sábado, setembro 02, 2006

Devaneios patetas

habituei-me ao cheiro da cebola nas mãos
já espremi limão entre os dedos e tentei eliminar o cheiro
confesso que não o fiz com muita convicção
de modo que o cheiro permaneceu
por isso habituei-me
julgo que até sinto um certo gozo em cheirar este aroma ácido
doentio? ridículo? não sei
julgo que a habituação nos leva a estas atitudes
habituação que poderá ter como sinónimos conformismo e preguiça
é isto que me move
ou melhor dizendo que não me move

01.09.06




[Não ia publicar esta patetice, mas como não havia nada mais que me incentivasse a uma actualização ao blog, cá ficou este pedaço de escrita, graças à insistência do colega blogger Rock rola em Barcelos que pergunta sempre por novidades :)
Em relação às actualizações ao blog, não sei se repararam que adicionei as "Leituras Recentes" (novamente). Estejam à vontade para comentar, tanto a patetice como o livro, se por acaso já o leram; eu vou a caminho de o finalizar (ainda falta...).]

sexta-feira, agosto 18, 2006

Manias (finalmente!)

Um convite recebido pelo estimado GatoPreto em Março e que só hoje consegui responder.

"Cada blogger nomeado tem de enumerar cinco manias suas, hábitos pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de tornar público o conhecimento dessas particularidades, terão de nomear cinco outros bloggers para participarem igualmente no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs, aviso do 'recrutamento'. Além disso cada participante deve reproduzir este 'regulamento' no seu blog."

1ª mania
Tenho a mania de trocar olhares com as pessoas que conduzem em vias rápidas e de sorrir às crianças que vão atrás.

2ª mania
Tenho a mania de pensar que as pessoas que conheço conspiram contra mim.

3ª mania
Tenho a mania que existem câmaras de vídeo por detrás dos espelhos de locais públicos (ex.: vestiários) ou salas com pessoas que observam as pessoas diante dos espelhos.

4ª mania
Tenho a mania de ler as últimas frases dos livros que começo a ler.

5ª mania
Tenho a mania de falar sozinha como se fosse com outrem e normalmente em inglês.



Muito bem, agora chegou a pior parte, principalmente porque a maior parte dos bloggers já deve ter respondido a este desafio, por esta altura. Enfim... vou tentar:

Hasta Siempre... por ti!
Sara Cohen

[Ambas ainda não responderam ao desafio (tanto quanto sei) : à primeira pela novidade, à segunda como incentivo ao seu regresso. Quanto aos outros 3 que faltam: não sei.]

sexta-feira, agosto 11, 2006

Tempo

Tudo o que existia no presente, deixará de o ser no futuro. Tudo porque o tempo transfigura. Somos esculturas do tempo. Somos a imagem viva do desgaste que o tempo inicia e prolonga. O que fomos não o somos. E o que somos não o seremos. Somos todos esculpidos da mesma matéria-prima. E essa matéria está sujeita à mudança, à vida, ao desgaste, à morte.

12 de Julho de 2006




[Inacabado? Talvez.]

quarta-feira, agosto 02, 2006

Não deixem morrer as palavras

- O Sr. já reparou bem num dicionário?... Num dicionário qualquer?... No de Morais, por exemplo... Ou no do povo... (Tanto faz!...) Já reparou?...
Eu esperei pela sequência do discurso. A aproveitar aquela mandriice tão boa de ter alguém a raciocinar por mim.
- Já reparou?... Pois a mim faz-me lembrar, sabe o quê?... Um jazigo de família. Ou melhor: um jazigo de nação. Uma espécie de mausoléu de papel, onde gerações de gatos-pingados empilharam séculos e séculos de palavras, alguma já definitivamente mortas, cobertas de bichos e de coroas saudosas... Outras vasquejaram nos últimos estremeções... E muitas, apenas em estado cataplético, à espera de um toque de dedos para regressarem à monotonia da vida diária... A este maldito bolor, onde ultilizamos ao todo quantas palavras vivas - diga-me lá quantas? Quinhentas? Mil?... Nem tantas, talvez!

Garanto-lhe que, em certos dias, quando subo o Chiado... ou entro num café da Baixa... e ouço essa gente parda a repisar, de manhã à noite, os mesmo termos... as eternas expressões... os substantivos inevitáveis... os adjectivos fatais... e o verbo ser, o verbo haver, e o verbo ter, e o verbo fazer... sabe o que me apetece?... Saltar para cima de uma mesa ou de um marco postal e gritar furioso aos homens: não deixem morrer as palavras, assassinos! Não deixem morrer as palavras!
Caía de bêbado, evidentemente. Mas pela boca roçava-lhe a alegria da volúpia de um sentimento fundo.
- E algumas são tão bonitas!... murmurava absorto. - Quando as vejo deitadinhas nas páginas dos dicionários, com mais de trezentos ou quinhentos anos, sabe do que me lembro sempre?... Daquela lenda das velhinhas milagrosas que, de ninguém as usar, o tempo tornou outra vez novas e virgens...
Deteve-me um momento a esquadrinhar na memória e por fim levantou um dedo de exclamação triunfante:
- Ardimento, por exemplo... Como é que os portugueses puderam esquecer-se desta palavra tão jovem, tão quente, tão expressiva e teimam em usar a infame «coragem» e o ignóbil «entusiasmo»?
E exemplificava:
- «Beija-a com ardimento...» E mais... muitas mais... Tantas que só por ablepsia... Olhe outra: ablepsia... E solerte! Agora já ninguém diz solerte! Porquê? «Fulano é solerte»? E ardiloso? E roaz?...
Para me eximir àquela autêntica inundação de palavras difíceis (e de gafanhotos) formulei com rapidez um plano de defesa que abrangia o seguinte desenvolvimento táctica: «concordar e retirar-me».
Mas o beberrolas, com a presença de um sorriso de lágrimas nos olhos, fincou-me as mãos no casaco, numa brandura de rogo:
- Antes de se ir embora quer fazer-me um favorzito, quer?... Só um favorzinho?... Faz?
Aquiesci.
- Então diga, em voz alta, só para eu ouvir, esta palavra tão bonita: protérvia... Diz?... Protérvia...
E, como eu me retraísse, intimou-me autoritário:
- Vá, diga: protérvia.
- Protérvia... - desembuchei, envergonhadíssimo como se pronunciasse uma obescinidade.
A boca do explicador de português babou-se de consolo admirativo pelas palavras esdrúxulas.
- Protérvia! [...] E impérvio? E estólido? Ouça: e se eu lhe chamasse estólido, gostava? Seu estólido!...
E riu, riu, riu, desdentadamente. [...]
Confesso que aproveitei a aberta do estólido e fugi.


José Gomes Ferreira, Gaveta de Nuvens

quarta-feira, julho 26, 2006

Soneto a Antero de Quental

Antero de Quental, o sonetista,
Obrigou-se às regras do soneto,
Compondo sempre e mais um quarteto
Tal filósofo e idealista

Que avança em busca da Razão,
Sobrepondo-se às dificuldades,
Confiando nas suas faculdades,
Intentando chegar à perfeição

Conseguindo por essa forma clássica,
Aliando inspiração fantástica
A um talento que lhe foi inato,

Disciplinar a personalidade
Que ficará na perpetuidade
Memorizada em cada soneto


Construído a 24.10.05, a 03.11.05 e a 08.11.05.


[Tentativa... Sugestão da professora de Português A que o corrigiu.

Muitas falhas na estrutura do soneto.
E a meu ver, pouco conteúdo.
Mas afinal de contas, foi o meu primeiro.]

terça-feira, junho 27, 2006

Descobertas

Descobri que já não receio escrever uma vírgula antes de um "e".
Descobri que nem sempre os advérbios de modo precisam estar entre vírgulas, nem o "portanto" ou o "enfim" ou o "então" ou o "até"...
Descobri que as pequenas frases podem ser simples, mas cheias de significado e importância.
Descobri que o mundo que uma palavra contém é muito maior do que eu possa imaginar.
Descobri que aprendi a desafiar o dicionário.
Descobri que o tempo de uma descoberta não se pode apressar.

Descobri que a cada momento me vou aventurando, sem saber.

A escrita não pode ser prisão.

"(...) só para dizer que escrevo com convicção. Não... Só para dizer que me liberto. Sim, é isso."

Não continua a ser este o objectivo?

sexta-feira, junho 16, 2006

21.12.05

Julgo que é receio o que sinto pela escrita. Receio de falhar. Receio de já não saber. Receio de desgostar. O desejo de melhorar assola-me demasiado o espírito e, por isso, receio tentar.
Escrever bem. O que é isso? Saber usar correctamente as regras gramaticais? Escolher cuidadosamente as palavras a usar? Escrever bonito? Qualquer um que saiba bem o português, que domine os dicionários e as gramáticas sabe escrever bem.
Julgo que é nesse escrever que me tenho concentrado. Escrever textos bonitos que deliciem o leitor; histórias que chamem, que apaixonem; palavras que brilhem aos olhos do leitor. Para quê o brilho quando não há chama? Para quê um reflexo quando não há uma imagem?
E cansa-me esta escrita. Talvez, porque não a sei. É bom imaginar: vaguear no pensamento e inventar cenários, personagens, situações e relações. É bom e eu gosto, e gosto muito. Mas ainda só sei imaginar e sou incapaz de palavrar as muitas ideias que crio. E é isso que cansa, a tentativa frustrada e falhada e não saber sequer palavrar esse cansaço.

domingo, junho 11, 2006

Conclusão I

Ando a nadar contra a maré, mas para onde a maré vai há uma parede que me barra o caminho.
(25.05.06)
...

Só me resta morrer.

sexta-feira, maio 05, 2006

Teatro

Regressei. Não definitivamente porque ainda não tenho internet em casa, pelo que, neste momento, me encontro na biblioteca da escola. Fiquei tocada pelos vossos comentários. São todos muito queridos e é bom saber que apesar da pasmaceira deste blog continuam a visitar-me. E, por isso, vos agradeço.

Este é o único texto completo que escrevi nos últimos meses e que é mais que um aglomerado de frases. É um texto que nasceu da vontade de cumprir um pedido da professora da aula de Oficina de Expressão Dramática que nos convidou a encarnar uma personalidade conhecida e a escrever por ela uma definição de teatro e, afinal, serviu também de pretexto para me lançar nas malhas da escrita, novamente.





Uma cidade de um país de um continente, do dia X do mês Y do ano Z

Queridos irmãos galácticos!

Durante e após 13 anos de infiltração neste vosso planeta Terra percebi e conclui, com certeza, que o teatro é um método importantíssimo no processo de socialização entre vós.
Como seres sociais que sois, demonstrais uma grande necessidade de vos integrardes em grupos e de não vos sentirdes excluídos, pelo que fazeis uso de várias artimanhas, de modo a serdes bem sucedidos nesse vosso propósito. Por isso, representais. Representais das mais variadas formas sem nunca perderdes, no entanto, a identidade que vos torna diferentes e únicos. Encarnais as mais variadas personagens e o que me causa maior espanto é nem vos aperceberdes que o fazeis. Por isso, sois o filho ou a filha quando estais com os pais, sois o trabalhador ou o aluno para os colegas e o trabalhador ou o aluno para o patrão ou para o professor, sois alguém em grupo, sois alguém em privado com outra pessoa e sois ainda outra pessoa quando estais sozinhos.
Como vedes, sem o teatro a vossa vida perderia o significado, vós perderíeis a vossa identidade e perderíeis a noção dos outros e do vosso papel para com os outros. Como vedes, o teatro não é a mentira, é a capacidade de poderdes ser outros, é a capacidade de vos camuflardes a vosso bel-prazer sem , no entanto, deixardes de ser quem sois, ainda que não saibais quem verdadeiramente sois. Podeis dizer que as personagens que representais escondem o vosso verdadeiro "eu", mas também podeis dizer que as personagens que representais constroem o vosso verdadeiro "eu"e fazem de vós o que verdadeiramente sois: actores do mais íntimo da vida que existe em vós.


Respeitosamente,
o Extra-Terrestre





28 de Abril de 2006

domingo, dezembro 04, 2005

Selma's Songs

- What about China?
Have you seen the Great Wall?

-All walls are great
If the roof doesn't fall



Björk & Yorke- I've Seen It All

sexta-feira, novembro 25, 2005

Leituras

Todo este tempo que fiquei sem escrever, foi o tempo necessário para me aperceber que precisava de voltar a ler.



"Fédon" de Platão (aula de filosofia)

"Os Mais" de Eça de Queiroz (aula de português)

"Onze Minutos" de Paulo Coelho (acabei de o ler hoje)

"Inês de Castro" de María Pilar Queralt Del Hierro (é o livro que se segue)



sábado, novembro 12, 2005

Oxalá

*

Oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
Oxalá, o passo não me esmoreça

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, o povo nunca se esqueça

Oxalá, eu não ande sem cuidado
Oxalá, eu não passe um mau bocado
Oxalá, eu não faça tudo à pressa
Oxalá, meu Futuro aconteça

Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá
Oxalá, que a tua vida também

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, O povo nunca se esqueça

Oxalá, o tempo passe, hora a hora
Oxalá , que ninguém se vá embora
Oxalá, se aproxime o Carnaval
Oxalá, tudo corra, menos mal


"Oxalá" de Madredeus
*Fotografia de: Daniel Blaufuks (www.madredeus.com - galeria)

quarta-feira, outubro 26, 2005

Pedro e Ana


Não há luz no início da cena. Uma personagem masculina está sentada, numa cama, virada para a parede com as mãos na cabeça e com um ar de tristeza. Começa-se a aproximar em direcção à cama uma personagem feminina. Duas luzes focam-se sobre ambas as personagens.

Ana: Pedro?... (tom de voz baixo que denota receio)

A personagem feminina, Ana, hesita e pára a meio caminho. Silêncio. Ana reaproxima-se e deixa-se pousar ao de leve na cama apoiada nos joelhos. A personagem masculina, Pedro, permanece imóvel.

Ana: Eu sei que não me queres por perto neste momento e muito menos ouvir-me… mas eu não posso partir sem te dizer algumas das coisas que tenho entaladas na garganta. (pausa) Quero que compreendas que é uma oportunidade única e que… e que é praticamente irrecusável! Nunca na vida teria algo tão maravilhoso aparecer assim diante de mim. Tens de compreender que eu também fiquei numa situação demasiado delicada. (pausa) É o sonho da minha vida! Não o posso perder assim sem mais nem menos! (silêncio na vã espera de receber algumas palavras do receptor) Também compreendo que estejas, assim, nesse estado. Mas gostava imenso que me dissesses alguma coisa. (pausa) Pelo menos olha para mim!

Pedro vira-se repentinamente e olha-a intensamente. Ana retribui o olhar e ficam uns longos minutos naquele olhar silencioso.

Ana: Pedro, também não é nada fácil para mim…

Pedro encosta um dedo aos lábios de Ana num gesto silenciador.

Pedro: Não digas mais nada. Era inevitável. (tom de certeza)

Silêncio. Ana tem um impulso de quem vai falar, mas Pedro interrompe-a e continua.

Pedro: A dança é o teu sonho, sim, eu sei. Não podias perder esta oportunidade, sim, eu também sei. Nós… (o discurso que se segue denota grande incerteza) nós fomos um acaso; nunca planeamos nada; foi tudo uma incerteza; não havia nenhum ponto nos “is”. Eu para ti sou exactamente o “sem mais nem menos” e pelo qual não podes desistir desta oportunidade. (pausa) Passámos um longo tempo juntos, mas nunca chegou a ser nada sério, certo? (a expressão de Ana, neste momento, torna-se drasticamente triste) Eu sei que esta não é uma situação fácil, mas não há necessidade de dramatizá-la, não é? Segue o teu coração, segue o teu sonho. Tu foste feita para a dança. E eu… eu hei-de continuar com o curso de arquitectura.

Silêncio prolongado. O ambiente torna-se, extremamente denso.

Ana: Se tu realmente pensas assim, fico aliviada por saber que compreendeste. E sim, nasci para a dança. (pausa) Faz-me um favor…

Pedro assente.

Ana: Fica com as sabrinas que deixei cá.

Dão um beijo apaixonadamente triste. Ana levanta-se, sem olhar Pedro, pega na mochila que anteriormente pousara no chão e dirige-se à porta. Pedro tem o olhar fixo no chão. Silêncio pesado. Ainda antes de sair, Ana vira-se para Pedro.

Ana: Nunca foste o “sem mais nem menos”.

Ana sai e Pedro fica a olhar a porta, triste.



23 de Outubro de 2005






Esta foi uma tentativa de um texto dramático que fiz para a aula de teatro, mas como se vê, "saiu" assim, muito fraquinho. Já não escrevo (mesmo) há bastante tempo e o pouco que tenho escrito tem sido assim, fraco. Os pseudo-dotes talvez se estejam a evaporar... Nada dura para sempre, enfim. De qualquer das maneiras quero e gosto muito de ler os vossos comentários aos teus textos que cá ponho :)

P.S. Não sei o autor desta imagem :/

terça-feira, outubro 18, 2005

Poema

Já lhe falei
Mas não compreendeu
Repeti, expliquei
Mas não percebeu

Não sei o que fazer
Não sei o que dizer

Mas insistiu em saber
E eu mais palavras não sabia
Para lhe poder dizer
O que não percebia

A pequena era persistente
Mas o que podia eu fazer
O amor é algo que se sente
E não há palavras que o possam descrever




Porque gosto de recordar e acho engraçado o que se deixa escrito com 12 anos.

domingo, outubro 02, 2005

Recordações de invenção

Como em todas as minhas histórias de adolescente, estava um fim de tarde ameno. O sol mergulhava, na sua calma, nas águas do oceano atlântico e pintava o céu num tom de laranja que me preenchia a alma. Alma que se encontrava, ainda, presa a este corpo de pele branca e seca, escondida, apenas, pelo biquini laranja e o saiote azul marinho, com cujas tirinhas me entretinha. A maresia fresca que pairava no ar enchia-me os pulmões e fez-me divagar... O corpo estava naquela praia, mas a mente viajava já entre mil e um pensamentos das mais variadas sensações. A primeira a sobressair do baú das memórias foi o cheiro ao cozido de bacalhau que a minha mãe costumava fazer no tempo inverniço. Sempre cozinhou com tanto carinho!... Tudo era cuidado ao mais ínfimo pormenor, nada podia faltar e tudo o que havia era maravilhoso. "Um verdadeiro jantar dos deuses!", dizia o meu pai limpando a boca ao guardanapo, encostado à cadeira de papo para o ar. E realmente, os jantares da minha mãe sempre foram deliciosos e eram sempre propícios a longas conversas que se estendiam até altas horas da noite. Eram bons os tempos passados com os meus pais. A nossa relação era, sem dúvida nenhuma, uma amizade extremamente forte e rica. Tantas experiências em comum, tantos conhecimentos e relatos partilhados, tanta vida entre nós. E as nossas viagens? Oh, as nossas viagens!... De um canto ao outro do país, dormitanto em hóteis, cantando no carro ao som dos velhos cd's do meu pai, comentando, criticando, rindo... Ainda me lembro quando fomos todos juntos ao Jardim Zoológico de Lisboa. Saí de lá com os pés em bolhas, mas valeu tanto a experiência! Era (e ainda deve ser) enorme! e são tantos os animais lá hospedados! Desde os ferozes leões tão esperados naqueles sítios, os chimpanzés tão fofinhos e brincalhões, aquelas aves pequenas todas coloridas, as girafas com o seu pescoço grandemente engraçado, os hipopótamos, até os répteis e lembro-me de ver avestruzes! Houve até uma avestruz deveras patusca que decidiu engraçar com a minha mãe, talvez pela camisola colorida que ela levava nesse dia, ainda não sabemos. As lembranças de bons momentos passados saltitavam em mim e eu deixava-me ir... até sentir na cara uma pequena gota de água que, insistentemente, se multiplicou. Começou a chover fortemente e de rajada e fui obrigada a levantar-me e atravessar a praia até ao café. Agora, era o ar fresco que avizinhava a noite que me despertava de regresso ao corpo e ao presente.

11 de Agosto de 2005


Em resposta ao desafio do mês "Palavra de ordem!" do Escreva!

sábado, setembro 17, 2005

Tragic Kingdom

"You and me
We used to be together
Every day together always

I really feel
I'm losing my best friend
I can't believe
This could be the end"


No Doubt - Don't Speak

segunda-feira, setembro 05, 2005

Cartas a um Jovem Poeta

"Rainer Maria Rilke nasceu em Praga em 1875, filho de um oficial do exército e de uma mãe fanaticamente religiosa.
Estudou filosofia, história, literatura e arte em Praga, Berlim e Munique. Começou a escrever poesia desde muito cedo.
Em 1901 casou com Clara Westhoff e viveram em Worpswede até ao nascimento do único filho, tendo-se depois mudado para Paris, em 1902. Morreu em Valmont, a 29 de Dezembro de 1926."*




"Atraídos pela sua poesia, era frequente alguns jovens escreverem a Rilke, falando-lhe dos seus problemas e aspirações. De 1903 a 1908 Rilke enviou um notável conjunto de cartas a um jovem cadidato a poeta, sobre a poesia, o amor e a sensibilidade, revelando também, desta forma, a sua relação com a vida e a dificuldade que um espírito sensível tem em sobreviver num mundo duro e implacável."*




Adorei ler este livro e agradeço imenso ao AF do Segundo Impacto que me sugeriu a sua leitura num comentário a um texto que eu cá tinha posto. Tal como ele disse, é um livro "recheado de conselhos e ideias muito interessantes" e eu aconselho, vivamente, a todos aqueles que se interessam pela escrita e a tantos outros também, porque são conselhos acerca da vida.


*Direitos reservados por Coisas de Ler Edições, Lda.

segunda-feira, agosto 08, 2005

10 Coisas

Esta foi uma resposta a um post do Blog Luz e Sombra que pedia 10 coisas sobre nós próprios e, como tenho andado "seca" de ideias, achei que isto vos pudesse interessar; sempre é um bocadinho mais de mim.

1.Fisicamente. Há duas coisas que gosto especialmente em mim: os meus olhos e os meus sinais. Os olhos, apesar de serem comummente castanhos, são grandes e fascinam-me pela sua vivacidade de expressão, pelo brilho das emoções e pela sua mobilidade observadora. Os sinais são, para mim, marcas de identificação pessoais e adoro cada um deles em mim (não são poucos).
Nos outros, perco-me apaixonadamente nas mãos e nos sorrisos. Adoro mãos finas de dedos compridos, as mãos ágeis e delicadas. Os sorrisos se forem alegres e sobretudo sinceros, enfeitiçam-me por completo, indescritível. Adoro também cabelos compridos e lisos (não fosse o meu assim); a minha mãe bem insistiu, quando eu era pequena, em cortá-lo pequenino (à tigela), mas não adiantou, a minha fixação “falou” mais alto.

2. Desorganizada. Sou muito desorganizada mentalmente e isso verifica-se depois nas pequenas coisas diárias. É aborrecido porque me esqueço, muito facilmente, de várias coisas, como compromissos, aniversários, tarefas, planos e afins… e também na própria escrita, em que o pensamento é muito mais rápido que a mão, as ideias perdem-se na confusão e os parágrafos, muitas vezes, ficam incompletos. Isso faz-me sentir sempre um pouco perdida e, consequentemente, frustrada por nunca encontrar algo que se assemelhe a um Norte.

3. Monotonia. Posso muito bem usar o verbo “detestar” sem hesitação porque detesto, mesmo (!), a monotonia. Deixa-me doente psicologicamente. Repetições, rotina são me embaraços. Preciso de ver, ouvir, fazer coisas diferentes quase constantemente. Para mim a vida tem que ser aproveitada e a monotonia anula esse possível proveito.

4. Sem pontualidade. Vergonhosamente, chego atrasada a todo lado. Não tenho a mínima noção do tempo, por isso não consigo controlar o tempo e as minhas tarefas, chegando atrasada a qualquer lado. Acho que se chega a tornar uma deficiência porque eu não consigo mesmo ter noção, quando penso que 10 minutos chegam, afinal eram preciso 15 ou 20 e nunca aprendo.

5. Preguiçosa. Demasiado preguiçosa! Qualquer espécie de iniciativa ou vontade própria são aniquiladas sem piedade nenhuma. Tão preguiçosa que chego a ser apática. A minha posição favorita é deitada e qualquer oportunidade que tenha para deitar a cabeça é, imediatamente aproveitada, como por exemplo, nas cadeiras ou mesas do café, ou até na mesa de jantar cá de casa ao fim da refeição. Por isso, uma das coisas que muito prezo, é dormir. É uma característica que choca bastante com a vontade asfixiante de querer fazer coisas novas e diferentes. Enfim… contradições.

6. Letras coloridas. Associo cores às letras e simpatizo com algumas e outras não. Alguns exemplos: para mim o “e” é amarelo e o “i” é vermelho; não gosto da letra “F” porque a acho antipática e feia, adoro as letras redondinhas, como o “B” e o “G” porque são amigáveis e fofinhas.

7. Música. Apercebi-me, recentemente, que é um vício ouvir música. Não ouvir música um dia inteiro é uma tortura, mas, felizmente, isso quase ou nunca acontece. Se não ouço música, tenho com certeza alguma na cabeça e chego a cantarolar inúmeras vezes, apesar da minha voz soar um pouco a “cana rachada”. A música para mim é o “background” da minha vida. Tal como os filmes têm sempre uma qualquer música a acompanhar cada cena, eu associo músicas a alturas da minha vida. A música é o embalo das minhas emoções; emociono-me conforme a música que estiver a ouvir ou escolho, delicadamente, as músicas de acordo com a minha disposição.

8. Escrita. Sufoco se não escrever. Chego a desesperar se estiver numa daquelas alturas em que preciso mesmo (!) de escrever e não consigo. A mão fica parada, a caneta escorrega pelos dedos, o papel continua em branco, os olhos vagueiam… não me há cenário interior mais agoniante. Como nunca converso com ninguém (excepto comigo própria) acerca dos meus sentimentos, tenho uma necessidade enorme de os despejar através das palavras escritas. Caso contrário, fica tudo entalado, sufocando a garganta e, às vezes, acabando em lágrimas.

9. Racional. Não sou uma pessoa muito emocional, a minha tendência é mesmo para o racional e como tal sufoco tudo que seja emoção ou sentimento, racionalizando a maior parte das coisas da melhor maneira possível. Fico deveras embaraçada quando vejo alguém chorar ou a falar de sentimentos abertamente. Por isso, evito situações demasiado delicadas nesse aspecto porque nunca sei o que fazer ou dizer. Penso que todas as pessoas que convivem comigo têm noção disso e por isso, sabem que não me conhecem muito bem, pois nunca conto nada de mim, a não ser coisas banais do quotidiano.

10. Teatro. Em pequena, quando exploramos desejos de ter diversas profissões, decidi, por último, que queria ser actriz. Entretanto, o tempo passa, uma pessoa aprende que há coisas que não podem passar de sonhos e que até são absurdas, esquece-se, até que escolhi Humanidades para o 10º ano e no 11º tive O.E.D. (Oficina da Expressão Dramática), o que fez com que o desejo voltasse. Adorei a experiência. Passaria tempos infinitos naquelas aulas e até me cheguei a inscrever num workshop de teatro leccionado pela companhia de teatro de Barcelos – Capoeira – que, por sua vez, também foi uma experiência muito proveitosa. Com este desejo crescente e fortificado, espero entrar na esmae, no Porto, daqui a um ano e licenciar-me em Teatro.

quarta-feira, julho 27, 2005

...

O silêncio pairava no quarto.Duas da manhã e sem saber o que escrever.
Estava tudo calmo, nada se mexia e apenas se ouvia o respirar leve da cidade.
Duas e meia da manhã e ainda sem saber o que escrever. A caneta andava de um lado para o outro na sua mão, o caderno estava pousado na cama com as folhas em branco e uma tela preta havia atravessado a sua mente. As suas pernas moviam-se debaixo do lençol ansiosas, as mãos começavam a transpirar e a caneta escorregava. Um calor intenso percorria-lhe o pescoço e descia até às pernas. A impaciência era grande e a necessidade de o fazer ainda maior. O calor abafado não ajudava e os olhos também começavam a pesar.
Tinha que escrever! Ela sentia-o e por isso não conseguia largar a caneta nem deixar de fixar o caderno. A caneta estava pousada na folha, mas esta continuava em branco. A mão não se mexia e ela esperava ansiosamente que as letras se começassem a desenhar e o texto a formar-se, mas o que existia era apenas um cadeeiro de luz fraca, ela e um silêncio que escorria nas paredes, que preenchia o quarto e a sua mente.
Adormeceu sobre o caderno. Esta noite não o conseguiu, tinha que tentar outra vez. Não podia desistir. Ela sabia que existia, ela sentia... Era forte, tão forte que a deixava de rastos. Não conseguia e sentia-se mal. A força estava dentro dela, mas como conseguir transpô-la no papel?
Iria esperar que o dia de amanhã corresse para que a noite se exibisse.
Iria passar todo o dia à espera. Esperaria ansiosamente pela noite, para tentar mais uma vez. Apenas na noite.





[Não tenho andado em bons dias de escrita e como outro dia descobri mais uma pastinha com os meus escritos, resolvi mostar-vos este porque se adequa ao que ando a sentir. (Se bem que a noite já perdeu um pouco dessa magia.) O texto não tinha título e não sei qual lhe pôr e, infelizmente, também não tinha data marcada na folha, todavia presumo que seja perto de 2003.]