionado com o dia de hoje. J
á há duas semanas que o pretendia escrever. (É necessário dizê-lo).]

sábado, setembro 23, 2006

(alguns) Mecanismos de defesa do ego

(de acordo com a teoria psicanalítica)



Mecanismos de defesa do ego: estratégias inconscientes que a pessoa usa para reduzir a tensão e a ansiedade, fruto dos conflitos entre o id, o ego e o superego. São mecanismos que visam evitar a angústia resultante dos conflitos intrapsíquicos.


  • Recalcamento - pelo recalcamento, o sujeito envia para o id as pulsões, desejos e sentimentos que não pode admitir no seu ego. Os conteúdos recalcados, apesar de inconscientes, continuam actuantes e tendem a reaparecer de forma disfarçada (sonhos, actos falhados, lapsos de linguagem...).
  • Regressão - pela regressão, o sujeito adopta modos de pensar, atitudes e comoprtamentos característicos de uma fase de desenvolvimento anterior. Frente a uma frustração ou incapacidade de resolver problemas, a criança ou adulto regridem, procurando a protecção de épocas passadas. Assim, o nascimento de uma irmão pode levar uma criança a fazer chichi na cama (eunerese) ou um adulto, face a problemas, pode fugir à realidade refugiando-se em atitudes infantis (dependência excessiva, choro, chantagem...).
  • Racionalização - pela racionalização ou intelectualização, o sujeito, ocultando a si próprio e aos outros as verdadeiras razões, justifica racionalmente o seu comportamento, retirando assim os aspectos emocionais de uma situação geradora de angústia e de stress. Deste modo, com justificações racionais tenta explicar-se de forma "aceitável" porque se bateu no irmão, se faltou ao exame médico, se mentiu ao marido ou à mulher, etc.
  • Projecção - pela projecção, o sujeito atribui aos outros (à sociedade, a pessoas, a objectos) desejos, ideias, características que não consegue admitir em si próprio. São reflexos desde processo, frases como Fulano detesta-me; aquele indivíduo não suporta críticas; a sociedade não tem ideais solidários; a boneca é má..., quando é a pessoa que as profere que tem esses sentimentos.
  • Deslocamento - pelo deslocamento, o sujeito transfere pulsões e emoções do seu objecto natural, mas "perigoso", para um objecto substitutivo, mudando assim o objecto que satisfaz a pulsão. Exemplos: o funcionário que sofre de conflitos no emprego e é agressivo ao chegar a casa; a criança que desloca a cólera sentida pelos pais para a boneca
  • Formação reactiva - pela formação reactiva ou inversão dos aspectos, o sujeito "resolve" o conflito entre os valores e as tendências consideradas inaceitáveis, apresentando comportamentos opostos às pulsões. Assim, uma pessoa pode ser demasiado amável e atenta com alguém que odeia; um sujeito afasta-se de quem gosta; manifesta uma excessiva caridade para esconder um sadismo latente; uma pessoa submissa e dócil pode esconder um dominador violento.
  • Sublimação - pela sublimação, o sujeito substitui o fim ou o objecto das pulsões de modo que estas se possam manisfestar em modalidades socialmente aceites. A eficácia do processo de sublimação implica que o objecto de substituição satisfaça o sujeito de forma real ou simbólica. Frequentemente, a sublimação faz-se através de psubstituições com valor moral e social elevado. Exemplos: um pirómano pode ingressar num corpo de bombeiros, modificando as suas relações com o fogo, agora utilizadas de forma socialmente reconhecida; o amor platónico pode esconder desejos considerados inaceitáveis pelo sujeito. A arte tem sido estudada como uma área que permite sublimações.
Fonte: Psicologia 12º ano (2ª parte), Manuela Monteiro e Milice Ribeiro dos Santos, Porto Editora (www.portoeditora.pt)


Decidi deixar-vos com este excerto, um pouco comprido, porque é realmente fascinante como podemos ver algumas pessoas aí retratadas.
E também para vos anunciar que entrei em Psicologia na Universidade do Minho e que estou muito contente com isso. Era o que eu queria e espero gostar muito do curso, apesar de já ter visto que tenho algumas cadeiras que não têm nada a ver com uma aluna que saiu de Humanidades (como é o caso de Fundamentos Matemáticos da Psicologia O.o).
Uma vez que esta semana, que começa já amanhã, é a semana de eu me mudar para Braga porque já começam as "actividades" e depois as aulas, penso que não vai haver possibilidade de eu actualizar o blog durante a semana, pelo que se o fizer, será exclusivamente ao fim-de-semana. Deixo, desde já, o meu aviso :)

P.S. Podem usar do vosso direito de não ler isto tudo! :p

quarta-feira, agosto 02, 2006

Não deixem morrer as palavras

- O Sr. já reparou bem num dicionário?... Num dicionário qualquer?... No de Morais, por exemplo... Ou no do povo... (Tanto faz!...) Já reparou?...
Eu esperei pela sequência do discurso. A aproveitar aquela mandriice tão boa de ter alguém a raciocinar por mim.
- Já reparou?... Pois a mim faz-me lembrar, sabe o quê?... Um jazigo de família. Ou melhor: um jazigo de nação. Uma espécie de mausoléu de papel, onde gerações de gatos-pingados empilharam séculos e séculos de palavras, alguma já definitivamente mortas, cobertas de bichos e de coroas saudosas... Outras vasquejaram nos últimos estremeções... E muitas, apenas em estado cataplético, à espera de um toque de dedos para regressarem à monotonia da vida diária... A este maldito bolor, onde ultilizamos ao todo quantas palavras vivas - diga-me lá quantas? Quinhentas? Mil?... Nem tantas, talvez!

Garanto-lhe que, em certos dias, quando subo o Chiado... ou entro num café da Baixa... e ouço essa gente parda a repisar, de manhã à noite, os mesmo termos... as eternas expressões... os substantivos inevitáveis... os adjectivos fatais... e o verbo ser, o verbo haver, e o verbo ter, e o verbo fazer... sabe o que me apetece?... Saltar para cima de uma mesa ou de um marco postal e gritar furioso aos homens: não deixem morrer as palavras, assassinos! Não deixem morrer as palavras!
Caía de bêbado, evidentemente. Mas pela boca roçava-lhe a alegria da volúpia de um sentimento fundo.
- E algumas são tão bonitas!... murmurava absorto. - Quando as vejo deitadinhas nas páginas dos dicionários, com mais de trezentos ou quinhentos anos, sabe do que me lembro sempre?... Daquela lenda das velhinhas milagrosas que, de ninguém as usar, o tempo tornou outra vez novas e virgens...
Deteve-me um momento a esquadrinhar na memória e por fim levantou um dedo de exclamação triunfante:
- Ardimento, por exemplo... Como é que os portugueses puderam esquecer-se desta palavra tão jovem, tão quente, tão expressiva e teimam em usar a infame «coragem» e o ignóbil «entusiasmo»?
E exemplificava:
- «Beija-a com ardimento...» E mais... muitas mais... Tantas que só por ablepsia... Olhe outra: ablepsia... E solerte! Agora já ninguém diz solerte! Porquê? «Fulano é solerte»? E ardiloso? E roaz?...
Para me eximir àquela autêntica inundação de palavras difíceis (e de gafanhotos) formulei com rapidez um plano de defesa que abrangia o seguinte desenvolvimento táctica: «concordar e retirar-me».
Mas o beberrolas, com a presença de um sorriso de lágrimas nos olhos, fincou-me as mãos no casaco, numa brandura de rogo:
- Antes de se ir embora quer fazer-me um favorzito, quer?... Só um favorzinho?... Faz?
Aquiesci.
- Então diga, em voz alta, só para eu ouvir, esta palavra tão bonita: protérvia... Diz?... Protérvia...
E, como eu me retraísse, intimou-me autoritário:
- Vá, diga: protérvia.
- Protérvia... - desembuchei, envergonhadíssimo como se pronunciasse uma obescinidade.
A boca do explicador de português babou-se de consolo admirativo pelas palavras esdrúxulas.
- Protérvia! [...] E impérvio? E estólido? Ouça: e se eu lhe chamasse estólido, gostava? Seu estólido!...
E riu, riu, riu, desdentadamente. [...]
Confesso que aproveitei a aberta do estólido e fugi.


José Gomes Ferreira, Gaveta de Nuvens

segunda-feira, setembro 05, 2005

Cartas a um Jovem Poeta

"Rainer Maria Rilke nasceu em Praga em 1875, filho de um oficial do exército e de uma mãe fanaticamente religiosa.
Estudou filosofia, história, literatura e arte em Praga, Berlim e Munique. Começou a escrever poesia desde muito cedo.
Em 1901 casou com Clara Westhoff e viveram em Worpswede até ao nascimento do único filho, tendo-se depois mudado para Paris, em 1902. Morreu em Valmont, a 29 de Dezembro de 1926."*




"Atraídos pela sua poesia, era frequente alguns jovens escreverem a Rilke, falando-lhe dos seus problemas e aspirações. De 1903 a 1908 Rilke enviou um notável conjunto de cartas a um jovem cadidato a poeta, sobre a poesia, o amor e a sensibilidade, revelando também, desta forma, a sua relação com a vida e a dificuldade que um espírito sensível tem em sobreviver num mundo duro e implacável."*




Adorei ler este livro e agradeço imenso ao AF do Segundo Impacto que me sugeriu a sua leitura num comentário a um texto que eu cá tinha posto. Tal como ele disse, é um livro "recheado de conselhos e ideias muito interessantes" e eu aconselho, vivamente, a todos aqueles que se interessam pela escrita e a tantos outros também, porque são conselhos acerca da vida.


*Direitos reservados por Coisas de Ler Edições, Lda.

quarta-feira, maio 25, 2005

Cansaço


(olhares.com)

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço. (...)"

Álvaro de Campos

segunda-feira, maio 09, 2005

O que eles escreveram sobre Fernando Pessoa

"Pessoa, seu primeiro leitor, não duvidou de sua realidade. Reis e Campos disseram o que talvez ele nunca diria. Ao contradizê-lo, expressaram-no; ao expressá-lo, obrigaram-no a inventar-se. Escrevemos para ser o que somos ou para ser aquilo que não somos. Em um ou em outro caso, nos buscamos a nós mesmos. E se temos a sorte de encontrar-nos - sinal de criação - descobriremos que somos um desconhecido. Sempre o outro, sempre ele, inseparável, alheio, com teu rosto e o meu, tu sempre comigo e só".

(Otávio Paz, O Desconhecido de Si Mesmo: Fernando Pessoa in Signos Em Rotação, col. Debates, nº 48)

segunda-feira, abril 11, 2005

Ecoponto doméstico


"Os ecopontos podem ser adquiridos nos super e hipermercados, nomeadamente, Jumbo, Continente, Feira Nova, Modelo, etc. a um preço que deverá rondar cerca de 10/12 euros.
(...)
Os ecopontos domésticos são disponibilizados incluindo um guia de reciclagem de edição e responsabilidade da Sociedade Ponto Verde, que contém as regras de separação de embalagens, para facilitar ainda mais a tarefa.
(...)
Estes ecopontos, (...) dispõem de três divisões e permitem separar num só contentor os diferentes materiais, à semelhança do que acontece com os ecopontos de rua. Ou seja, possuem uma divisão para o plástico e o metal, outra para o papel/cartão (especialmente concebida para o formato dos jornais e revistas) e finalmente uma para o vidro."

Para mais informações visitem o link: http://www.pontoverde.pt/sala_imprensa/sala_imprensa_press63.html
Porque nunca é demais lembrar...

E para que conste, também ainda tenho que comprar um :$ (só porque acho mais eficiente em comparação com as sacas penduradas na cozinha)

Sempre pensei que me preocupava com os males feitos ao meio ambiente, até me aperceber que nem a separação de lixo em casa fazia. Ora bem, quem se preocupa de corpo e alma, faz algo pela sua causa, não é verdade? E muitos podem associar, apenas, as fábricas à poluição, mas penso que todos tomamos consciência que não parte exclusivamente dos outros prejudicar ou ajudar o meio ambiente, não é? Afinal de contas, nós também não poluímos? Se de cada vez que fossemos ao supermercado, olhassemos antes para o rótulo e verificassemos se o produto é um forte contaminador para o ambiente, em vez de olharmos exclusivamente para a marca e os "afins" que esta promete, estariamos a contribuir para vivermos num mundo mais fresco. E quem diz ir ao supermercado, diz outras coisas. A separação de lixo em casa é uma delas. Não custa nada, pois não? Quero dizer... é preciso ter cuidado com o que se separa porque nem tudo pode ser reciclado, mas há guias que nos informam e sites como o ponto verde. Penso que não custa nada tentar reanimar o nosso planeta. Afinal, é o único que nós temos.

Quando penso no mundo actual, a ideia imediata (talvez por ser citadina) que me vem à cabeça é o fumo, o barulho, o stress e, consequência disso, pessoas rezingonas, o trânsito, edifícos, cruzamentos, buzinas, passadeiras, alcatrão, preto... Por vezes dá vontade de dar um berro seco e esperar que tudo pare, tal como nos filmes. Vê-se apenas o vácuo da vida das pessoas. Serão felizes? Alguns podem julgar que sim. Talvez o sejam, talvez não. Será que se lembram de pensar nisso sequer? Para a frente, para trás... para ali, para acolá... Agora, neste instante, atrasos... esgotamento... a sucção da vida. Cansaço... "Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo, cansaço...".
Talvez não sejam todos assim. Mas é essa a imagem e a sensação que tenho quando penso neste mundo. Sim há o verde, os montes, o azul, os rios... há o riso, o sorriso... Há quem os procure? Agora, talvez mais. Porque eu acredito que cada vez mais pessoas se apercebem o que está a acontecer ao planeta. Mais e mais pessoas se apercebem e sentem que a cidade satura tudo em si e ao seu redor mais próximo. Tentam, agora, uma forma de evasão da agitação diária. Eu que ainda sou jovem e não sofro dum mal desses ainda muito grande (penso eu), sinto necessidade de respirar. Assim, o ar puro, que por vezes, posso sentir em Esposende. Perto da praia, da maresia, da brisa fresca... é tudo tão suave e tão bom...
Talvez esteja a divagar demasiado, mas a verdade é que sinto saudades de sentir. Sinto-me anestesiada pela cidade (que até é pequena). Precisava de algum espécie de meditação, descanso, sorriso puros e suaves como quem fica alegre alheadamente...
Todo este discurso... que não sei adjectivar, para apelar à sensibilidade de quem me lê e da minha própria. Nós somos Natureza, mas parece que tentamos rasgar o nosso cordão umbilical, ferindo o que eu considero a origem. Já são tão notáveis os danos que fizemos ao longo de séculos. Os ventos zangam-se, as águas agitam-se, a terra treme, as estações confundem-se... Não sentem? Contudo, nunca é tarde demais para nos preocuparmos e agirmos. Tentemos...

segunda-feira, março 14, 2005

A criança que fui chora na estrada...

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

[A lágrima quase espreitou mal li a primeira quadra. Adoro este poema! Diz-me tanto...]

terça-feira, janeiro 04, 2005

"Nota ao acaso"

"O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história de Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam.

(...)

Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas - tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassilábicos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo."

Álvaro de Campos (1935?)

Citação

"Conheceram-me logo pelo que eu não era e eu não desmenti e perdi-me. Quando quis tirar a máscara estava colada à pele."

Álvaro de Campos

domingo, dezembro 12, 2004

Passagem de um livro

"Há em nós um ser escondido, desconhecido, que fala uma língua estrangeira, e com o qual, mais cedo ou mais tarde, teremos que conversar."

Fraçois Taillandier, in A Minha Melhor Amiga

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Passagem de um livro

"Se não vistes nenhum de nós,
e por isso não existimos,
também não existis vós,
porque também não vos vimos."

Manuel António Pina, in A lha do Chifre de Ouro