sábado, fevereiro 09, 2008

Espera e calor

Início: 05 de Março de 2007


Estavas à porta do nosso café. Sentado no chão com as pernas cruzadas. Esperavas por mim. Soube-o quando me lançaste aquele teu olhar maroto. Sabia que tinhas planos para essa noite. Todos os traços da tua expressão denunciavam uma surpresa iminente.


Desci os degraus do nosso café em direcção a ti com um sorriso colado na cara. Já sabias que eu o sabia e o desejava alegremente. Pegaste-me pela mão, fizeste-me rodar e observaste-me com um olhar guloso. Paraste o meu lanço, seguraste-me a cabeça e beijaste-me. Um longo e húmido beijo envolvido em tanta paixão que provocou olhares curiosos e surpresos nos restantes. Corei. Corei imenso! (Como sempre.) Agarrei-te o braço e obriguei-te a correr para fugirmos dali.


Chegados ao parque de estacionamento, onde estava o meu carro, recuperámos o fôlego e rimos. Soltámos altas gargalhadas feitos loucos. O riso fazia-nos bem. Libertava a tensão. A ansiedade. O nervosismo. A antecipação. Ambos sabíamos o que se seguia. E ambos o desejávamos ardentemente.


Tirei a chave da bolsa e dirigi-me à porta do carro para a abrir, quando tu me enlaçaste a cintura amavelmente e me obrigaste a dar-te as chaves. Prendeste-me contra o carro entre os teus braços e olhaste-me. Profundamente. Contemplaste o meu olhar apaixonado e envergonhado. Olhámo-nos por uns momentos em silêncio. E sorriste. Um sorriso aberto, sincero. Sorri de volta. E beijaste-me. Os teus braços em volta do meu corpo aproximavam-me de ti. O mais possível. Juntos. Muito juntos. Quase desconfortáveis. Amei-te. Desejei-te. Apaixonei-me uma e outra vez. Num só beijo. Nesse beijo. O segundo dessa noite. O mais longo. O menos envergonhado, pois ninguém nos interromperia com o seu olhar inquisidor. Arrepiei-me. Estremeci. E no entanto ardi de calor, de paixão. Desejavas-me. E a tua língua, os teus dentes, os teus lábios evidenciavam esse desejo.


Paraste. Nessa noite tu controlavas, meu rei, meu imperador. Paraste e beijaste-me a testa tão carinhosamente que não contive as lágrimas. A tua ausência fora demais. Um mês de separação. Apenas um mês. Mas um longo e doloroso mês. Faltaste-me. Abandonaste-me. Na pior das alturas.


Chorei. Chorei de saudade. Chorei de tristeza. E chorei ainda mais por saber que a tua ausência foi forçada. Contra a vontade de ambos. Chorei por saber que gostarias de estar presente. Por saber que sofreste porque eu sofri. Chorei por mim e por ti. E tu choraste comigo. Não falámos. Não falámos nem precisámos. As lágrimas, os olhares e o silêncio diziam tudo por nós. Melhor do que quaisquer palavras. E amámo-nos tanto nesse não-dizer que diz tudo.


Pegaste-me pela mão e levaste-me contigo. Não sabia onde me levavas. Como sempre, surpreendias-me e eu adorava. Adorava-te. Caminhámos. Caminhámos bastante e eu senti que era exactamente aquilo que eu precisava. (Precisávamos?) O ar fresco da noite lavava-me a cara. A nossa cara. Refrescava-me. Invadia-me uma sensação de leveza. O poder de qualquer brisa da noite. Elevava-me. Tudo nessa caminhada fascinava. O som das folhas secas debaixo dos nossos pés. O uivo dos cães nas varandas ou nos terraços dos muitos prédios da cidade. As vozes altas e a alegria de um grupo de amigos que passeava do outro lado da rua. O barulho do camião do lixo que recolhia as sacas colocadas à porta das casas. Tudo era belo porque tudo se passava nessa noite. Nesse noite em que te revi. Em que matei saudades. Em que te amei tanto, meu amor.


Parámos em frente ao teu prédio. Silêncio. Olhares e sorrisos cúmplices. Entrámos. Degrau após degrau, subimos devagar os lanços de escadas que nos separavam da tua casa. A euforia em nós dera lugar à calma. Já esperávamos tão pacientemente por este momento que era agradável prolongá-lo o máximo possível. Abriste a porta, não acendeste a luz e fomos directos ao teu quarto. Lá, ligaste o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Não precisaríamos de muita luz, apesar da ausência ainda nos sabíamos de cor. Correste apenas os cortinados para que passasse alguma da luz da noite.


Eu já estava sentada na tua cama, descalça, sem casaco. Tu estavas de pé a olhar para mim. Tiraste a camisola, descalçaste-te e ajoelhaste-te, sentado, na cama em frente a mim. Puxaste o meu cabelo para trás dos ombros e das orelhas e observaste-me com aquele olhar meigo que é tão teu. Tornaste a puxar o cabelo todo para frente do meu corpo e, delicadamente, tiraste-me a camisola. O meu cabelo tapava os seios desprotegidos. Assim não estás nua, dizias tu muito baixo, quase de forma imperceptível. Estendi as minhas pernas para ti e tu despiste-me a saia muito lentamente, observando cada centímetro de pele. Esticaste-te e obedeci à tua ordem muda: desabotoei-te as calças, e tu desfizeste-te delas. Restava a pouca roupa interior nos nossos corpos, tu de boxers, eu de tanga. O meu cabelo solto sobre o corpo. O teu selvagem, no ar. Passaste as tuas mãos pelas curvas do meu corpo, acariciaste a minha pele, o meu cabelo, e deitaste-me, deitámo-nos, suavemente na cama, no teu edredão fofo.


Deitado sobre entre as minhas pernas tacteavas o meu corpo com a boca. Beijaste-me as mãos. As dobras dos braços. Os ombros. O pescoço. Beijaste-me docemente as pálpebras dos olhos. O nariz. O queixo. E enfim os teus lábios encontraram os meus e beijámo-nos. Beijámo-nos sofregamente como se nos quiséssemos possuir, como se aquele beijo contesse todas as palavras, todas as ideias, todas as emoções, como se partilhássemos entre nós toda a energia que nos molda. E de novo os teus beijos abraçaram o meu pescoço que se estendia em prazer e eis que a tua boca descobriu os meus seios. Desceste com a língua até ao umbigo e daí até ao íntimo do êxtase.

Inacabado.


[Não consigo. Tentei várias vezes. A parte que mais desejo saber descrever... e não consigo. E já não gosto como comecei. Quem quiser pode dar-lhe uma continuação.]

sábado, fevereiro 02, 2008

Alma de Pássaro

"E o homem certo para ti, se é que isso existe (...), é aquele para quem tu também fores a pessoa certa."

Margarida Rebelo Pinto

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

No perfect woman

Sei-o. Não quero ser a tua mulher perfeita. Não quero ser a tal. Porque não há pessoas ideais, há ideias de pessoas. E eu sou eu própria e não uma ideia tua. Não controlas o meu ser e por isso eu posso ser imprevisível. E não, não quero ser a tua ilusão porque não quero ser uma desilusão.

24 de Novembro de 2007

quinta-feira, janeiro 31, 2008

One night she said

Eu sei que não me mereces, mas eu quero ser tua. Quero que me possuas. Que enchas o meu corpo das tuas mãos. Que me enchas os ouvidos com doce e me deixes no olhar essa meiguice toda.
Deixa-me ser tua. Deixa-me gostar de ti como quero. Mas não me faças chorar. Estou tão cansada de estar triste. (...)
Que saudades, meu... nada meu. Tuas. Que saudades de ti. (...)
Preciso da emoção do teu abraço. Encontra-te comigo. Encontra-te em mim.
Não mais te quero esquecer.
Adoro-te.

C.



[Cheira-me que este blogue terá (já está a ter) um rumo que nunca teve. Nunca tive intenção de escrever textos com este teor e muito menos de os publicar num blogue. Julgava demasiado banal e nada a ver comigo. Porém, o que me apetece escrever é isto. Histórias, personagens, emoções. Apetece-me inventar o mundo em palavras doces e amargas sobre um tema banal, algo comum de todos os dias e de todas as pessoas. Apetece-me narrar e estou a gostar.]

terça-feira, janeiro 29, 2008

Next!

Acabei de ler "Um Beijo da Alma" de Shay Youngblood. Comecei a lê-lo relativamente há pouco tempo. E tendo em conta que tenho encostado os últimos livros que tentei ler quando chego ao terceiro capítulo, fiquei extasiada por ter conseguido ler um livro inteiro e em tão pouco tempo (não sei quanto mas para o que é costume fico orgulhosa).
Não vos vou falar do livro que li se é com isso que contam. O que eu quero dizer é que com tal entusiasmo penso ter começado a recuperar o meu ritmo de leitura. O meu... o que penso ser o meu ritmo que quando era criança é que lia bastante, depois não sei o que se passou nesta minha jornada que deixei ficar os livros nas prateleiras.
Não quero criar expectativas. Da última vez que julguei ter apanhado esse ritmo tão desejado vi a minha lista de livros por ler ficar igual com o passar dos meses. Assim, vou lendo enquanto ler for a minha vontade.



Caminho a passo acelerado, como sempre, da cozinha para a sala em direcção ao meu quarto. Detenho-me antes do corredor e vou antes à biblioteca cá de casa. Acendo umas quantas luzes para uma boa visibilidade, sento-me no chão e procuro um novo livro. Outro conjunto de folhas envolto numa capa que me permita continuar o meu ritmo, que me cative os sentidos num mundo que não é o meu e o é ao mesmo tempo. Continuo envolta naquela sensação tão boa que é a de vir deliciada de um mundo de palavras de outra pessoa que é tão nosso. E por isso sinto-me tão determinada e motivada a começar a descobrir novas personagens, novos mundos, novas palavras.
Começo por ler os títulos das lombadas. Aqueles que prendem a atenção são retirados das prateleiras e guardados, por momentos, na minha mão. Continuo a ler algumas lombadas e decido-me a ler o resumo do que já escolhi. Um romance policial. O título, curiosamente, o nick de alguém que pensei conhecer. Parece-me bem. Nunca satisfeita com uma primeira escolha sem saber o que mais pode haver, continuo a descobrir mais alguns. Margarida Rebelo Pinto. Autora muito falada. Autora que muito publica. "Nunca li nada dela". Ainda com "Postmortem" de Patricia D. Cornwell na mão, retiro do seu aconchego "Não Há Coincidências". O resumo parece-me interessante. Guardo o outro. Pego em mais um com o segundo a substituir o lugar do primeiro na minha mão. "Sei lá". O resumo não me cativa tanto, pelo menos naquele momento. Há mais um que não peguei porque não gostei do título, mas é o único que resta dela, e já agora. "Alma de Pássaro". Nas costas uma imagem do rosto da autora preenche todo o espaço. O resumo está numa dobra da parte da frente da capa.

Apaixono-me pelas poucas palavras que o resumo deixa revelar do livro. Há tanto ali que quero saber. Há tanta coisa que me bate na pele, nos olhos, no coração. Há uma certeza de aquele livro tem de ser lido agora, nesta altura.
É que há coisas que aparecem no momento certo. Um olhar mais atento e somos capazes de as identificar. E eu pisco-vos o olho e deixo as palavras que me cativaram.

"Acordo todas as manhãs com este zumbido e a certeza de que não vais voltar. Cansada de me convencer que, apesar e acima do teu individualismo, estava a tal inevitabilidade a que nos submetemos e chamamos amor, pensei que, com todo o amor que sentia por ti, te iria suavizar e de alguma forma fazer parte do teu equilíbrio, tornando-me subtilmente indispensável. Helàs.
Nunca pensei enganar-me tanto. Mas só agora percebo que o teu amor por mim não foi uma inevitabilidade, mas uma escolha. Alguém que te chamou a atenção e que, um dia, decidiste que querias atravessar, com a intuição certeira de um animal selvagem que procura refúgio temporário, quando está cansado. Sei que não vinhas a fugir de nada, nem à procura de coisa nenhuma. Mas acho que, quando eras pequeno, te arrancaram uma parte de ti, e desde então ficaste incompleto e perdeste, quem sabe talvez para sempre, a capacidade de adormecer nos braços de alguém sem que penses no perigo de ficar na armadilha do carinho para todo o sempre."



sexta-feira, dezembro 07, 2007

Devaneios Narrativos

Preciso sentir a tua presença esvair-se de mim para ser capaz de lhe dar valor. É como a vida, não é, meu amor? Preciso que não sejas garantido, nem constantemente presente, nem sempre certo. Preciso exactamente daquela quantidade de ti. A quantidade certa que não me intoxica até à morte e que não te eleva até ao esquecimento. Preciso de ti na medida certa. E para que eu perceba qual a medida certa, preciso sentir-te ao longe. Preciso sentir que preciso de ti. Que me fazes falta. Para saber o valor da tua presença, preciso conhecer a tua ausência. E precisamos oscilar entre isso para que isto não morra, meu amor. Precisamos equilibrar as nossas mãos em razão e emoção, no ponto certo, naquele ponto que nos permita ficar dentro um do outro todos os minutos, mesmo naqueles em que julgamos não estar lá. Milímetro a milímetro, precisamos de nós. Eu preciso do teu eu que é meu e tu precisas de mim exactamente da maneira que necessitas. E para que sejamos para o outro o nosso alimento, precisamos sentir a fome e só assim, meu amor, voltarei a ti e tu a mim.

16 Nov. 07

sábado, dezembro 01, 2007

My Favourite Game



I don't know what you're looking for
you haven't found it baby, that's for sure
You rip me up, you spread me all around
in the dust of the deed of time

And this is not a case of lust, you see
it's not a matter of you versus me
It's fine the way you want me on your own
but in the end it's always me alone

And I'm losing my favourite game
you're losing your mind again
I'm losing my baby
losing my favourite game

I only know what I've been working for
another you so I could love you more
I really thought that I could take you there
but my experiment is not getting us anywhere

I had a vision I could turn you right
a stupid mission and a lethal fight
I should have seen it when my hope was new
my heart is black and my body is blue

And I'm losing my favourite game
you're losing your mind again
I'm losing my favourite game
you're losing your mind again
I'm losing my baby
losing my favourite game

I'm losing my favourite game
you're losing your mind again
I tried, I tried, (but you're still the same) I tried
I'm losing my baby
you're losing a saviour and a saint

The Cardigans

sábado, novembro 03, 2007

És o meu local errado


É como se estivesse agrafada a ti. Tu não sentes os agrafos, mas em mim eles doem que se fartam. Cada movimento teu para longe de mim rasga-me a pele. E tu não sabes que me desfaço.
Se páras a minha pele cicatriza. Se continuas nesses teus movimentos, a dor em mim é tão grande que deixo de sentir. Acomodo-me à dor, ela deixa de ser e eu julgo já não estar agrafada. Depois tu voltas a parar, e quando retomas esse teu rumo movimentado a minha pele cicatrizada rasga uma vez mais.
O meu desejo é ter os agrafos enferrujados, é tê-los demasiado velhos para se prenderem e a pele demasiado fraca para poder ser presa. É abandonar-me e esperar que rasgues a minha pele de uma só vez. Que eu ao teu lado não sou. Que eu ao teu lado não consigo. Preciso que dês todos os passos para longe de mim. Onde não te cheire, onde não te lembre. Porque tu és o meu local errado.


[imagem: SweetSerenity]

sábado, outubro 27, 2007

Afecto

Era quase meia-noite e o dia estava para acabar. Já deixaria de ser o meu dia. Aquele dia a que todos dão especial importância e o qual, na realidade, pouco siginificado tem. No entanto, havia ainda uma prenda por oferecer. Uma prenda prometida, ainda não cumprida.

Chamei-o. Larguei as folhas que tinha comigo e corri para a casa-de-banho para me preparar. Fiz questão de me vestir de forma provocadora. Usei o vestido que lá ficou da última vez e as meias que ele me ofereceu. Esperava agora pela sua chegada, entre pequenas corridas do quarto para o armário e para a casa-de-banho. A única luz que existia vinha do meu quarto e todo o resto da casa estava mergulhado na penumbra. Não havia preparação. Apenas um corpo quente e um desejo aceso.

A campainha tocou e a voz grave dele no intercomunicador aproximou o momento e aumentou a ansiedade. Subiu e precisou bater à porta porque, ainda na correria, esquecera-me de lha abrir. Rodei a maçaneta e, lentamente e escondendo o corpo atrás da porta, permiti-lhe a entrada. Olhei-o com o sorriso tímido de quem não se encontra totalmente confortável. Olhou-me com o sorriso confiante e satisfeito de quem gosta do que vê, e beijou-me. Prendeu-me em beijos, os dois encostados à porta fechada. Sem palavras, no silêncio da saliva que se partilha entre duas bocas que se desejam.

Não sei quanto tempo passou até ele me puxar pela mão até ao quarto. Entrámos. Eu junto à cama, ele fechando a porta atrás de si. Caí no erro de falar, mas rápido a boca dele abraçou a minha e os nossos corpos caíram na cama. Dois corpos que se queriam ainda antes de se encontrarem. Dois corpos que aos poucos se tocavam, despiam, acariciavam, num êxtase crescente que concretiza a paixão da carne. Esse momento, que eram muitos momentos, criou-se num silêncio que estremecia. No silêncio dos murmúrios, dos olhos fechados, dos corpos quebrados em prazer. Os momentos sofriam metamorfose. Os movimentos amadureciam. Os movimentos de luxúria e os movimentos de carinho. O carinho que passeava na pele, nos sussurros, no abraço dos olhares, de lábios em lábios.

Uma noite. Uma prenda. Poderia ser oferecida em qualquer dia, por qualquer motivo, sem motivo, com o único objectivo de deleitar dois seres que desejam, procuram, satisfazem. Dois seres de paixões. Dois seres de caprichos. E depois, o suor e o odor que desaparecem. E depois, a lembrança que fica. Uma noite que toca onde poucas vezes se sente.

finalizado a 27 de Outbro de 2007

sexta-feira, setembro 28, 2007

Não muito distante

Eu queria mais alegria,
isso é que eu queria,
alegria a correr todo o ano
era só isso que eu queria, mais alegria,
mas não foi, não foi bem, o meu caso

É que eu também já sabia,
eu já sabia,
já sabia qual era o engano
é que eu não tive o que eu queria, quando podia,
e depois, mais alguém, nunca mais

Disse-me um dia, não muito distante
Volta num dia, não muito distante
Quem sentiu o que eu sentia, quando partia,
e partia levando o encanto

Fica a saber que eu choro, por tanta alegria
como eu sei, sei tão bem, e não tive
Disse-me um dia, não muito distante
Volta num dia, não muito distante
e eu disse um dia, não muito distante
Disse-lhe um dia, não muito distante

Madredeus


segunda-feira, setembro 17, 2007

Conclusões tão conclusivas

E ela disse:
- Uma merda, portanto. E a merda só serve para adubar. Tal como as cinzas. Faça-se de mim cinzas, então, para que eu tenha um papel a desempenhar no mundo.

sábado, setembro 15, 2007

Atracção

Foi a sair da sala, pela manhã, que ela te viu pela primeira vez nesse dia. Não o queria admitir, mas sentiu saudades da tua figura no fim-de-semana.
E ali estavas tu, sozinho, encostado à parede a olhar em redor alheadamente para todos os que passavam. O coração dela disparou ao ver-te e sentiu o rubor crescer nas suas faces. Disfarçava, porém. Ou tentava disfarçar. O calor que crescia no seu corpo e a ansiedade que turvava o pensamento eram difíceis de disfarçar.
Passou por ti e tentou exprimir um “olá” imparcial, vulgar. Mas os teus olhos grandes e expressivos a olharem para ela confundiram-na e o seu calor corporal, quase vergonhoso, intensificou-se ainda mais. A tua presença perturbava-a. Ela sabia-o e era impossível negá-lo.
Continuou o seu percurso e fingiu não te ver mais. Afinal, iria estar ocupada. A aula que se seguiria, pouco tardava a começar. Além do mais, estavam imensas pessoas no corredor e ela não se ia entregar à triste figura de furar os espaços livres com o olhar só para te avistar. Contudo, em alguns momentos, não resistia e saciava a sua sede de te observar. Mas rápido desviava o olhar e distraia-se a conversar com outras pessoas.

Esta atracção irresistível por ti tornava-se insuportável. Não queria sentir esta força incontrolável, mas não conseguia resistir-lhe, guiada pelo desejo de te ter, ainda que com o olhar, apenas.

09.10.06

quarta-feira, setembro 12, 2007

Livre do passado

- Aprende-se a esquecer?
- Não se trata de esquecer. O que importa é aprender a lembrar e, ao mesmo tempo, estar livre do passado. É importante aprender a forma de estar ali, com o morto, e ao mesmo tempo estar aqui, neste lugar, com os vivos.
Lançou-lhe um sorrisinho triste e acrescentou:
- Não é fácil.

Aldous Huxley, in A Ilha

terça-feira, setembro 11, 2007

Only

I'm becoming less defined as days go by
Fading away
Well you might say
I'm losing focus
Kind drifting into the abstract in terms of how I see myself

Sometimes I think I can see right through myself
Sometimes I think I can see right through myself
Sometimes I think I can see right through myself

Less concerned about fitting into the world
Your world that is
Because it doesn't really matter
(no it doesn't really matter anymore)
None of this really matters anymore

Yes I'm alone but then again I always was
As far back as I can tell
I think maybe it's because
you never were really real to begin with
I just made you up to hurt myself
And it worked.
Yes it did!

[Chorus]
There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me

Only, Only, Only

The tiniest little dot caught my eye
and it turned out to be scab and I had this funny feeling
Like I just knew it was something bad
I just couldn't leave it alone, picking at that scab
Was a doorway trying to seal itself shut
But I climbed through

Now I am somewhere I am not supposed to be,
and I can see things I knew I really Shouldn't see
And now I know why (yea now I know why)
Things aren't as pretty
On the inside

Nine Inch Nails

segunda-feira, setembro 10, 2007

sábado, setembro 08, 2007

sexta-feira, setembro 07, 2007

Heart's Dialogues

She: The more I learn to care for you the more we drift apart. Why can't I free your doubtful mind and melt your cold cold heart?

He: Don't you cry when we're through. I got a cold cold heart, I do.

She: You look so fine, I want to break your heart and give you mine. You're taking me over.

He: Growing hold, faking new, something borrowed and then again something blue. My cold heart can't go wrong and it gets me around in bounds along.

She: It's so insane! You've got me tethered and chained. I hear your name and I'm falling over.

He: Can't define what is love. Should I then pray out to the one above?

She: You come on like a drug, I just can't get enough. I'm like an addict coming at you for a little more and there's so much at stake, I can't afford to waste.

He: I don't have that stuff you need, but I can get down on my knees. I'll ease your pain, your appetite, for today it's ok, it's alright. It's alright as long as I don't have to stay, my cold heart can't take it any other way.

She: I don't care. I want you to stay and hold me and tell me you'll be here to love me today.

He: "Long before I knew you there was someone who cared that warned my heart and made it part so high above the land."

She: A memory from your lonesome past keeps us so far apart. Why can't I free your doubtful mind and melt your cold cold heart?

He: Out of luck, knock on wood and I just left you because I could. My cold heart, who could tell? That all this silence would burn and turn to hell.

She: I used to adore you, I couldn't control you. There was nothing I wouldn't do to keep myself around and close to you.

He: I know what you're going through. I feel like I already know you. Why don't you come here near the light? It's ok. It's ok. It's ok. It's ok. It's alright.

She: You hold my hand, but do you really need me?

He: I don't have that stuff you need.

She: I'm just sitting here waiting for you to come on home and turn me on.

He: But I can get down on my knees. I'll ease your pain, your appetite, for today it's ok, it's alright.

She: Bend me, break me, any way you need me. All I want is you. Bend me, break me, breaking down is easy. All I want is you.

He: It's alright as long as I don't have to stay. My cold heart can't take it any other way.

She: Please me, tease me, go ahead and leave me.

He: It's alright as long as ice can't turn to stone, I won't be alone.

She:
That sinking feeling when you are leaving, all I believe in walks out my door.


He: Don't you cry when we're through, I've got this cold heart because, because I do.

She: Do what you want to do, just pretend happy end. Let me know, let it show. Ending with letting go, let's pretend happy end.



[As letras de "He" são da música Cold Heart de David Fonseca e as de "She" são das músicas Cold Cold Heart, Be Here To Love Me, Thinking About You e Turn Me On de Norah Jones e das músicas Temptation Waits, Special, I Think I'm Paranoid, Wicked Ways e You Look So Fine de Garbage.]

terça-feira, setembro 04, 2007

Wondering

I try.
Do I?
Probably not.
But I want to!
Really?
I'm not sure.

"I just can't lay down and die"

segunda-feira, setembro 03, 2007

Não há regras no sexo

No sexo não há regras. A educação não nos ensina o sexo. O sexo não pode ser ensinado. Não nos dizem quais as posições, os actos e as expressões proibidas no sexo. Não nos é dito como nos devemos comportar no sexo. E por isso no sexo as pessoas revelam-se.
Perde-se o constrangimento, a vergonha, ganha-se a coragem, a ousadia. No sexo somos outros e permitimos a expressão do nosso ser primitivo. O animal que é em nós revela-se, na excitação, nos movimentos, no transpirar, nos gemidos,... Um outro em nós. Um outro de nós. Nós. Somos na cama os selvagens que não conseguimos ser na rua. E por isso mesmo o prazer é tanto. E por isso o sexo é libertação.

5 de Julho de 2007

domingo, setembro 02, 2007

Pormenores

Quando nos habituamos ao torpor da melancolia conseguimos distinguir os diferentes graus em que ela surge, e só esse conhecimento é suficiente para esboçar um sorriso. Há uma relação muito próxima entre mim e a minha melancolia, por isso alegro-me quando a sei reconhecer. A minha melancolia é fiel. Sei que posso sempre contar com ela, mesmo quando parece não estar presente.

terça-feira, agosto 28, 2007

Ignorância como sobrevivência

A ignorância é necessária à mente humana. Por isso existem mistérios e segredos e milagres e síndromes e fenómenos sobrenaturais.

Acredito no conhecimento e acredito na procura do conhecimento, mas aceito o zeitgeist, que há momentos para a descoberta. A sabedoria nasce de uma dança harmoniosa entre o conhecimento e o crescimento, por isso aceito que a ignorância é um patamar que nos permite o acesso a novos degraus sem tropeçarmos.
O não saber é um porto seguro e todos nós precisamos de um. A ignorância é sobrevivência porque sem ela não haveriam calmarias nas tempestades dos nossos mundos.

Hoje compreendo o poder da ignorância e sei que esse conhecimento foi acedido porque cresci. E continuo a crescer...

sexta-feira, agosto 24, 2007

Exercício dos 5 minutos

Eram exactamente 1h11 quando ela pegou na faca da cozinha e a fez deslizar por embos os pulsos. Não queria que tivesse sido assim, mas não havia outra forma e ela não aguentaria esperar mais um dia. Pelo menos acertava na hora e isso era ainda mais importante do que o modo como o fazia. Toda a sua vida tivera um qualquer pressentimento relativamente àquela hora e esta noite dava-lhe finalmente um significado.
Não sabia se olhava para o sangue escorrer ou se simplesmente encarava a parede da casa-de-banho até... até não ser preciso preocupar-se com isso ou qualquer outra coisa.

17 de Agosto de 2007

sábado, agosto 18, 2007

Shirley Manson







Fuck, "when I grow up" I want to be like her.

"Shirley Manson is what we call, hardcore. Everything she does, from her songs and her lyrics to her life has her 100% effort and attention." (AskMen.com )

sexta-feira, agosto 17, 2007

Exercício das Palavras I

Palavras:
  • café
  • baunilha
  • lençóis
  • ballet
9h da manhã. Lara esperava apoiada ao balcão que o café se aprontasse na cafeteira eléctrica e o sol, na sua pujança matinal, invadia a cozinha fazendo-a brilhar em todos os seus pormenores. Os bilhetinhos do pequeno Tomé eram uma vez mais passados por debaixo da porta e Lara perguntava-se como poderiam parecer tão sinceras as juras de amor de um miúdo de apenas 8 anos.
Do quarto chegavam os roncos de um desconhecido encontrado na noite anterior. Ela mirava os seus pés descalços semi-encobertos pelo lençol e preocupava-se em não chegar atrasada à aula de ballet. Num impulso dirigiu-se ao quarto, abriu os estores acordando o jovem mais pelo barulho do que pela luz que lhe lavava a cara directamente.
Rapidamente se sentou e a fixou. Lara com frases curtas, mas um sorriso dócil informou-o de que tinha de ir embora. Voltou à cozinha, levou-lhe uma caneca de café e insistiu na urgência por causa da sua aula. Enquanto ele apanhava as roupas do chão e se vestia, ela desfazia a cama e continha a expressão de nojo que o perfume de baunilha dele lhe causava. O cheiro impregnava os lençóis e por isso apressou-se em enfiá-los na máquina de lavar. Ele não acabara o café, mas já estava vestido, então indicou-lhe a saída, acompanhando-o à porta e despedindo-se com dois beijos inocentes.
- Posso voltar a estar contigo?
- Hã... como era mesmo o teu nome?
- Ricardo.
- Ok, Ricardo. Gostei muito da noite, mas precisas mesmo de ir.
De novo o sorriso e a porta fechou-se. Era tempo de se aprontar para mais um dia.

domingo, agosto 12, 2007

Simbiose

Todo um misto de euforia, prazer e desejo que acaba lenta e calmamente em mais uma conversa que se prolonga nas horas, num longo momento de troca de pensamentos que nos transportam ao transcendente do comum, ao império da racionalidade, da compreensão, da consciência. E é por esse processo de libertação que se anseia, por esse momento de exploração do ser.

21 de Maio de 2007

terça-feira, agosto 07, 2007

Livro do Desassossego

"A única atitude digna de um homem superior é o persisitir tenaz de uma actividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico e metafísico cuja importância se sente ser nula."

Bernardo Soares

domingo, agosto 05, 2007

Conclusões III

(...) Quero deixar de pensar no leitor. Há muito que deixei de escrever para mim. E isso magoa. Quero que volte a ser como antes. Mesmo que não goste de ler as minhas palavras depois. Pelo menos sentir-me-ei bem em escrevê-las. (...)
03.04.07

(...) Agora sei que escrevo com o intuito de ser lida. (...) E estou, actualmente, impedida de escrever como o fazia quando ainda não tinha (tanta) consciência do desejo de ser lida nem a vaidade se tinha apoderado de mim. (...)
05.07.06

Há coisas que não são para ler, são apenas para escrever.
20.07.07

sexta-feira, agosto 03, 2007

Descontração

Enquanto mergulhava os pés na piscina, uma andorinha sobrevoava a água em voos rápidos como se desafiasse algo ou alguém. O sol brilhava lá no alto do céu e Norah Jones fazia-se ouvir na aparelhagem atrás de mim. O dia estava magnífico e eu ansiava por um bloco e uma caneta para o poder descrever. Mas não me apetecia pensar demasiado. O meu verdadeiro desejo consistia em apreciar o momento. Fechar os olhos, lançar a face ao céu, agitar as pernas na água fresca e respirar.
Inspiro, expiro… inspiro, expiro… até sentir cada centímetro de pele no meu corpo, inspiro, expiro… até ser sensível ao som do passeio das formigas na relva, inspiro, expiro… até transcender não sei bem o quê. Simplesmente ser e sentir, na borda daquela piscina, com aquela andorinha a sobrevoar os meus pensamentos e Norah Jones para os embalar.

quarta-feira, julho 25, 2007

Horas (de pânico) antes

Nunca julguei que pudesse sentir verdadeiramente a sensação de um pesadelo na "vida real", principalmente quando se sonhou o pesadelo.


EDIT: post escusado. Se bem que haveria muito a dizer sobre este tema. Dadas as circunstâncias não o abordarei. Pelo menos para breve. (03.08.07)

quarta-feira, julho 18, 2007

Um sonho

Há uma semana não o via. Ele estava para fora e eu não sabia exactamente quando o tornaria a ver. Simplesmente esperava que ele chegasse de viagem e quisesse saber de mim e estar comigo.
Apenas uma semana se havia passado e a mim parecia-me muito mais. Até aquela altura nunca tinha estado mais que dois, três dias longe da sua presença. E custava-me tanto não poder estar com ele. Desde o início daquela época, essa semana foi a pior que passei naquele lugar. Ele fazia-me falta e só me apercebi do quanto naquela semana.

Ele voltou. Era noite e estávamos no café, como de costume. Era Verão e a janela atrás da nossa mesa estava aberta. Senti que a noite estava diferente. Não sabia porquê, mas o ar que inspirava alegrava-me e essa alegria despertava as borboletas da barriga. Estávamos à porta, a sair do café, quando o vi lá fora, muito quieto a olhar para mim. Parei a olhá-lo também. Ele estava diferente. O seu olhar e a sua postura evidenciavam decisão, como se estivesse prestes a revelar algo. Os outros passaram, cumprimentaram-no e foram embora. A Soraia, porém, demorou-se um pouco mais e ficou à conversa com ele.
Sentámo-nos os três nas escadas da entrada do café. Relaxado, ele contava maravilhas sobre a sua viagem, de como tinha adorado e de como ainda estava fascinado. Eu olhava-o atenta e sorria quando ele me olhava. Algum tempo depois também a Soraia se despediu e restámos nós, sentados lado a lado. Ele olhava-me com uma alegria imensa e o meu coração palpitava tanto que só ouvia o seu bater e nada mais. Até que ele tocou uma madeixa do meu cabelo e me disse o que há tanto queria ouvir. Perguntei-lhe por ela, mas ele apenas fez sinal com a cabeça e eu percebi que ela agora estava no passado. Acariciou-me a face e gentilmente abraçou os meus lábios com os dele numa meiguice intensa, e eu rendi-me. Esqueci os problemas e as mágoas do passado e concentrei-me no presente. Levantámo-nos, demos as mãos e caminhámos em direcção ao centro. Entretanto amanhecera e o chilrear dos pássaros embalava o nosso caminhar. Olhei-o uma vez mais antes de enlaçar a sua cintura e proteger-me no seu braço. Nunca antes eu me lembrara de me sentir tão bem. Era feliz no seu abraço e nada mais importava. Encontrara o meu conforto. O meu sorriso. Passámos o centro e ele levou-me para a sua casa.

12 de Abril de 2007

domingo, julho 08, 2007

Sobre Relacionamentos

"Se o nosso entendimento se basear apenas na razão, surge o isolamento, o orgulho e a falta de amor, e se basearmos o nosso entendimento meramente na emoção, então ele não terá profundidade; haverá apenas um sentimentalismo que logo evapora, sem nada de amor."

Krishnamurti

sábado, junho 09, 2007

Pranto demente

O som da aparelhagem entorpece os sentidos. Não ouço nada mais senão a música em mim. Os carros lá em baixo transitam em mudez e as pessoas só movem os lábios. A brisa que é suave, a pele sente. As unhas nos braços, nem as sei. Há uma sensibilidade desconforme em mim. O céu exige o meu voo, a varanda empurra-me, o corrimão segura-me. Não estou em mim. Mas existe um mergulho que me afoga. E não vejo a superfície, os meus olhos cerram quando olho para cima. O que é profundo agarra os meus tornozelos e há uma força que me atrai e uma fraqueza que leva o meu olhar para o fundo. Desço. Em mim e por mim permito-me escorregar. Despida e descalça palmilho o pensamento. Espeto os pés nos vidros estilhaçados e firo a carne nos espinhos que se projectam das paredes da memória. Há sangue e as batidas aceleradas do coração. Há lágrimas desamparadas que nascem ininterruptamente. E surge, de novo, a vontade de ferir, de me ferir, de marcar, de fazer história no meu corpo. Porque há necessidade de perpetuar o momento. Há necessidade de relembrar que o pranto existe e apavora e me guia em pensamentos débeis. E o mais sério é o prazer que retiro desse estilhaçar do ser.

domingo, maio 27, 2007

domingo, maio 20, 2007

What's the point?...

E se eu amanhã cortasse o cabelo, pintasse as unhas e usasse saltos altos? E se eu adoptasse outro nome, falasse com sotaque e tivesse outro porta-moedas? Mudava alguma coisa? Seria eu diferente daqui a dois, três, seis meses porque o meu invólucro se modificou? Em que é que isso me ajudaria? A mim!... ao que interessa, portanto.


...

domingo, maio 06, 2007

Conforto de um abraço

Preciso largar-me nos braços de um abraço. Preciso entregar-me indefinidamente nuns braços que me abracem com força e carinho. Preciso tanto desse carinho que um esmagar do corpo oferece. Preciso desfalecer e perder-me nos braços de um abraço, sem pensar no seu fim. Preciso de um abraço só para mim. Dado, oferecido, entregue... Um abraço sem resposta, um abraço sem pedidos, um abraço simples e forte, um abraço apenas. Porque em mim há um vazio e uma dor que imploram pelo conforto de um abraço que me proteja e me afaste de mim.

...because I "can´t get away from the burning inside"...

sábado, abril 21, 2007

(cont.)

Alguma vez sentem que os vossos títulos são melhores que os vossos textos? Hoje pensei que ia escrever um texto, começando pelo título pela primeira vez. Não consegui. O pensamento fugiu para outro tema. E há necessidade em controlá-lo, contudo há também uma força gritante para o deixar fluir.



Necessidade de encontrar um tema que me faça escrever, escrever, escrever...

Não ser, sendo

São os meus dentes. E a minha vontade de morder. Não me apaziguam. Revelam o que eu quero esconder e por isso me envergonho quando não resisto. Envergonho-me porque não quero ser quem afinal sou por julgar que os outros vão desgostar e julgar despropositado ou até mesmo incoerente.
Nos meus dentes está depositada grande parte da minha raiva e por isso mordo, com toda a força, com toda a convicção, com toda a mágoa e desejo. Gosto quando os dentes espetam a carne e ferem e sabem ferir. Sabe-lhes bem e eu não os controlo, por isso tenho a boca e os lábios cortados, marco os dedos, as mãos e os braços e doem-me os maxilares.
Existe tensão, existem conversas inexistentes, existe mágoa, existe uma mente saturada e um coração ignorado. Existe necessidade de explosão. Mas não expludo, então ranjo, mordo e sorrio.

[Incompleto?]

domingo, abril 08, 2007

Sem título

Já não sou a menina que há poucos anos era. A capa que me cobre é mais espessa e pesada e por isso já não danço tanto. Agora tenho vergonha, agora já não quero ser o meu interior porque ele está lá em baixo e é difícil chegar-lhe. Então não danço e, por isso, não sou tão bela como outrora.
Já não sou a menina que escrevia com o coração, a menina que não tinha medo de usar as palavras, a menina que não tinha medo pintar os textos de emoções. Já não sou leve, nem espontânea. Agora escolho as palavras tão zelosamente que magoa a cabeça e aperta ainda mais o coração. Hoje já não escrevo, passeio no dicionário. Hoje já não escrevo, contemplo a folha. Hoje já não escrevo, adormeço com os olhos molhados.
Tanto lutei para escrever de cabeça que barrei passagem à fonte de toda a escrita. Tanto quis escrever "bonito" que perdi por completo a noção do que isso era. Tanto quis ser escritora que acabei por ter as folhas em branco e a caneta a transbordar de tinta. E dói. Mutilei-me na ânsia de me melhorar. Amputei o que era necessário por julgar dispensável e até incomodativo. E agora encontro-me nesta posição de querer fazer e já não saber como.

"Ele tinha muita razão quando disse: 'Podias ser mais criativa se não ligasses tanto aos outros. Precisas de reescrever uma frase 1001 vezes.' E por isso o meu processo de escrita centra-se mais num passo do que nos outros: paragem."

quinta-feira, abril 05, 2007

Desafio do 7 (recebido de Hasta Siempre... por ti!)

7 coisas que faço bem
  • dormir: predilecção da minha vida;
  • acordar com sono: desde que me lembro, por muito ou pouco que durma tanto faz que a vontade de pôr a pé é sempre mínima;
  • escrever sms: quem sempre teve o tarifário Pako aprende a dizer tudo o que quer em 160 caracteres de forma perceptível (não se entenda que é uma coisa que eu faço muito porque não é verdade);
  • ver televisão: consigo ficar uma tarde inteira a devorar séries e filmes sem me aperceber que entretanto o mundo lá fora se transforma (dia passa a noite e assim);
  • esquecer: de todo o tipo de tarefas (importantes ou mesquinhas) e objectos;
  • deixar as coisas a meio: em praticamente tudo! (o que diz no meu signo? está errado!);
  • guardar talões: desde que entrei na Universidade guardo os talões de absolutamente tudo! (vá-se lá saber porquê).
7 coisas que não faço ou não sei fazer
  • andar de patins: não tenho nem nunca tive e só andei uma ou duas vezes, gostei, mas não eram meus;
  • atirar lixo para o chão: que porcalhice! (olho com desdém e estupefacção quem o faz);
  • matar insectos: não consigo, não tenho coragem e faz-me impressão, e quando, eventualmente, o faço é só em caso muito extremo ou sem querer;
  • acender a lareira: eu juro que já tentei, mas aquilo apaga-se sempre;
  • pôr a roupa a lavar na máquina: o mais difícil é separar a roupa branca da de côr (parece fácil, mas não é!), já o fiz algumas vezes, mas penso sempre que estou a fazê-lo da maneira errada;
  • desligar-me dos pormenores: sublinhar textos, fazer resumos, sintetizar qualquer conversa ou história, etc. é difícil porque me custa omitir os pormenores;
  • representar: dor da minha vida, adoro, mas há que ser realista (talvez no futuro).
7 coisas que me atraem no sexo oposto
  • Olhos: grandes, não interessa a côr, de pestanas compridas, expressivos, observadores, atentos, com um misto de meiguice e confiança;
  • Sorriso: aberto, alegre, simpático, sincero (um bom sorriso conta mais que muito);
  • Mãos: médias, de dedos esguios, mas com personalidade, jovens, ágeis, intitulo-as "mãos de artista" por serem o oposto das "mãos de trabalhador", fortes, calejadas, ásperas (sem qualquer insulto implícito);
  • Inteligência: o conhecimento é bom afrodisíaco;
  • Auto-confiança: deve ser por isso que os "brutos" têm o seu encanto;
  • Maturidade: e aqui incluo a compreensão;
  • Sentido de humor: adoro brincar e dizer parvoíces e a "carrancudice" não vibra a essa frequência.
7 coisas que digo diariamente
  • Merci;
  • Esqueci-me;
  • Já vou;
  • O que é o comer? (sim, eu digo "comer" em vez de "comida" :S);
  • Espera aí;
  • Olá;
  • Tipo (muitos de nós usamos o "tipo" como bengala a conversar).
7 actrizes/actores
  • Anthony Hopkins (qualquer um);
  • Jude Law (Alfie e as Mulheres, Cold Mountain, Closer, A.I., ...);
  • Jonhnny Depp (Charlie e a Fábrica de Chocolates, Donnie Brasco, A Janela Secreta, ...);
  • Keanu Reeves (Matrix, Dom, Constantine, Advogado do Diabo,...);
  • Ewan McGregor (Trainspotting, Moulin Rouge, A Ilha, ...);
  • Natalie Portman (Closer, A Guerra das Estrelas, ...);
  • Milla Jovovich (Joana D'Arc, Quinto Elemento, ...).
7 pessoas que desafio a fazer o mesmo
  • Gato (http://blogdogatopreto.blogspot.com);
  • Pintelho (http://diariodeumpintelho.blogspot.com);
  • Psychotic (http://sensibilidadesplausiveis.blogspot.com);
  • Ciro (http://ciromiranda.com.sapo.pt);
  • Eremita (http://eremitta.blogspot.com);
  • Perséfone (http://astheneia.blogspot.com);
  • Miguel (http://hauntedhome.blogspot.com).

quarta-feira, abril 04, 2007

Covarde

Irrita-me não ter coragem. Irrita-me ter 18 anos e saber-me tão novinha, tão inexperiente, tão insegura, tão receosa.

30.09.06

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Razões de desconfiança

A principal razão pela qual não confio totalmente nas pessoas é porque estas são normalmente levadas por tendências. Dizem o que normalmente se diz e gostam do que normalmente se gosta, na altura normalmente mais apropriada, do modo como todos os outros julgam ser mais adequado. As pessoas não dizem o que verdadeiramente pensam nem sentem o que verdadeiramente sentem que já nem sabem o que isso é. E quando ousam pensar e sentir por elas próprias em vez de por um colectivo ou são abafadas pelos que ainda temem ser verdadeiros, tornando-se alvo de injúrias e olhares dissimulados, ou fracassam numa tentativa frouxa de se dizer e sentir o que se quer.
Somos tantas vezes bonitos, fofos, o máximo, fixes, 5 estrelas, as pessoas mais amigas e espectaculares que alguma vez conheceram... Somos? Que dizem eles? Ouvem-se, leêm-se? Nem sabem o peso das suas palavras... As palavras querem-se sinceras e respeitadas!
Por acaso sabem que sou irónica, por vezes precipitando-me no sarcasmo? que por detrás desta voz aguda e ameninada também existem palavras rudes, cuja missão é atingir-vos. Sabem que quando realmente desejo algo não me consigo impedir de ignorar as vossas necessidades, preenchendo-me de egoísmo e egocentrismo e focando toda a minha atenção no alvo desejado?
Que é feito das menções aos defeitos quando se comenta uma pessoa na sua totalidade? Eu tenho defeitos. Todos têm defeitos. E quantas vezes não gostariamos ou precisariamos que nos dissessem directamente para que nos pudessemos emendar. Quantas vezes não prefeririamos palavras azedas e expressões de desgosto, ao invés de sorrisos amarelos e atitudes dissonantes com as palavras amáveis que com tão pouco empenho nos dirigem e que, logo, denunciam a existência de conversas ocultas.
Eu sei que erro. Todos erramos! E por isso são precisas discussões. Discussões francas, onde demonstremos respeito e apreço pelo outro e onde as nossas palavras sejam bisturis que abrem mas curam e não balas que furam e matam. Eu voto pela sinceridade e pela delicadeza também. Que é possível conjugá-las sem ser necessário sucumbirmos a tendências ou estereótipos.

E depois disto lerem, pensarão se eu própria sou assim. Para os que se perguntarem, eu respondo que não. E ao longo do texto vim a confessar-me. Escrevo sobre um ideal. Escrevo sobre os outros e sobre quem gostaria de ser. Eu, mais que muitas pessoas e como tantas outras, sofro do mal de não conseguir ser directa com receio de ser desgostada. Confesso ainda que quando o sou nem sempre alio a delicadeza às minhas críticas, tornando-me grosseira.
Preciso mudar, preciso melhorar. E aos poucos consigo. Muito lentamente, muito a modo e muito receosa, mas conseguirei tornar-me nem que seja numa ínfima parte do que tanto almejo. E para tal preciso saber, conhecer-me. O mundo da ignorância e do facilitismo nada de novo me traz. E bem sei que há quem me desgoste, com razão ou sem razão nem é chamado à questão, mas quão bom seria que se expressassem. Julgo que é pior não saber do que saber mesmo que isso implique dor. É que, na verdade, a dor desperta-nos e isso é um óptimo passo para a mudança.
Mudança. Progresso. Basta de viver presa ao passado.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Tudo o que faço ou medito...

Um poema...
daqueles que memorizamos de tantas vezes o lermos
daqueles em que choramos ao ler o primeiro verso.

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica
E eu sou um mar de sargaço -

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa

sábado, dezembro 30, 2006

Sem voz

Preciso de gritar ao mundo e não pensar nas consequências dos meus actos. Estou farta de ponderar, de esperar, de avaliar!... Quero gritar! (...)

sábado, dezembro 16, 2006

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Onze Minutos

"O desejo profundo, o desejo mais real é aquele de se aproximar de alguém. A partir daí, começam a ocorrer as reacções, o homem e a mulher entram em jogo, mas o que acontece antes - a atracção que os juntou - é impossível de explicar. É o desejo intocável, no seu estado puro.
Quando o desejo ainda está nesse estado puro, homem e mulher apaixonam-se pela vida, vivem cada momento com reverência, e conscientemente, sempre à espera do momento certo de celebrar a próxima benção.
Pessoas assim não têm pressa, não precipitam os acontecimentos com acções inconscientes. Elas sabem que o inevitável se manifestará, que o verdadeiro encontra sempre uma forma de se mostrar. Quando chega o momento, elas não hesitam, não perdem uma oportunidade, não deixam passar nenhum momento mágico, porque respeitam a importância de cada segundo."

Paulo Coelho

sábado, novembro 18, 2006

muito, meu amor

"És tão linda que nem dás vontade de foder, dizia. Eu não consigo. Dizia outras coisas, grande parte perde-se no ar, mas algumas, poucas, raras, ficam guardadas e voltam de vez em quando, nas alturas mais despropositadas, atrapalhando o que se está a fazer. És tão linda que nem te consigo foder. Eu, pelo menos, não consigo. A beleza não seduz, assusta quase, leva-nos para um sítio que não sabemos onde fica, sabemos só que não é aqui. Era assim que ele tentava explicar, como quem precisa de uma desculpa, o que lhe estava a acontecer, sabendo de antemão que não ia conseguir. Se há coisa que não se sabe explicar é por que se gosta do que quer que seja - um perfume, uma flor, um beijo - e o que seja isso de gostar que traz duas coisas tão próximas que as põe misturadas numa só e as outras tão distantes que se apagam facilmente. (...)"

"Todas as feridas serão material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. De preferência mantê-las abertas, até por fim sararem. De outro modo não deixarão outra cicatriz que não seja umas linhas, uma página, no máximo. (...)"

Pedro Paixão

sábado, novembro 04, 2006

domingo, outubro 15, 2006

Is it?

Sometimes I think I already am who I want to be, but I just can´t notice it.

04.07.06

sábado, outubro 07, 2006

à espera não sei de que momento

A minha mãe costuma-me dizer: "Não te preocupes que a verdade vem sempre ao de cima." E eu penso que enquanto ela não vem, o sofrimento permanece. Dói saber que alguém anda enganado, principalmente quando somos nós, ou alguém que nos está, directamente, ligado.
11.09.06

Mudez

(...)
Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda
Na voz dos outros, todo eu me afogo
Neste mar de silêncio, íntima noite
Sem madrugada.
(...)

Miguel Torga


[Post não relacionado com o dia de hoje. J
á há duas semanas que o pretendia escrever. (É necessário dizê-lo).]

sábado, setembro 23, 2006

(alguns) Mecanismos de defesa do ego

(de acordo com a teoria psicanalítica)



Mecanismos de defesa do ego: estratégias inconscientes que a pessoa usa para reduzir a tensão e a ansiedade, fruto dos conflitos entre o id, o ego e o superego. São mecanismos que visam evitar a angústia resultante dos conflitos intrapsíquicos.


  • Recalcamento - pelo recalcamento, o sujeito envia para o id as pulsões, desejos e sentimentos que não pode admitir no seu ego. Os conteúdos recalcados, apesar de inconscientes, continuam actuantes e tendem a reaparecer de forma disfarçada (sonhos, actos falhados, lapsos de linguagem...).
  • Regressão - pela regressão, o sujeito adopta modos de pensar, atitudes e comoprtamentos característicos de uma fase de desenvolvimento anterior. Frente a uma frustração ou incapacidade de resolver problemas, a criança ou adulto regridem, procurando a protecção de épocas passadas. Assim, o nascimento de uma irmão pode levar uma criança a fazer chichi na cama (eunerese) ou um adulto, face a problemas, pode fugir à realidade refugiando-se em atitudes infantis (dependência excessiva, choro, chantagem...).
  • Racionalização - pela racionalização ou intelectualização, o sujeito, ocultando a si próprio e aos outros as verdadeiras razões, justifica racionalmente o seu comportamento, retirando assim os aspectos emocionais de uma situação geradora de angústia e de stress. Deste modo, com justificações racionais tenta explicar-se de forma "aceitável" porque se bateu no irmão, se faltou ao exame médico, se mentiu ao marido ou à mulher, etc.
  • Projecção - pela projecção, o sujeito atribui aos outros (à sociedade, a pessoas, a objectos) desejos, ideias, características que não consegue admitir em si próprio. São reflexos desde processo, frases como Fulano detesta-me; aquele indivíduo não suporta críticas; a sociedade não tem ideais solidários; a boneca é má..., quando é a pessoa que as profere que tem esses sentimentos.
  • Deslocamento - pelo deslocamento, o sujeito transfere pulsões e emoções do seu objecto natural, mas "perigoso", para um objecto substitutivo, mudando assim o objecto que satisfaz a pulsão. Exemplos: o funcionário que sofre de conflitos no emprego e é agressivo ao chegar a casa; a criança que desloca a cólera sentida pelos pais para a boneca
  • Formação reactiva - pela formação reactiva ou inversão dos aspectos, o sujeito "resolve" o conflito entre os valores e as tendências consideradas inaceitáveis, apresentando comportamentos opostos às pulsões. Assim, uma pessoa pode ser demasiado amável e atenta com alguém que odeia; um sujeito afasta-se de quem gosta; manifesta uma excessiva caridade para esconder um sadismo latente; uma pessoa submissa e dócil pode esconder um dominador violento.
  • Sublimação - pela sublimação, o sujeito substitui o fim ou o objecto das pulsões de modo que estas se possam manisfestar em modalidades socialmente aceites. A eficácia do processo de sublimação implica que o objecto de substituição satisfaça o sujeito de forma real ou simbólica. Frequentemente, a sublimação faz-se através de psubstituições com valor moral e social elevado. Exemplos: um pirómano pode ingressar num corpo de bombeiros, modificando as suas relações com o fogo, agora utilizadas de forma socialmente reconhecida; o amor platónico pode esconder desejos considerados inaceitáveis pelo sujeito. A arte tem sido estudada como uma área que permite sublimações.
Fonte: Psicologia 12º ano (2ª parte), Manuela Monteiro e Milice Ribeiro dos Santos, Porto Editora (www.portoeditora.pt)


Decidi deixar-vos com este excerto, um pouco comprido, porque é realmente fascinante como podemos ver algumas pessoas aí retratadas.
E também para vos anunciar que entrei em Psicologia na Universidade do Minho e que estou muito contente com isso. Era o que eu queria e espero gostar muito do curso, apesar de já ter visto que tenho algumas cadeiras que não têm nada a ver com uma aluna que saiu de Humanidades (como é o caso de Fundamentos Matemáticos da Psicologia O.o).
Uma vez que esta semana, que começa já amanhã, é a semana de eu me mudar para Braga porque já começam as "actividades" e depois as aulas, penso que não vai haver possibilidade de eu actualizar o blog durante a semana, pelo que se o fizer, será exclusivamente ao fim-de-semana. Deixo, desde já, o meu aviso :)

P.S. Podem usar do vosso direito de não ler isto tudo! :p

segunda-feira, setembro 04, 2006

Desabafo "em cima do joelho"

És uma estúpida!


...

21.03.06

É triste aperceber-me que gosto de ti, verdadeiramente. É estranho dizê-lo. Mas gosto de ti, tanto quanto te odeio.



[Incapaz de dizer tudo o que sinto, fico-me pelas poucas palavras.]

sábado, setembro 02, 2006

Devaneios patetas

habituei-me ao cheiro da cebola nas mãos
já espremi limão entre os dedos e tentei eliminar o cheiro
confesso que não o fiz com muita convicção
de modo que o cheiro permaneceu
por isso habituei-me
julgo que até sinto um certo gozo em cheirar este aroma ácido
doentio? ridículo? não sei
julgo que a habituação nos leva a estas atitudes
habituação que poderá ter como sinónimos conformismo e preguiça
é isto que me move
ou melhor dizendo que não me move

01.09.06




[Não ia publicar esta patetice, mas como não havia nada mais que me incentivasse a uma actualização ao blog, cá ficou este pedaço de escrita, graças à insistência do colega blogger Rock rola em Barcelos que pergunta sempre por novidades :)
Em relação às actualizações ao blog, não sei se repararam que adicionei as "Leituras Recentes" (novamente). Estejam à vontade para comentar, tanto a patetice como o livro, se por acaso já o leram; eu vou a caminho de o finalizar (ainda falta...).]

sexta-feira, agosto 18, 2006

Manias (finalmente!)

Um convite recebido pelo estimado GatoPreto em Março e que só hoje consegui responder.

"Cada blogger nomeado tem de enumerar cinco manias suas, hábitos pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de tornar público o conhecimento dessas particularidades, terão de nomear cinco outros bloggers para participarem igualmente no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs, aviso do 'recrutamento'. Além disso cada participante deve reproduzir este 'regulamento' no seu blog."

1ª mania
Tenho a mania de trocar olhares com as pessoas que conduzem em vias rápidas e de sorrir às crianças que vão atrás.

2ª mania
Tenho a mania de pensar que as pessoas que conheço conspiram contra mim.

3ª mania
Tenho a mania que existem câmaras de vídeo por detrás dos espelhos de locais públicos (ex.: vestiários) ou salas com pessoas que observam as pessoas diante dos espelhos.

4ª mania
Tenho a mania de ler as últimas frases dos livros que começo a ler.

5ª mania
Tenho a mania de falar sozinha como se fosse com outrem e normalmente em inglês.



Muito bem, agora chegou a pior parte, principalmente porque a maior parte dos bloggers já deve ter respondido a este desafio, por esta altura. Enfim... vou tentar:

Hasta Siempre... por ti!
Sara Cohen

[Ambas ainda não responderam ao desafio (tanto quanto sei) : à primeira pela novidade, à segunda como incentivo ao seu regresso. Quanto aos outros 3 que faltam: não sei.]

sexta-feira, agosto 11, 2006

Tempo

Tudo o que existia no presente, deixará de o ser no futuro. Tudo porque o tempo transfigura. Somos esculturas do tempo. Somos a imagem viva do desgaste que o tempo inicia e prolonga. O que fomos não o somos. E o que somos não o seremos. Somos todos esculpidos da mesma matéria-prima. E essa matéria está sujeita à mudança, à vida, ao desgaste, à morte.

12 de Julho de 2006




[Inacabado? Talvez.]

quarta-feira, agosto 02, 2006

Não deixem morrer as palavras

- O Sr. já reparou bem num dicionário?... Num dicionário qualquer?... No de Morais, por exemplo... Ou no do povo... (Tanto faz!...) Já reparou?...
Eu esperei pela sequência do discurso. A aproveitar aquela mandriice tão boa de ter alguém a raciocinar por mim.
- Já reparou?... Pois a mim faz-me lembrar, sabe o quê?... Um jazigo de família. Ou melhor: um jazigo de nação. Uma espécie de mausoléu de papel, onde gerações de gatos-pingados empilharam séculos e séculos de palavras, alguma já definitivamente mortas, cobertas de bichos e de coroas saudosas... Outras vasquejaram nos últimos estremeções... E muitas, apenas em estado cataplético, à espera de um toque de dedos para regressarem à monotonia da vida diária... A este maldito bolor, onde ultilizamos ao todo quantas palavras vivas - diga-me lá quantas? Quinhentas? Mil?... Nem tantas, talvez!

Garanto-lhe que, em certos dias, quando subo o Chiado... ou entro num café da Baixa... e ouço essa gente parda a repisar, de manhã à noite, os mesmo termos... as eternas expressões... os substantivos inevitáveis... os adjectivos fatais... e o verbo ser, o verbo haver, e o verbo ter, e o verbo fazer... sabe o que me apetece?... Saltar para cima de uma mesa ou de um marco postal e gritar furioso aos homens: não deixem morrer as palavras, assassinos! Não deixem morrer as palavras!
Caía de bêbado, evidentemente. Mas pela boca roçava-lhe a alegria da volúpia de um sentimento fundo.
- E algumas são tão bonitas!... murmurava absorto. - Quando as vejo deitadinhas nas páginas dos dicionários, com mais de trezentos ou quinhentos anos, sabe do que me lembro sempre?... Daquela lenda das velhinhas milagrosas que, de ninguém as usar, o tempo tornou outra vez novas e virgens...
Deteve-me um momento a esquadrinhar na memória e por fim levantou um dedo de exclamação triunfante:
- Ardimento, por exemplo... Como é que os portugueses puderam esquecer-se desta palavra tão jovem, tão quente, tão expressiva e teimam em usar a infame «coragem» e o ignóbil «entusiasmo»?
E exemplificava:
- «Beija-a com ardimento...» E mais... muitas mais... Tantas que só por ablepsia... Olhe outra: ablepsia... E solerte! Agora já ninguém diz solerte! Porquê? «Fulano é solerte»? E ardiloso? E roaz?...
Para me eximir àquela autêntica inundação de palavras difíceis (e de gafanhotos) formulei com rapidez um plano de defesa que abrangia o seguinte desenvolvimento táctica: «concordar e retirar-me».
Mas o beberrolas, com a presença de um sorriso de lágrimas nos olhos, fincou-me as mãos no casaco, numa brandura de rogo:
- Antes de se ir embora quer fazer-me um favorzito, quer?... Só um favorzinho?... Faz?
Aquiesci.
- Então diga, em voz alta, só para eu ouvir, esta palavra tão bonita: protérvia... Diz?... Protérvia...
E, como eu me retraísse, intimou-me autoritário:
- Vá, diga: protérvia.
- Protérvia... - desembuchei, envergonhadíssimo como se pronunciasse uma obescinidade.
A boca do explicador de português babou-se de consolo admirativo pelas palavras esdrúxulas.
- Protérvia! [...] E impérvio? E estólido? Ouça: e se eu lhe chamasse estólido, gostava? Seu estólido!...
E riu, riu, riu, desdentadamente. [...]
Confesso que aproveitei a aberta do estólido e fugi.


José Gomes Ferreira, Gaveta de Nuvens

quarta-feira, julho 26, 2006

Soneto a Antero de Quental

Antero de Quental, o sonetista,
Obrigou-se às regras do soneto,
Compondo sempre e mais um quarteto
Tal filósofo e idealista

Que avança em busca da Razão,
Sobrepondo-se às dificuldades,
Confiando nas suas faculdades,
Intentando chegar à perfeição

Conseguindo por essa forma clássica,
Aliando inspiração fantástica
A um talento que lhe foi inato,

Disciplinar a personalidade
Que ficará na perpetuidade
Memorizada em cada soneto


Construído a 24.10.05, a 03.11.05 e a 08.11.05.


[Tentativa... Sugestão da professora de Português A que o corrigiu.

Muitas falhas na estrutura do soneto.
E a meu ver, pouco conteúdo.
Mas afinal de contas, foi o meu primeiro.]

terça-feira, junho 27, 2006

Descobertas

Descobri que já não receio escrever uma vírgula antes de um "e".
Descobri que nem sempre os advérbios de modo precisam estar entre vírgulas, nem o "portanto" ou o "enfim" ou o "então" ou o "até"...
Descobri que as pequenas frases podem ser simples, mas cheias de significado e importância.
Descobri que o mundo que uma palavra contém é muito maior do que eu possa imaginar.
Descobri que aprendi a desafiar o dicionário.
Descobri que o tempo de uma descoberta não se pode apressar.

Descobri que a cada momento me vou aventurando, sem saber.

A escrita não pode ser prisão.

"(...) só para dizer que escrevo com convicção. Não... Só para dizer que me liberto. Sim, é isso."

Não continua a ser este o objectivo?

sexta-feira, junho 16, 2006

21.12.05

Julgo que é receio o que sinto pela escrita. Receio de falhar. Receio de já não saber. Receio de desgostar. O desejo de melhorar assola-me demasiado o espírito e, por isso, receio tentar.
Escrever bem. O que é isso? Saber usar correctamente as regras gramaticais? Escolher cuidadosamente as palavras a usar? Escrever bonito? Qualquer um que saiba bem o português, que domine os dicionários e as gramáticas sabe escrever bem.
Julgo que é nesse escrever que me tenho concentrado. Escrever textos bonitos que deliciem o leitor; histórias que chamem, que apaixonem; palavras que brilhem aos olhos do leitor. Para quê o brilho quando não há chama? Para quê um reflexo quando não há uma imagem?
E cansa-me esta escrita. Talvez, porque não a sei. É bom imaginar: vaguear no pensamento e inventar cenários, personagens, situações e relações. É bom e eu gosto, e gosto muito. Mas ainda só sei imaginar e sou incapaz de palavrar as muitas ideias que crio. E é isso que cansa, a tentativa frustrada e falhada e não saber sequer palavrar esse cansaço.

domingo, junho 11, 2006

Conclusão I

Ando a nadar contra a maré, mas para onde a maré vai há uma parede que me barra o caminho.
(25.05.06)
...

Só me resta morrer.

sexta-feira, maio 05, 2006

Teatro

Regressei. Não definitivamente porque ainda não tenho internet em casa, pelo que, neste momento, me encontro na biblioteca da escola. Fiquei tocada pelos vossos comentários. São todos muito queridos e é bom saber que apesar da pasmaceira deste blog continuam a visitar-me. E, por isso, vos agradeço.

Este é o único texto completo que escrevi nos últimos meses e que é mais que um aglomerado de frases. É um texto que nasceu da vontade de cumprir um pedido da professora da aula de Oficina de Expressão Dramática que nos convidou a encarnar uma personalidade conhecida e a escrever por ela uma definição de teatro e, afinal, serviu também de pretexto para me lançar nas malhas da escrita, novamente.





Uma cidade de um país de um continente, do dia X do mês Y do ano Z

Queridos irmãos galácticos!

Durante e após 13 anos de infiltração neste vosso planeta Terra percebi e conclui, com certeza, que o teatro é um método importantíssimo no processo de socialização entre vós.
Como seres sociais que sois, demonstrais uma grande necessidade de vos integrardes em grupos e de não vos sentirdes excluídos, pelo que fazeis uso de várias artimanhas, de modo a serdes bem sucedidos nesse vosso propósito. Por isso, representais. Representais das mais variadas formas sem nunca perderdes, no entanto, a identidade que vos torna diferentes e únicos. Encarnais as mais variadas personagens e o que me causa maior espanto é nem vos aperceberdes que o fazeis. Por isso, sois o filho ou a filha quando estais com os pais, sois o trabalhador ou o aluno para os colegas e o trabalhador ou o aluno para o patrão ou para o professor, sois alguém em grupo, sois alguém em privado com outra pessoa e sois ainda outra pessoa quando estais sozinhos.
Como vedes, sem o teatro a vossa vida perderia o significado, vós perderíeis a vossa identidade e perderíeis a noção dos outros e do vosso papel para com os outros. Como vedes, o teatro não é a mentira, é a capacidade de poderdes ser outros, é a capacidade de vos camuflardes a vosso bel-prazer sem , no entanto, deixardes de ser quem sois, ainda que não saibais quem verdadeiramente sois. Podeis dizer que as personagens que representais escondem o vosso verdadeiro "eu", mas também podeis dizer que as personagens que representais constroem o vosso verdadeiro "eu"e fazem de vós o que verdadeiramente sois: actores do mais íntimo da vida que existe em vós.


Respeitosamente,
o Extra-Terrestre





28 de Abril de 2006

domingo, dezembro 04, 2005

Selma's Songs

- What about China?
Have you seen the Great Wall?

-All walls are great
If the roof doesn't fall



Björk & Yorke- I've Seen It All

sexta-feira, novembro 25, 2005

Leituras

Todo este tempo que fiquei sem escrever, foi o tempo necessário para me aperceber que precisava de voltar a ler.



"Fédon" de Platão (aula de filosofia)

"Os Mais" de Eça de Queiroz (aula de português)

"Onze Minutos" de Paulo Coelho (acabei de o ler hoje)

"Inês de Castro" de María Pilar Queralt Del Hierro (é o livro que se segue)



sábado, novembro 12, 2005

Oxalá

*

Oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
Oxalá, o passo não me esmoreça

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, o povo nunca se esqueça

Oxalá, eu não ande sem cuidado
Oxalá, eu não passe um mau bocado
Oxalá, eu não faça tudo à pressa
Oxalá, meu Futuro aconteça

Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá
Oxalá, que a tua vida também

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, O povo nunca se esqueça

Oxalá, o tempo passe, hora a hora
Oxalá , que ninguém se vá embora
Oxalá, se aproxime o Carnaval
Oxalá, tudo corra, menos mal


"Oxalá" de Madredeus
*Fotografia de: Daniel Blaufuks (www.madredeus.com - galeria)

quarta-feira, outubro 26, 2005

Pedro e Ana


Não há luz no início da cena. Uma personagem masculina está sentada, numa cama, virada para a parede com as mãos na cabeça e com um ar de tristeza. Começa-se a aproximar em direcção à cama uma personagem feminina. Duas luzes focam-se sobre ambas as personagens.

Ana: Pedro?... (tom de voz baixo que denota receio)

A personagem feminina, Ana, hesita e pára a meio caminho. Silêncio. Ana reaproxima-se e deixa-se pousar ao de leve na cama apoiada nos joelhos. A personagem masculina, Pedro, permanece imóvel.

Ana: Eu sei que não me queres por perto neste momento e muito menos ouvir-me… mas eu não posso partir sem te dizer algumas das coisas que tenho entaladas na garganta. (pausa) Quero que compreendas que é uma oportunidade única e que… e que é praticamente irrecusável! Nunca na vida teria algo tão maravilhoso aparecer assim diante de mim. Tens de compreender que eu também fiquei numa situação demasiado delicada. (pausa) É o sonho da minha vida! Não o posso perder assim sem mais nem menos! (silêncio na vã espera de receber algumas palavras do receptor) Também compreendo que estejas, assim, nesse estado. Mas gostava imenso que me dissesses alguma coisa. (pausa) Pelo menos olha para mim!

Pedro vira-se repentinamente e olha-a intensamente. Ana retribui o olhar e ficam uns longos minutos naquele olhar silencioso.

Ana: Pedro, também não é nada fácil para mim…

Pedro encosta um dedo aos lábios de Ana num gesto silenciador.

Pedro: Não digas mais nada. Era inevitável. (tom de certeza)

Silêncio. Ana tem um impulso de quem vai falar, mas Pedro interrompe-a e continua.

Pedro: A dança é o teu sonho, sim, eu sei. Não podias perder esta oportunidade, sim, eu também sei. Nós… (o discurso que se segue denota grande incerteza) nós fomos um acaso; nunca planeamos nada; foi tudo uma incerteza; não havia nenhum ponto nos “is”. Eu para ti sou exactamente o “sem mais nem menos” e pelo qual não podes desistir desta oportunidade. (pausa) Passámos um longo tempo juntos, mas nunca chegou a ser nada sério, certo? (a expressão de Ana, neste momento, torna-se drasticamente triste) Eu sei que esta não é uma situação fácil, mas não há necessidade de dramatizá-la, não é? Segue o teu coração, segue o teu sonho. Tu foste feita para a dança. E eu… eu hei-de continuar com o curso de arquitectura.

Silêncio prolongado. O ambiente torna-se, extremamente denso.

Ana: Se tu realmente pensas assim, fico aliviada por saber que compreendeste. E sim, nasci para a dança. (pausa) Faz-me um favor…

Pedro assente.

Ana: Fica com as sabrinas que deixei cá.

Dão um beijo apaixonadamente triste. Ana levanta-se, sem olhar Pedro, pega na mochila que anteriormente pousara no chão e dirige-se à porta. Pedro tem o olhar fixo no chão. Silêncio pesado. Ainda antes de sair, Ana vira-se para Pedro.

Ana: Nunca foste o “sem mais nem menos”.

Ana sai e Pedro fica a olhar a porta, triste.



23 de Outubro de 2005






Esta foi uma tentativa de um texto dramático que fiz para a aula de teatro, mas como se vê, "saiu" assim, muito fraquinho. Já não escrevo (mesmo) há bastante tempo e o pouco que tenho escrito tem sido assim, fraco. Os pseudo-dotes talvez se estejam a evaporar... Nada dura para sempre, enfim. De qualquer das maneiras quero e gosto muito de ler os vossos comentários aos teus textos que cá ponho :)

P.S. Não sei o autor desta imagem :/

terça-feira, outubro 18, 2005

Poema

Já lhe falei
Mas não compreendeu
Repeti, expliquei
Mas não percebeu

Não sei o que fazer
Não sei o que dizer

Mas insistiu em saber
E eu mais palavras não sabia
Para lhe poder dizer
O que não percebia

A pequena era persistente
Mas o que podia eu fazer
O amor é algo que se sente
E não há palavras que o possam descrever




Porque gosto de recordar e acho engraçado o que se deixa escrito com 12 anos.

domingo, outubro 02, 2005

Recordações de invenção

Como em todas as minhas histórias de adolescente, estava um fim de tarde ameno. O sol mergulhava, na sua calma, nas águas do oceano atlântico e pintava o céu num tom de laranja que me preenchia a alma. Alma que se encontrava, ainda, presa a este corpo de pele branca e seca, escondida, apenas, pelo biquini laranja e o saiote azul marinho, com cujas tirinhas me entretinha. A maresia fresca que pairava no ar enchia-me os pulmões e fez-me divagar... O corpo estava naquela praia, mas a mente viajava já entre mil e um pensamentos das mais variadas sensações. A primeira a sobressair do baú das memórias foi o cheiro ao cozido de bacalhau que a minha mãe costumava fazer no tempo inverniço. Sempre cozinhou com tanto carinho!... Tudo era cuidado ao mais ínfimo pormenor, nada podia faltar e tudo o que havia era maravilhoso. "Um verdadeiro jantar dos deuses!", dizia o meu pai limpando a boca ao guardanapo, encostado à cadeira de papo para o ar. E realmente, os jantares da minha mãe sempre foram deliciosos e eram sempre propícios a longas conversas que se estendiam até altas horas da noite. Eram bons os tempos passados com os meus pais. A nossa relação era, sem dúvida nenhuma, uma amizade extremamente forte e rica. Tantas experiências em comum, tantos conhecimentos e relatos partilhados, tanta vida entre nós. E as nossas viagens? Oh, as nossas viagens!... De um canto ao outro do país, dormitanto em hóteis, cantando no carro ao som dos velhos cd's do meu pai, comentando, criticando, rindo... Ainda me lembro quando fomos todos juntos ao Jardim Zoológico de Lisboa. Saí de lá com os pés em bolhas, mas valeu tanto a experiência! Era (e ainda deve ser) enorme! e são tantos os animais lá hospedados! Desde os ferozes leões tão esperados naqueles sítios, os chimpanzés tão fofinhos e brincalhões, aquelas aves pequenas todas coloridas, as girafas com o seu pescoço grandemente engraçado, os hipopótamos, até os répteis e lembro-me de ver avestruzes! Houve até uma avestruz deveras patusca que decidiu engraçar com a minha mãe, talvez pela camisola colorida que ela levava nesse dia, ainda não sabemos. As lembranças de bons momentos passados saltitavam em mim e eu deixava-me ir... até sentir na cara uma pequena gota de água que, insistentemente, se multiplicou. Começou a chover fortemente e de rajada e fui obrigada a levantar-me e atravessar a praia até ao café. Agora, era o ar fresco que avizinhava a noite que me despertava de regresso ao corpo e ao presente.

11 de Agosto de 2005


Em resposta ao desafio do mês "Palavra de ordem!" do Escreva!

sábado, setembro 17, 2005

Tragic Kingdom

"You and me
We used to be together
Every day together always

I really feel
I'm losing my best friend
I can't believe
This could be the end"


No Doubt - Don't Speak