
Fuck, "when I grow up" I want to be like her.
"Shirley Manson is what we call, hardcore. Everything she does, from her songs and her lyrics to her life has her 100% effort and attention." (AskMen.com )

Enquanto mergulhava os pés na piscina, uma andorinha sobrevoava a água em voos rápidos como se desafiasse algo ou alguém. O sol brilhava lá no alto do céu e Norah Jones fazia-se ouvir na aparelhagem atrás de mim. O dia estava magnífico e eu ansiava por um bloco e uma caneta para o poder descrever. Mas não me apetecia pensar demasiado. O meu verdadeiro desejo consistia em apreciar o momento. Fechar os olhos, lançar a face ao céu, agitar as pernas na água fresca e respirar.
Inspiro, expiro… inspiro, expiro… até sentir cada centímetro de pele no meu corpo, inspiro, expiro… até ser sensível ao som do passeio das formigas na relva, inspiro, expiro… até transcender não sei bem o quê. Simplesmente ser e sentir, na borda daquela piscina, com aquela andorinha a sobrevoar os meus pensamentos e Norah Jones para os embalar.
O som da aparelhagem entorpece os sentidos. Não ouço nada mais senão a música em mim. Os carros lá em baixo transitam em mudez e as pessoas só movem os lábios. A brisa que é suave, a pele sente. As unhas nos braços, nem as sei. Há uma sensibilidade desconforme em mim. O céu exige o meu voo, a varanda empurra-me, o corrimão segura-me. Não estou em mim. Mas existe um mergulho que me afoga. E não vejo a superfície, os meus olhos cerram quando olho para cima. O que é profundo agarra os meus tornozelos e há uma força que me atrai e uma fraqueza que leva o meu olhar para o fundo. Desço. Em mim e por mim permito-me escorregar. Despida e descalça palmilho o pensamento. Espeto os pés nos vidros estilhaçados e firo a carne nos espinhos que se projectam das paredes da memória. Há sangue e as batidas aceleradas do coração. Há lágrimas desamparadas que nascem ininterruptamente. E surge, de novo, a vontade de ferir, de me ferir, de marcar, de fazer história no meu corpo. Porque há necessidade de perpetuar o momento. Há necessidade de relembrar que o pranto existe e apavora e me guia em pensamentos débeis. E o mais sério é o prazer que retiro desse estilhaçar do ser.