Os seus pés hesitavam em subir os degraus da escada de caracol. Ele estava lá em cima, sentado na cama, virado para a parede à espera dela. Ela sentia-o entristecer ainda antes de o avistar. Demorou-se em passos pequenos a subir as escadas, no último degrau parou. Parou a olhá-lo. Estava encurvado e as suas mãos continuavam a segurar a cabeça como há minutos quando a havia sentido sair. Pousou levemente a mochila no chão, descalçou as sabrinas e começou a caminhar… pé ante pé, sem pressa, num cuidado intenso preocupado com o ruído. Queria conservar o silêncio, não para surpreendê-lo porque sabia que a sua presença lhe chegava aos sentidos, mas para eternizar o momento nos sons mudos que cresciam no silêncio. Aproximou-se da cama, deixou-se apoiar suavemente nos joelhos e chegou-se a ele. Com receio estendeu a mão e acariciou-lhe a cabeça rapada. Ele virou-se num movimento demorado e fitou com profundidade os seus grandes olhos brilhantemente castanhos. Olharam-se durante uns longos minutos e conversaram, assim, em silêncio. Partilharam emoções de boca fechada e entenderam-se sem linguagem palavrada. Um beijo profundamente sentido quebrou a linha do olhar e lançou-os delicadamente nos lençóis da cama. Os lábios dele percorriam-lhe o pescoço e o peito numa suavidade que saboreava. Em movimentos sensuais as mãos dela acariciavam-lhe a careca tão apreciada e descendo pelo corpo apertavam os dedos contra as costas dele. As roupas iam deslizando pela cama e as pernas moviam-se, entrelaçavam-se, as dele nas dela. A pele pálida dos dois confundia-se, o suor misturava-se e os corpos uniam-se. Os movimentos da paixão cresciam, iluminados pela vela repetidamente acesa a cada noite como uma espécie de lembrança, e cuja chama crescia como que alimentada da energia que unia os dois amantes. Amaram-se apaixonadamente toda a noite e, ainda antes dos raios do sol poderem intensificar-se, ela vestiu-se, pegou nas suas coisas e partiu definitivamente, deixando apenas a vela e a memória de uma noite em que ele a sentiu apaixonar-se.
20 de Junho de 2005
quarta-feira, junho 22, 2005
sábado, junho 18, 2005
Hoje, matei-me
É hoje que me mato. Falta-me pensar numa forma de o fazer. A ideia dos compridos associo-a a uma morte indesejada com o objectivo de chamar a atenção. A ideia de me atirar para debaixo de um comboio não me satisfaz; é demasiado rápida, não se sente a dor como se deveria. Quero sentir a vida esvair-se do meu corpo. Quero sentir as picadas da morte roçarem a minha carne até aprofundarem a ferida da dor. Quero morrer de dor! Há quem diga que ninguém assim morre, mas eu quero. E como é hoje que o quero, vou contrariar os instintos que se apoderaram de mim por todos estes anos fétidos e vou ter iniciativa. Sim. Vou começar algo e vou acabá-lo. Vou ter a força de vontade para elevar o meu espírito e materializar uma ideia, escapando assim do mundo ilusório em que sempre vivi; um mundo de pensamentos, teorias, intenções, suposições…! Vou construir algo. E vai ser algo que vos vou poder mostrar. A seu tempo tudo se irá compor. Hão-de ver a minha energia numa criação minha. Numa criação minha, minha! Eu vou fazer algo… nem acredito nisto. Não posso perder tempo novamente com divagações. Vamos ao que interessa: a forma de me matar. Será uma criação vermelha, pintada com o meu sangue. A ideia de cortar os pulsos não me sai de mente, mas não é original, vão desprezar a minha criação por ser repetida. Como me mato então? Algo que doía muito. Tem que ser com dor! Não pode ser de outra forma porque é de dor que quero morrer. Já o disse e repito.
Posso escrever Dor bem fundo na barriga e deixar o sangue escorrer até o corpo secar. Assim alio o desejo de morrer de dor à vontade fatal de escrever. A escrita da morte em mim. Eis uma ideia bonita. A navalha está já ao meu lado, juntamente com os meus outros instrumentos: a caneta e o papel. Tenho o cenário perfeito! Um chão frio de cimento carregadamente cinzento e nada e ninguém ao meu lado exceptuando o meu consolo: os meus instrumentos. Mato-me com o que mais gosto. Mato-me da maneira que quero e realizando um desejo velho que havia guardado há já um tempo na gaveta dos pendentes.
Deixei as roupas à porta de entrada. Sempre gostei da arte do nu e é assim que me vão fotografar quando me encontrarem. Vai ser tão belo... Espero poder apreciar esse momento do outro lado, como lhe chamam. Vão me encontrar na posição em que nasci, escondendo a Dor em mim, assim abraçada pelos meus braços, guardando-a bem junto ao peito que deixará de respirar em breve. Sim, vai ser a minha criação final, mas vai ser a melhor que alguma vez terei feito. Duvido que conseguisse, algum dia, fazer alguma que superasse esta que estou prestes a começar. Assim, despeço-me deste esterco numa beleza jamais vista por mim e pelos que me conhecem. Estou ansiosa por ver as expressões nas caras deles. Não que isso seja muito importante, mas quero ver reacções; é sempre bonito.
Inspiro fundo… não por receio, mas por ansiedade. Não paro de repetir mentalmente que vou, finalmente, iniciar e finalizar algo com as minhas próprias mãos. Pego na caneta para desenhar as letras da Dor na minha barriga. Uma letra seguida da outra com espaço suficiente para não se atropelarem, para se distinguirem maravilhosamente umas das outras. A tinta sinto-a fria e é um primeiro sinal de que a minha criação começou. O papel ao meu lado está preenchido como há muito já não estava. Este dia é meu! A caneta já não treme nos meus dedos, está firme e desenha. A minha caneta desenha! Já não me lembrava de tal coisa. Estou prestes a emocionar-me, mas tenho que continuar, tenho que combater os meus instintos por mais fortes que eles aparentem ser. Pego na navalha com cuidado para ter a certeza que não me engano em nenhum passo. Levanto-a, agarro-a com firmeza e começo a desenhar com determinação. Já dói… Dói e os meus lábios erguem-se num ligeiro sorriso. O D está desenhado e sangra. O o ganha vida e seguidamente o r. O sangue escorre lentamente da barriga para as virilhas e daí para o centro de fertilidade. É tempo de me deitar… A caneta ensanguentada está sobre o papel que agora vive. Deito-me, abraço-me e fecho os olhos a metade. A dor torna-se aguda e invade-me o corpo como nunca. Sinto as feridas abrirem-se como quem se encontra no processo de nascimento. Gostava de poder descrever esta dor por que tanto ansiei, mas é demasiado real para a retratar só com palavras. A dor é tanta que de mim e dela já não há linha separadora. Somos uma. Unidas para a morte que se avizinha. Aos meus olhos o cinzento carregado, nos meus ouvidos o zumbido do silêncio e do escorrer do sangue. Sorrio… eu sorrio! Olho-me o melhor possível para que possa fechar os olhos e ficar com a imagem da minha criação gravada nas pálpebras. Sei que a minha expressão facial é a de alguém que dorme tranquilamente um sono de satisfação. Consegui finalmente… Quem me achou incapaz de fazer algo por mim? Mais cedo ou mais tarde todos acabam por encontrar o seu momento de felicidade. Eu encontrei-o hoje.
Posso escrever Dor bem fundo na barriga e deixar o sangue escorrer até o corpo secar. Assim alio o desejo de morrer de dor à vontade fatal de escrever. A escrita da morte em mim. Eis uma ideia bonita. A navalha está já ao meu lado, juntamente com os meus outros instrumentos: a caneta e o papel. Tenho o cenário perfeito! Um chão frio de cimento carregadamente cinzento e nada e ninguém ao meu lado exceptuando o meu consolo: os meus instrumentos. Mato-me com o que mais gosto. Mato-me da maneira que quero e realizando um desejo velho que havia guardado há já um tempo na gaveta dos pendentes.
Deixei as roupas à porta de entrada. Sempre gostei da arte do nu e é assim que me vão fotografar quando me encontrarem. Vai ser tão belo... Espero poder apreciar esse momento do outro lado, como lhe chamam. Vão me encontrar na posição em que nasci, escondendo a Dor em mim, assim abraçada pelos meus braços, guardando-a bem junto ao peito que deixará de respirar em breve. Sim, vai ser a minha criação final, mas vai ser a melhor que alguma vez terei feito. Duvido que conseguisse, algum dia, fazer alguma que superasse esta que estou prestes a começar. Assim, despeço-me deste esterco numa beleza jamais vista por mim e pelos que me conhecem. Estou ansiosa por ver as expressões nas caras deles. Não que isso seja muito importante, mas quero ver reacções; é sempre bonito.
Inspiro fundo… não por receio, mas por ansiedade. Não paro de repetir mentalmente que vou, finalmente, iniciar e finalizar algo com as minhas próprias mãos. Pego na caneta para desenhar as letras da Dor na minha barriga. Uma letra seguida da outra com espaço suficiente para não se atropelarem, para se distinguirem maravilhosamente umas das outras. A tinta sinto-a fria e é um primeiro sinal de que a minha criação começou. O papel ao meu lado está preenchido como há muito já não estava. Este dia é meu! A caneta já não treme nos meus dedos, está firme e desenha. A minha caneta desenha! Já não me lembrava de tal coisa. Estou prestes a emocionar-me, mas tenho que continuar, tenho que combater os meus instintos por mais fortes que eles aparentem ser. Pego na navalha com cuidado para ter a certeza que não me engano em nenhum passo. Levanto-a, agarro-a com firmeza e começo a desenhar com determinação. Já dói… Dói e os meus lábios erguem-se num ligeiro sorriso. O D está desenhado e sangra. O o ganha vida e seguidamente o r. O sangue escorre lentamente da barriga para as virilhas e daí para o centro de fertilidade. É tempo de me deitar… A caneta ensanguentada está sobre o papel que agora vive. Deito-me, abraço-me e fecho os olhos a metade. A dor torna-se aguda e invade-me o corpo como nunca. Sinto as feridas abrirem-se como quem se encontra no processo de nascimento. Gostava de poder descrever esta dor por que tanto ansiei, mas é demasiado real para a retratar só com palavras. A dor é tanta que de mim e dela já não há linha separadora. Somos uma. Unidas para a morte que se avizinha. Aos meus olhos o cinzento carregado, nos meus ouvidos o zumbido do silêncio e do escorrer do sangue. Sorrio… eu sorrio! Olho-me o melhor possível para que possa fechar os olhos e ficar com a imagem da minha criação gravada nas pálpebras. Sei que a minha expressão facial é a de alguém que dorme tranquilamente um sono de satisfação. Consegui finalmente… Quem me achou incapaz de fazer algo por mim? Mais cedo ou mais tarde todos acabam por encontrar o seu momento de felicidade. Eu encontrei-o hoje.
quarta-feira, junho 15, 2005
A espera
Uma camisola colorida
Umas calças confortáveis
Dois pés de meias frios
Uma mão quente outra fria
Olhos cansados expectantes
Os óculos repousam no nariz
A boca fina mais pequena ainda
Bochechas trincadas por dentro
Movimentos parados
Uma música vibrante
No coração a bater
Um peito que sobe e desce
Acompanhado da barriga
As pernas cruzadas
E os ombros caídos
Olhos abertos caminhantes
Dedos separados impacientando
Movimentos de silêncio
Parados na espera de escrever
Umas calças confortáveis
Dois pés de meias frios
Uma mão quente outra fria
Olhos cansados expectantes
Os óculos repousam no nariz
A boca fina mais pequena ainda
Bochechas trincadas por dentro
Movimentos parados
Uma música vibrante
No coração a bater
Um peito que sobe e desce
Acompanhado da barriga
As pernas cruzadas
E os ombros caídos
Olhos abertos caminhantes
Dedos separados impacientando
Movimentos de silêncio
Parados na espera de escrever
quarta-feira, maio 25, 2005
Cansaço

(olhares.com)
"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço. (...)"
Álvaro de Campos
segunda-feira, maio 16, 2005
Carta de um suicídio
Não quero começar com porques como toda a gente faz. Queria começar com outras palavras para ser diferente. E é disso que eu tanto necessito. Diferença. Diferença sem escândalo e sem me sentir mal com isso. Diferença disfarçada, só dentro de mim. Os olhos que passem por mim, as bocas que falem de mim, mas que eu não os veja nem os ouça. Não vos quero sentir em mim, por isso afastem-se quando me falarem. Os pensamentos são fontes de energia, sabiam? Quanto mais longe estiverem, melhor. Não vos sinto. Não quero. Há quem fale em fossos; entre o “eu” e o “vós”. Prefiro a palavra abismo. Dá-me uma ideia de maior distância. De distância mortal. Eu tenho o meu. E pretendo que ele cresça bem fundo... Até um grito se perder nas paredes. Não quero aproximação. Por isso não se atrevam a construir pontes. Não que se importem em fazê-lo, mas quando se lembrarem já estão avisados. Afastem-se que é o melhor a fazer. Não sou coitada. Sou suicída. Deixem-mo ser. Só peço que se afastem e me deixem matar. Não quero pena nem compaixão. Não faço isto com essa intenção. É tão difícil de perceber? Nunca tive amor em mim e, sem vos querer chocar propositadamente, vocês também não. Amor... Uma palavra viva para um sentimento morto. Aqui! Noutros mundos talvez seja vivo. Aqui nunca nasceu; por isso, nem morto está. É inexistente. Não amem porque não são capazes. Nem pensem que são amados. Ilusão é uma perda de tempo. Mas sou eu quem fala: a suicída. Por isso não me escutem. Não pretendo pregar. É uma espécie de aviso. Só para não dizerem que não me despedi. Não é que sinta necessidade de vos responder aos caprichos. É apenas ao meu que respondo. O capricho rebuscado de escrever. Ai... a escrita é a minha pá. Sem ela o meu suicído seria tão mais difícil. Obrigada. Ajudas-me a cavar o abismo e eu acaricio-te. Troca justa diria eu. Só quero o afastamento. Mas de ti isso é impossível. Sem ti morreria para a existência própria. Não imagino sequer um algo em mim sem ti. És a minha vida. Mas tendo em conta que vida é o encarne da alma e que só assim vivo, és mais que minha vida, és a minha alma. Talvez seja isto que eu queria verdadeiramente dizer. O entorpecimento da mente dificulta-me a expressão. Desculpa-me. Eu tento, mas as névoas adensam-se tanto...! Inspiro, expiro, suspiro... mas o peso continua. Perdoa-me a minha fragilidade. Perdoa-me o ser fraco. Ajuda-me a alimentar a alma. No fundo és tu própria que cresces se assim for. Sim... eu sei que sou suicída, mas só para os outros. Para ti quero viver. Abraça-me, bafeja-me que sem ti sou inconcebível.
domingo, maio 15, 2005
Plof!
segunda-feira, maio 09, 2005
O que eles escreveram sobre Fernando Pessoa
"Pessoa, seu primeiro leitor, não duvidou de sua realidade. Reis e Campos disseram o que talvez ele nunca diria. Ao contradizê-lo, expressaram-no; ao expressá-lo, obrigaram-no a inventar-se. Escrevemos para ser o que somos ou para ser aquilo que não somos. Em um ou em outro caso, nos buscamos a nós mesmos. E se temos a sorte de encontrar-nos - sinal de criação - descobriremos que somos um desconhecido. Sempre o outro, sempre ele, inseparável, alheio, com teu rosto e o meu, tu sempre comigo e só".
(Otávio Paz, O Desconhecido de Si Mesmo: Fernando Pessoa in Signos Em Rotação, col. Debates, nº 48)
(Otávio Paz, O Desconhecido de Si Mesmo: Fernando Pessoa in Signos Em Rotação, col. Debates, nº 48)
quarta-feira, maio 04, 2005
Evasão

http://www3.wincustomize.com/
Vou ter com as estrelas
Vou voar daqui para fora
Vou falar com elas
Que já passa da hora...
quinta-feira, abril 28, 2005
Dimensões
Um ímpeto move-me à escrita
E dele alimento a caneta
Até que os olhos se perdem
No imenso branco do papel
Vagueiam perdidos no pensamento
Alheados do brusco sentir exterior
Que anestesia fortemente a alma
Tal é o choque do subtil com o real
Um real indefinido a todos
Porque vive de si para si
Reflecte-se em si mesmo
E a dimensão torna-se outra
O choque é então ilusão
Não chega a existir
Porque os diferentes reais
Jamais se encontrarão
Vivo assim num despertar
E adormecer ilusório
O exterior não existe em mim
Só o interior me engole
É o exterior ilusão?
Como é ilusão o choque de reais?
Do meu real com o real em si
Que é real e ninguém conhece
27-04-05
E dele alimento a caneta
Até que os olhos se perdem
No imenso branco do papel
Vagueiam perdidos no pensamento
Alheados do brusco sentir exterior
Que anestesia fortemente a alma
Tal é o choque do subtil com o real
Um real indefinido a todos
Porque vive de si para si
Reflecte-se em si mesmo
E a dimensão torna-se outra
O choque é então ilusão
Não chega a existir
Porque os diferentes reais
Jamais se encontrarão
Vivo assim num despertar
E adormecer ilusório
O exterior não existe em mim
Só o interior me engole
É o exterior ilusão?
Como é ilusão o choque de reais?
Do meu real com o real em si
Que é real e ninguém conhece
27-04-05
sexta-feira, abril 22, 2005
Re-definições
"Nunca vamos ter o amor a rir para nós
Quando queremos nós ter o sorriso maior."
Da Weasel [com Manel Cruz, vocalista dos Pluto] - Casa (Vem fazer de conta)
Quando queremos nós ter o sorriso maior."
Da Weasel [com Manel Cruz, vocalista dos Pluto] - Casa (Vem fazer de conta)
quarta-feira, abril 20, 2005
Sobre livros
1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um de páginas em branco que pudesse ser rabiscado à vontade porque a ideia de algo permanente não me agrada.
2 -Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Penso que em relação a isso costumo afinizar-me muito com as personagens que gosto. Por vezes, adopto expressões semelhantes sem me aperceber; sou influenciada sem querer, mas por poucos momentos. No entanto, não tenho nenhum em especial que me "apanhe".
3 -Qual foi o último livro que compraste?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett
4 -Qual o último livro que leste?
Por inteiro, penso que foi "Harry Potter e a Ordem da Fénix" - J.K. Rowling
5 - Que livros, estás a ler?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett
"Choque do Futuro" - Alvin Toffler
6 -Cinco livros que levarias para uma ilha deserta.
"O Rosto e as Máscaras" - Fernando Pessoa (antologia cronológica, organizada e prefaciada por David Mourão-Ferreira)
"Os Filhos da Droga" - Christiane F.
"A minha Melhor Amiga" - Anne-Sophie Brasme
Um caderno em branco (e respectiva caneta ou lápis)
Um desconhecido, obrigatoriamente, de poesia
7 -Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Talvez as três primeiras que lerem isto serão essas três pessoas :) Mas vou passa-lo a quem quiser lê-lo; está à vista de todos que por aqui passeiam.
[Achei engraçado este questionário que vi nos blogs Tá de noite e My Soul Pieces e copiei-o para aqui. Pode ser que vos interesse lê-lo e copiar para os vossos Blogs. Sempre se fica a conhecer um bocadinho mais de quem o responde.]
Um de páginas em branco que pudesse ser rabiscado à vontade porque a ideia de algo permanente não me agrada.
2 -Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Penso que em relação a isso costumo afinizar-me muito com as personagens que gosto. Por vezes, adopto expressões semelhantes sem me aperceber; sou influenciada sem querer, mas por poucos momentos. No entanto, não tenho nenhum em especial que me "apanhe".
3 -Qual foi o último livro que compraste?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett
4 -Qual o último livro que leste?
Por inteiro, penso que foi "Harry Potter e a Ordem da Fénix" - J.K. Rowling
5 - Que livros, estás a ler?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett
"Choque do Futuro" - Alvin Toffler
6 -Cinco livros que levarias para uma ilha deserta.
"O Rosto e as Máscaras" - Fernando Pessoa (antologia cronológica, organizada e prefaciada por David Mourão-Ferreira)
"Os Filhos da Droga" - Christiane F.
"A minha Melhor Amiga" - Anne-Sophie Brasme
Um caderno em branco (e respectiva caneta ou lápis)
Um desconhecido, obrigatoriamente, de poesia
7 -Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Talvez as três primeiras que lerem isto serão essas três pessoas :) Mas vou passa-lo a quem quiser lê-lo; está à vista de todos que por aqui passeiam.
[Achei engraçado este questionário que vi nos blogs Tá de noite e My Soul Pieces e copiei-o para aqui. Pode ser que vos interesse lê-lo e copiar para os vossos Blogs. Sempre se fica a conhecer um bocadinho mais de quem o responde.]
terça-feira, abril 19, 2005
Nota
Este é só um pequeno post para agradecer aqueles que deram uma opinião no post anterior e para anunciar que o título da peça foi votado e escolhido segunda-feira; a peça intitula-se, agora, por "Realidade fictícia". A meu ver, é um título interessante, embora não fosse o meu preferido. De qualquer das maneiras, entre este e um outro que estava com grande destaque "Eles andam aí!", fico satisfeita por ter sido o actual o mais votado.
domingo, abril 17, 2005
Preciso duma opinião
Eu tenho aulas de teatro na escola e andamos a ensaiar uma peça para apresentar no fim do ano, só que não sabemos que título lhe havemos de dar, por isso, vou tentar resumir o melhor que posso (apesar de ainda não ter a peça toda) e dar-vos a escolher alguns títulos que uns colegas meus proporam de forma a ajudarem-nos :)
Muito bem... A peça é basicamente sobre os diferentes grupos que existem entre os adolescentes e os respectivos problemas. Existem as betas, os noctívagos, os dreads, os cromos da Net, os góticos, um gay, um traficante de exames, uma intelectual e os freaks. Os grupos vivem uma vida que os pode levar a enfrentar sérios problemas no futuro. Eu interpreto duas personagens: a Luana e a Lipa. A primeira está inserida no grupo dos góticos, constituido pelo namorado Roger, a amiga da banda Verónica, a extrema Erika e a Paloma e caracteriza-se pelo facto de serem anti-sociais e nem sequer conseguirem criar laços fortes de amizade dentro do próprio grupo. A Lipa faz parte do grupo dos noctívagos, constituido pela melhor amiga Kak's e pelo irmão Pikas que, por sua vez, vai aliciar a irmã para o mundo da noite repleto de drogas, álcool e rapazes. No meio de toda esta "anarquia juvenil" andam uns ET's que aterram no campo de basquetebol da escola no início da peça e que são invisíveis devido a um dispositivo. Estes decidem estudar as crias da espécie porque lhes resta pouco tempo naquele planeta. Porém, à medida que o estudo avança, levados pelo espanto das barbaridades com que se deparam, estes vêem-se obrigados a desligar o dispositivo de invisiblidade e a intervir na vida de cada adolescente, de forma a, mostrar-lhes o futuro. Uma vez visto o futuro pelo adolescente este, de regresso ao presente e sem se aperceber do que acabara de acontecer, conscencializa-se e tenta deixar algumas coisas que prejudicavam a sua vida, como a droga, a vergonha (ex. dos cromos e do gay) e outras coisas mais que iriam destruir o seu futuro. Assim sendo (espero ter-me feito entender no resumo) os títulos propostos foram estes:
Eles andam aí! / Eles andem aí! (ou um ou outro)
Efeito boomerang
Efeito extraterrestre
Só não vê quem não quer
O código da adolescência / O Código Adolescente (ou um ou outro)
Afinal são nossos amigos
O nosso reflexo
Nós somos piores
A nossa sombra
Ligação extraterrestre
Uma espécie aparte
Acreditas em ET's?
Afinal eles existem
Tudo louco
Atinem, pá!
O abc da adolescência
Uma peça do outro mundo
O Senhor dos ET's
Os ET's e os prisioneiros da adolescência (à estilo Harry Potter)
O futuro é agora
Realidade fictícia
Saber quem somos (ideia do meu irmão)
Muito bem... A peça é basicamente sobre os diferentes grupos que existem entre os adolescentes e os respectivos problemas. Existem as betas, os noctívagos, os dreads, os cromos da Net, os góticos, um gay, um traficante de exames, uma intelectual e os freaks. Os grupos vivem uma vida que os pode levar a enfrentar sérios problemas no futuro. Eu interpreto duas personagens: a Luana e a Lipa. A primeira está inserida no grupo dos góticos, constituido pelo namorado Roger, a amiga da banda Verónica, a extrema Erika e a Paloma e caracteriza-se pelo facto de serem anti-sociais e nem sequer conseguirem criar laços fortes de amizade dentro do próprio grupo. A Lipa faz parte do grupo dos noctívagos, constituido pela melhor amiga Kak's e pelo irmão Pikas que, por sua vez, vai aliciar a irmã para o mundo da noite repleto de drogas, álcool e rapazes. No meio de toda esta "anarquia juvenil" andam uns ET's que aterram no campo de basquetebol da escola no início da peça e que são invisíveis devido a um dispositivo. Estes decidem estudar as crias da espécie porque lhes resta pouco tempo naquele planeta. Porém, à medida que o estudo avança, levados pelo espanto das barbaridades com que se deparam, estes vêem-se obrigados a desligar o dispositivo de invisiblidade e a intervir na vida de cada adolescente, de forma a, mostrar-lhes o futuro. Uma vez visto o futuro pelo adolescente este, de regresso ao presente e sem se aperceber do que acabara de acontecer, conscencializa-se e tenta deixar algumas coisas que prejudicavam a sua vida, como a droga, a vergonha (ex. dos cromos e do gay) e outras coisas mais que iriam destruir o seu futuro. Assim sendo (espero ter-me feito entender no resumo) os títulos propostos foram estes:
Eles andam aí! / Eles andem aí! (ou um ou outro)
Efeito boomerang
Efeito extraterrestre
Só não vê quem não quer
O código da adolescência / O Código Adolescente (ou um ou outro)
Afinal são nossos amigos
O nosso reflexo
Nós somos piores
A nossa sombra
Ligação extraterrestre
Uma espécie aparte
Acreditas em ET's?
Afinal eles existem
Tudo louco
Atinem, pá!
O abc da adolescência
Uma peça do outro mundo
O Senhor dos ET's
Os ET's e os prisioneiros da adolescência (à estilo Harry Potter)
O futuro é agora
Realidade fictícia
Saber quem somos (ideia do meu irmão)
terça-feira, abril 12, 2005
Devaneio
A verdade é que a provável bipolaridade do meu ser pode ser explicada pela indefinição do mesmo.
segunda-feira, abril 11, 2005
Ecoponto doméstico

"Os ecopontos podem ser adquiridos nos super e hipermercados, nomeadamente, Jumbo, Continente, Feira Nova, Modelo, etc. a um preço que deverá rondar cerca de 10/12 euros.
(...)
Os ecopontos domésticos são disponibilizados incluindo um guia de reciclagem de edição e responsabilidade da Sociedade Ponto Verde, que contém as regras de separação de embalagens, para facilitar ainda mais a tarefa.
(...)
Estes ecopontos, (...) dispõem de três divisões e permitem separar num só contentor os diferentes materiais, à semelhança do que acontece com os ecopontos de rua. Ou seja, possuem uma divisão para o plástico e o metal, outra para o papel/cartão (especialmente concebida para o formato dos jornais e revistas) e finalmente uma para o vidro."
Para mais informações visitem o link: http://www.pontoverde.pt/sala_imprensa/sala_imprensa_press63.html
Porque nunca é demais lembrar...
E para que conste, também ainda tenho que comprar um :$ (só porque acho mais eficiente em comparação com as sacas penduradas na cozinha)
Sempre pensei que me preocupava com os males feitos ao meio ambiente, até me aperceber que nem a separação de lixo em casa fazia. Ora bem, quem se preocupa de corpo e alma, faz algo pela sua causa, não é verdade? E muitos podem associar, apenas, as fábricas à poluição, mas penso que todos tomamos consciência que não parte exclusivamente dos outros prejudicar ou ajudar o meio ambiente, não é? Afinal de contas, nós também não poluímos? Se de cada vez que fossemos ao supermercado, olhassemos antes para o rótulo e verificassemos se o produto é um forte contaminador para o ambiente, em vez de olharmos exclusivamente para a marca e os "afins" que esta promete, estariamos a contribuir para vivermos num mundo mais fresco. E quem diz ir ao supermercado, diz outras coisas. A separação de lixo em casa é uma delas. Não custa nada, pois não? Quero dizer... é preciso ter cuidado com o que se separa porque nem tudo pode ser reciclado, mas há guias que nos informam e sites como o ponto verde. Penso que não custa nada tentar reanimar o nosso planeta. Afinal, é o único que nós temos.
Quando penso no mundo actual, a ideia imediata (talvez por ser citadina) que me vem à cabeça é o fumo, o barulho, o stress e, consequência disso, pessoas rezingonas, o trânsito, edifícos, cruzamentos, buzinas, passadeiras, alcatrão, preto... Por vezes dá vontade de dar um berro seco e esperar que tudo pare, tal como nos filmes. Vê-se apenas o vácuo da vida das pessoas. Serão felizes? Alguns podem julgar que sim. Talvez o sejam, talvez não. Será que se lembram de pensar nisso sequer? Para a frente, para trás... para ali, para acolá... Agora, neste instante, atrasos... esgotamento... a sucção da vida. Cansaço... "Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo, cansaço...".
Talvez não sejam todos assim. Mas é essa a imagem e a sensação que tenho quando penso neste mundo. Sim há o verde, os montes, o azul, os rios... há o riso, o sorriso... Há quem os procure? Agora, talvez mais. Porque eu acredito que cada vez mais pessoas se apercebem o que está a acontecer ao planeta. Mais e mais pessoas se apercebem e sentem que a cidade satura tudo em si e ao seu redor mais próximo. Tentam, agora, uma forma de evasão da agitação diária. Eu que ainda sou jovem e não sofro dum mal desses ainda muito grande (penso eu), sinto necessidade de respirar. Assim, o ar puro, que por vezes, posso sentir em Esposende. Perto da praia, da maresia, da brisa fresca... é tudo tão suave e tão bom...
Talvez esteja a divagar demasiado, mas a verdade é que sinto saudades de sentir. Sinto-me anestesiada pela cidade (que até é pequena). Precisava de algum espécie de meditação, descanso, sorriso puros e suaves como quem fica alegre alheadamente...
Todo este discurso... que não sei adjectivar, para apelar à sensibilidade de quem me lê e da minha própria. Nós somos Natureza, mas parece que tentamos rasgar o nosso cordão umbilical, ferindo o que eu considero a origem. Já são tão notáveis os danos que fizemos ao longo de séculos. Os ventos zangam-se, as águas agitam-se, a terra treme, as estações confundem-se... Não sentem? Contudo, nunca é tarde demais para nos preocuparmos e agirmos. Tentemos...
sábado, abril 02, 2005
Tentativa falhada
Hoje quero ser escritora
Assim na noite calada
Que não é tão calada assim
Envolvida na música de piano
Tentando alhear-me ao ritmo da casa
Tento penetrar no mundo das palavras
É como adormecer
E acordar noutra dimensão:
A dimensão palavrada
A passagem é difícil:
O adormecer demora
E o acordar pouco acontece
É preciso ser consciente
Não deixar fluir o espírito
Não sair do corpo pensante
As emoções não escrevem
Escrevem-se emoções
De mão rija e não solta
De pensamento pensado
Porque divagado é sentido
Alia-se às emoções
Quero que esse repouse
No canto ameno do sono
Envolvido na névoa sentida
Porque não quero mais aquelas
Aquelas palavras descoordenadas
Sem nexo, com emoção em demasia
Enjoei, cansei e desisti
Porque queria ser escritora
À noite quando desperta o coração
Assim na noite calada
Que não é tão calada assim
Envolvida na música de piano
Tentando alhear-me ao ritmo da casa
Tento penetrar no mundo das palavras
É como adormecer
E acordar noutra dimensão:
A dimensão palavrada
A passagem é difícil:
O adormecer demora
E o acordar pouco acontece
É preciso ser consciente
Não deixar fluir o espírito
Não sair do corpo pensante
As emoções não escrevem
Escrevem-se emoções
De mão rija e não solta
De pensamento pensado
Porque divagado é sentido
Alia-se às emoções
Quero que esse repouse
No canto ameno do sono
Envolvido na névoa sentida
Porque não quero mais aquelas
Aquelas palavras descoordenadas
Sem nexo, com emoção em demasia
Enjoei, cansei e desisti
Porque queria ser escritora
À noite quando desperta o coração
sábado, março 26, 2005
Dejà vu
Julguei-te
E perdi-me
Na imensidão do teu olhar
Calei-te
E sofri
Com o teu silêncio prolongado
Engasguei-me
Comi palavras
E esqueci outras
Rodei
Sem preocupação
Insultei
Gritei
Desmedidamente
E fugi
Em mim
De mim
Tudo era eu
Não gostei
Mas fiz
Detestei
Mas repeti
E não te ouvi
E calei-te
E ousei julgar
Acusei-te
E não aceitei
As tuas palavras
Porque eram soltas
Porque magoavam
Esqueci
Beijei
E passei
Mas repeti...
Desculpa
É repetido
É cansativo
Mas a rua
O contacto
Tudo me droga lá fora
E perdi-me
Na imensidão do teu olhar
Calei-te
E sofri
Com o teu silêncio prolongado
Engasguei-me
Comi palavras
E esqueci outras
Rodei
Sem preocupação
Insultei
Gritei
Desmedidamente
E fugi
Em mim
De mim
Tudo era eu
Não gostei
Mas fiz
Detestei
Mas repeti
E não te ouvi
E calei-te
E ousei julgar
Acusei-te
E não aceitei
As tuas palavras
Porque eram soltas
Porque magoavam
Esqueci
Beijei
E passei
Mas repeti...
Desculpa
É repetido
É cansativo
Mas a rua
O contacto
Tudo me droga lá fora
Poetismo
Uma ideia que tive há pouco tempo levou-me à criação deste Blog. Poetismo... apenas isso, poesia e poetas; foi com esse fim que considerei criar outro Blog. Com a minha participação, de Lana, de O Empalador e de Perséfone, esperamos poder partilhar convosco, leitores de Blogs, a delícia que é a leitura da poesia que, na minha opinião, guarda consigo uma beleza própria. Espero que visitem e apreciem :)
sexta-feira, março 25, 2005
Noite de Luxúria
Hoje quero beijos!
Dói-me a garganta
Mas berro.
A água secou
E o sorriso abriu.
As portas abertas
Deixam a luz entrar.
Já me vês?
Sim!
Sim, sim, sim...
Estou aqui!
Berro, berro e berro.
De veste branca,
Transparente e suave
Me apresento a ti.
Eu sempre danço!
Vês-me? É só para ti!
Beija-me!
Agarra-me!
Leva-me!
Estou aqui!
Para ti!
Para ti!
Quero tanto,
Mas tanto
Sentir as tuas mãos.
Percorre-me...
Vá! Eu já deixo...
Sou para ti...
Só por hoje
Porque é noite de luxúria....
Dói-me a garganta
Mas berro.
A água secou
E o sorriso abriu.
As portas abertas
Deixam a luz entrar.
Já me vês?
Sim!
Sim, sim, sim...
Estou aqui!
Berro, berro e berro.
De veste branca,
Transparente e suave
Me apresento a ti.
Eu sempre danço!
Vês-me? É só para ti!
Beija-me!
Agarra-me!
Leva-me!
Estou aqui!
Para ti!
Para ti!
Quero tanto,
Mas tanto
Sentir as tuas mãos.
Percorre-me...
Vá! Eu já deixo...
Sou para ti...
Só por hoje
Porque é noite de luxúria....
segunda-feira, março 21, 2005
Só de emoção
Diz que me amas!
Não é bem isso que quero ouvir
Mas diz que gostas de mim!
Diz-lo com convicção
Diz-lo para eu acreditar
Diz-lo vezes sem conta
De maneiras diferentes
Faz-me crer que tu
Tu me amas
Não é amar
É gostar
Mas diz-mo!
Queria tanto ouvi-lo...
Não! Quero!
Agora, neste instante!
E é neste instante
Em que não estás
E é neste instante
Que preciso
E preciso tanto...
Mas são das palavras
Dessas letras coladas
Que tanto preciso?
Não sei...
Quero uma palavra
Que me beije
Beija-me!
Com ardor, paixão
Esquece o amor!
Não existe....
Ama-me de paixão
E esquece o sentimento
Ama-me só de emoção
E mais não peço
E mais nem sequer quero
Ama-me de emoção
E esquece o sentimento!
Não é bem isso que quero ouvir
Mas diz que gostas de mim!
Diz-lo com convicção
Diz-lo para eu acreditar
Diz-lo vezes sem conta
De maneiras diferentes
Faz-me crer que tu
Tu me amas
Não é amar
É gostar
Mas diz-mo!
Queria tanto ouvi-lo...
Não! Quero!
Agora, neste instante!
E é neste instante
Em que não estás
E é neste instante
Que preciso
E preciso tanto...
Mas são das palavras
Dessas letras coladas
Que tanto preciso?
Não sei...
Quero uma palavra
Que me beije
Beija-me!
Com ardor, paixão
Esquece o amor!
Não existe....
Ama-me de paixão
E esquece o sentimento
Ama-me só de emoção
E mais não peço
E mais nem sequer quero
Ama-me de emoção
E esquece o sentimento!
segunda-feira, março 14, 2005
Ego
Sabes quantas vezes quis chorar sem razão nenhuma? Quantas vezes tu não possas imaginar. Sabes que de todas essas vezes prendi o choro? E sabes porquê? Porque me senti ridícula por não ter razão. Porque sem motivo fico perdida, sem referências... Porque sem motivo o importante desaparece. Porque o motivo me faz pensar, indagar, sentir, acreditar. Porque tudo que possas imaginar para mim tem que ter razão ou deixo-o de parte na caixa onde vês "Por definir". E sabes que o pensar me causa dores de cabeça? Por isso me vês de mãos escondidas nos cabelos a tapar a cara e de olhos direccionados para o chão. E por isso me vês, por vezes, cerrar os lábios para não dizer o que penso. Mas tu sabes que o digo, não sabes? Claro que sim. Tu recriminas-me por isso. Não sei coser a boca e digo o que penso pelas palavras que não são doces de ouvir e digo-o duma forma bruta e arrogante. E sabes porquê? É simples de explicar, chama-se orgulho. Aquele sentimento do qual o ego se alimenta tão intensamente. O ego... esse bicho roedor do nosso coração que nos tenta sempre colocar num pedestal. Atencioso ele, não? Claro que não! Destrói-nos! Rasga-nos fazendo-nos acreditar que nos preenche. Traiçoeiro, isso sim! É esse mesmo ego que não me deixa chorar sem razão. Que me impede de deixar escorrer as mágoas do meu coração. É esse mesmo ego que se apresenta a ti e a todos. É ele que recriminas. Mas é a mim também, não é? Claro que sim. Eu deixo o meu ego tomar conta de mim, duma tal maneira que tudo o que uma vez vi junto de mim se vai afastando... Lá longe vejos os reflexos. Lá longe ouço as vozes distorcidas. Mas já nada entra aqui. A crosta formou-se forte e não parece mostrar fraquezas por onde um sopro, um suspiro doce possa espreitar e rachá-la.
A criança que fui chora na estrada...
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando Pessoa
[A lágrima quase espreitou mal li a primeira quadra. Adoro este poema! Diz-me tanto...]
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando Pessoa
[A lágrima quase espreitou mal li a primeira quadra. Adoro este poema! Diz-me tanto...]
domingo, março 13, 2005
Frase apropriada
"A minha vida não tem nexo
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim."
Ornatos Violeta - Débil Mental
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim."
Ornatos Violeta - Débil Mental
quarta-feira, março 02, 2005
Selvagismo do ser
Sou selvagem do meu mais profundo ser
A primitividade habita em mim
Sorrateira, duma estranha inteligência,
Como um pequeno engenho programado
Ao mínimo ruído mal captado desperta
Soltando ondas de calor e agitação
Percorrendo o caminho que se lhe depara
Até encontrar um meio de fuga
Escapando de uma matéria densa
Lança-se numa forte brusquidão
Como se de um sufoco apertado
Se tentasse libertar
Contorce-se e vocifera
Como se de mão atadas se encontrasse
Impossiblitada de atingir por actos
Necessitada de praguejar e gritar
Os olhos espelham cólera
E os lábios são mordidos
Por uma irritação profunda
Pela incapacidade de atingir
Mas eis que a fúria se acalma...
De imediato, toma conhecimento
Que as suas palavras foram fortes
Para atingirem e criarem danos
Em todo o seu maldito redor
Apercebe-se dos efeitos causados
E delicia-se com o caos provocado
Ri silenciosa e maliciosamente
E goza, agora, baixinho...
Satisfez os seus caprichos
Mesquinhos e maldosos
Fica completamente saciada
E não oferece resistência
Deixa-se engolir pela carne
De encontro ao seu antro
Pronta para hibernar levemente
Atenta a outra faísca atraente
“Deixo-te a ti as questões,
oh corpo inútil!”
Resmunga ela
Enquanto mergulha...
A primitividade habita em mim
Sorrateira, duma estranha inteligência,
Como um pequeno engenho programado
Ao mínimo ruído mal captado desperta
Soltando ondas de calor e agitação
Percorrendo o caminho que se lhe depara
Até encontrar um meio de fuga
Escapando de uma matéria densa
Lança-se numa forte brusquidão
Como se de um sufoco apertado
Se tentasse libertar
Contorce-se e vocifera
Como se de mão atadas se encontrasse
Impossiblitada de atingir por actos
Necessitada de praguejar e gritar
Os olhos espelham cólera
E os lábios são mordidos
Por uma irritação profunda
Pela incapacidade de atingir
Mas eis que a fúria se acalma...
De imediato, toma conhecimento
Que as suas palavras foram fortes
Para atingirem e criarem danos
Em todo o seu maldito redor
Apercebe-se dos efeitos causados
E delicia-se com o caos provocado
Ri silenciosa e maliciosamente
E goza, agora, baixinho...
Satisfez os seus caprichos
Mesquinhos e maldosos
Fica completamente saciada
E não oferece resistência
Deixa-se engolir pela carne
De encontro ao seu antro
Pronta para hibernar levemente
Atenta a outra faísca atraente
“Deixo-te a ti as questões,
oh corpo inútil!”
Resmunga ela
Enquanto mergulha...
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
No dia um
Está demasiado calmo para escrever,
Escrever da forma que o tenho feito:
Com todos aqueles lamentos,
Todas aquelas lágrimas engolidas,
Aquelas feridas abertas e aquela dor...
As palavras soam-me tão estranhas
Tão distantes, sem sentido...
Os meus dedos tentam alcançá-las
Porém, o esforço perde-se no ar
E os dedos acabam por desistir.
Não sei escrever palavras bonitas
Como aquelas que se gostam de ler
Ou aquelas que obrigam a repensar
Essas palavras não as encontro
Para paz interior e finais felizes,
Apenas para desespero da falta
Dessas emoções a atingir...
Ouço as gargalhadas dos que conversam,
O galope desenfreado da cadela...
01 de Janeiro de 2005
[Encontrava-me, nesta altura, numa aldeia ecológica. O ar era tão puro, o verde tão bonito, as montanhas inspiradoras e uma calma pairava em mim. O yoga, a dança e a meditação eram práticas correntes o que conferia uma paz (ainda que momentânea) de espiríto. Passei lá apenas uma noite e uma tarde, mas adorei a experiência. Foi, com certeza, a melhor passagem de ano que já tive oportunidade de experienciar.]
Escrever da forma que o tenho feito:
Com todos aqueles lamentos,
Todas aquelas lágrimas engolidas,
Aquelas feridas abertas e aquela dor...
As palavras soam-me tão estranhas
Tão distantes, sem sentido...
Os meus dedos tentam alcançá-las
Porém, o esforço perde-se no ar
E os dedos acabam por desistir.
Não sei escrever palavras bonitas
Como aquelas que se gostam de ler
Ou aquelas que obrigam a repensar
Essas palavras não as encontro
Para paz interior e finais felizes,
Apenas para desespero da falta
Dessas emoções a atingir...
Ouço as gargalhadas dos que conversam,
O galope desenfreado da cadela...
01 de Janeiro de 2005
[Encontrava-me, nesta altura, numa aldeia ecológica. O ar era tão puro, o verde tão bonito, as montanhas inspiradoras e uma calma pairava em mim. O yoga, a dança e a meditação eram práticas correntes o que conferia uma paz (ainda que momentânea) de espiríto. Passei lá apenas uma noite e uma tarde, mas adorei a experiência. Foi, com certeza, a melhor passagem de ano que já tive oportunidade de experienciar.]
domingo, fevereiro 27, 2005
The Chains of Our Mind
It seems what makes us happy
Is what we wanted to have
It seems our present happiness
Has its place in the past
It seems we don’t seek the future
But we regret what it’s gone
And we don’t live the present
Trapped with all these thoughts
We go round and round…
Staying always in the same place
We don’t seem to find a way
To get free from these chains
16th January 2005
Is what we wanted to have
It seems our present happiness
Has its place in the past
It seems we don’t seek the future
But we regret what it’s gone
And we don’t live the present
Trapped with all these thoughts
We go round and round…
Staying always in the same place
We don’t seem to find a way
To get free from these chains
16th January 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Afastamento
Já não sabes disfarçar que a minha presença te incomoda, que a minha imagem fere os teus olhos. Já não sabes disfarçar... Eu vejo na tua cara o desgosto quando me aproximo, as tuas expressões e os teus olhares confirmam os receios que sempre tive. Os receios que nunca me abandonaram porque me sentia insegura face ao que se passava. Foi tudo tão rápido e tão intenso que nunca julguei que durasse por muito tempo. Tudo o que nos era comum parecia ilusão; todos os olhares amáveis que substituiam as palavras, todos os sons desencadeados que formavam conversas... Nesse espaço de tempo senti-me intimimamente ligada a ti, julguei ter encontrado alguém com quem um simples gesto bastava, alguém com os mesmos gostos e ideias, com as mesmas paixões e com necessidades semelhantes... Mas o tempo passou... e os meus receios realizaram-se, os meus receios realizaram-se! Naquela alegria, tantas vezes eufórica, senti-me bem, compreendida e arrisco-me a dizer amada, mas o mundo fora desse circuito continuava e tu e eu viviamos nele, mas nele eu não quis continuar... sentia-me receosa de continuar num mundo com o qual nunca me identifiquei tanto como contigo. Mas tu tinhas uma vida nesse mundo e, muitas vezes, tentei seguir-te, caminhar contigo, integrar-me, mas sempre me senti uma intrusa, uma desconhecida... Era o teu mundo não o meu, um mundo há muito construido por ti e no qual nunca tinha existido. Era tão difícil sentir-me parte dele. Até que cometi um erro. Quando me tentei ligar a outra pessoa, quando julguei que o tempo nos ajuda a gostar, mas afinal... Esse tempo causou problemas e, penso que foi nessa altura que tudo se quebrou. Quando senti vergonha de falar com um olhar, quando já pouco me contavas, quando te senti a afastar. Foi apenas nessa altura que me senti cansada de variar o meu humor pelos teus, foi aí que senti que tu para mim agias de outra forma. Senti-me triste... os meus receios apoderavam-se, agora, de mim com uma força extraordinária. As minhas emoções para contigo começaram a variar a um ritmo muito acelerado e, então, calei-me e afastei-me. Esperei, sinceramente, que sentisses a minha falta e viesses ter comigo e esse foi outro dos meus erros. Não tinha o direito de esperar tal coisa. Mas eu quis apenas uma prova... E, assim de repente, tudo o que se tinha passado entre nós pareceu-me um sonho muito longínquo. A nossa ligação quebrou-se como um vidro... rachou, aos poucos foram caindo pedaços, com o tempo foram calcados e agora já não são se vêem... estão enterrados no chão. Tento passar por cima e esquecer porque sei que nada jamais será igual... a mágoa profunda não deixa. Mas é tão difícil fazer de conta que nada se passou! É difícil tentar esquecer a única pessoa com quem mais me identifiquei. Por isso, espero tanto poder sair daqui e ir para um sítio longe onde as recordações não me visitem, onde tudo seja novo e onde possa começar, uma vez mais, do zero. É errado... mas o passado jamais tornará a ser presente e o futuro que se aproxima não traz a estrutura desse período que tanto amei. E deambulo, agora, por aqui e por ali esperando...
sábado, fevereiro 19, 2005
Por cobardia
Por vezes, quero tanto voar...! Levantar os pés, erguer o corpo e lançar-me à escuridão da noite, esperando ser agarrada pelos seus braços, esperando ser abraçada pelo bafo envolvente do seu ar. Quero sentir-me envolvida naquela névoa suave; quero ser aconchegada pelo poder do seu sopro. Quero sentir o frio gélido, que passeia no ar, gelar-me o nariz, moldar-me a cara e entrar, sorrateiramente, no meu corpo e quero ver o vapor sair da minha boca e desvanecer-se no céu escuro.
Quero sentir-me a voar de encontro às estrelas; de encontro aos chamados anjos. Quero ter o que parece ser uma utopia: a paz de espírito que fará com que possa dormir descansada. Sim... quero poder fechar os olhos sem receios, estender os braços e suspirar... Quero poder expôr-me ao mistério da noite sem medos. Quero ser assim, segura de mim, livre do mundo provocador e sentir-me em consonância com o mundo puro. Quero ter os olhos bem abertos para poder ver com sentimento o escuro que me rodeia; para poder ver a claridade, o brilho, a magia do negro cerrado.
Quero olhar o céu em noites de lua-cheia e uivar... rasgar a pele e arrancar os ossos com cuidado e expôr os meus pulmões ao mundo.
Por vezes, quero tanto gritar... Abrir a boca e soltar a voz até ficar rouca e sem força. Quero cantar e lançar o meu som aos cantos do mundo.
E por vezes, quero tanto rasgar-me...! Despir as roupas, arranhar a pele, sangrar, correr e escorregar... Quero partir os dedos dos pés, virar os dedos das mãos, abrir a boca até cortar os lábios, estender os tendões do pescoço até não poder mais... Quero tanto soltar-me...! Não existir aqui, neste corpo imundo que me causa nojo e desgosto; este corpo que parece não ajudar e só me desgasta, que me impede e me anestesia. Quero ser uma só e mais ninguém.
Tantas vezes quis entrar dentro de mim e procurar, percorrer, encontrar... mas em cada tentativa uma nova porta me barrava o caminho, uma nova janela se fechava e me deixava às escuras num mundo tão desconhecido. Então, por vezes, ousei desistir... Ousei deixar as portas fechadas e o interior abafado. Ousei desistir porque não conseguia ver a luz... Quis a facilidade e não tive forças para continuar. Não quis percorrer o escuro com receio e acabei por barrar a entrada em mim. Tive medo; medo do que não via, do que não sabia e voltei para trás, tentando esquecer que um dia tentei, para que não vivesse com a memória dum falhanço. Não queria admitir o maior erro. Quis escondê-lo por detrás do sorriso e dos gestos amistosos, tentei ignorar a escuridão pensando que aquela porta não seria necessária aberta e enclausurei, então, o meu ser naquele mundo frio e dum negro pesado que me turva a mente. Desisti, porque a cobardia, uma vez mais, se revelou em mim. Sou cobarde e o peso da preguiça faz-me rastejar nestes chãos sujos que vomito... Ah! Como pude pensar que seria fácil? Como pude fechar-me por dentro e pensar que seria a melhor maneira? Que seria a melhor maneira, deixar-me às escuras e ir viver para um mundo de falsas luzes e enganos constantes... Como pude ser tão enganada por mim? Eu sei e talvez sempre soubesse que o meu ser definhava dentro das portas que construi em mim. Eu sei e sempre soube que teria que lidar com a sua tristeza, mais cedo ou mais tarde. Contudo, também sei que lido com ele todos os dias... De cada vez que solto um som mais forte, de cada vez que escrevo uma palavra, que crio poemas e relatos de mim... de cada vez que amuo quando o orgulho se sobrepõe. Sem me aperceber, deixo fugir um pouco do meu ser de dentro de mim a cada instante, a cada risada, a cada olhar, por mais que o tente desviar... Sei que sou sem querer e também sei que o que sou é, muitas vezes, as palavras rudes, o fugir de um gesto afectuoso, o refugiar-me na distância. Sei que, talvez, possa ser presente pela minha ausência ou pela minha euforia estranha. Sou uma antítese aos olhos do mundo e aos meus olhos. Em suma, mostro o meu ser a todos a todo o momento... todavia, a subtileza desse mostrar pode-se desvanecer na brisa do dia. Por isso, anseio as noites. Anseio o escuro porque sei que é dele que fujo, porque sei que é ele que tenho de enfrentar. Tento formar a coragem à medida que sinto o momento chegar... mas, por todas as vezes, vou dormir mais cedo deixando a batalha para outra noite. Vou descansar o corpo, esperando amassar a memória de outra noite de derrota por ausência. Tento esconder-me no sono e perder-me nos sonhos de um mundo alheio e tão meu. Por isso, custa o acordar... Não! Não quero levantar-me e esperar por outro momento de luta que sei que nunca conseguirei vencer.
Quero sentir-me a voar de encontro às estrelas; de encontro aos chamados anjos. Quero ter o que parece ser uma utopia: a paz de espírito que fará com que possa dormir descansada. Sim... quero poder fechar os olhos sem receios, estender os braços e suspirar... Quero poder expôr-me ao mistério da noite sem medos. Quero ser assim, segura de mim, livre do mundo provocador e sentir-me em consonância com o mundo puro. Quero ter os olhos bem abertos para poder ver com sentimento o escuro que me rodeia; para poder ver a claridade, o brilho, a magia do negro cerrado.
Quero olhar o céu em noites de lua-cheia e uivar... rasgar a pele e arrancar os ossos com cuidado e expôr os meus pulmões ao mundo.
Por vezes, quero tanto gritar... Abrir a boca e soltar a voz até ficar rouca e sem força. Quero cantar e lançar o meu som aos cantos do mundo.
E por vezes, quero tanto rasgar-me...! Despir as roupas, arranhar a pele, sangrar, correr e escorregar... Quero partir os dedos dos pés, virar os dedos das mãos, abrir a boca até cortar os lábios, estender os tendões do pescoço até não poder mais... Quero tanto soltar-me...! Não existir aqui, neste corpo imundo que me causa nojo e desgosto; este corpo que parece não ajudar e só me desgasta, que me impede e me anestesia. Quero ser uma só e mais ninguém.
Tantas vezes quis entrar dentro de mim e procurar, percorrer, encontrar... mas em cada tentativa uma nova porta me barrava o caminho, uma nova janela se fechava e me deixava às escuras num mundo tão desconhecido. Então, por vezes, ousei desistir... Ousei deixar as portas fechadas e o interior abafado. Ousei desistir porque não conseguia ver a luz... Quis a facilidade e não tive forças para continuar. Não quis percorrer o escuro com receio e acabei por barrar a entrada em mim. Tive medo; medo do que não via, do que não sabia e voltei para trás, tentando esquecer que um dia tentei, para que não vivesse com a memória dum falhanço. Não queria admitir o maior erro. Quis escondê-lo por detrás do sorriso e dos gestos amistosos, tentei ignorar a escuridão pensando que aquela porta não seria necessária aberta e enclausurei, então, o meu ser naquele mundo frio e dum negro pesado que me turva a mente. Desisti, porque a cobardia, uma vez mais, se revelou em mim. Sou cobarde e o peso da preguiça faz-me rastejar nestes chãos sujos que vomito... Ah! Como pude pensar que seria fácil? Como pude fechar-me por dentro e pensar que seria a melhor maneira? Que seria a melhor maneira, deixar-me às escuras e ir viver para um mundo de falsas luzes e enganos constantes... Como pude ser tão enganada por mim? Eu sei e talvez sempre soubesse que o meu ser definhava dentro das portas que construi em mim. Eu sei e sempre soube que teria que lidar com a sua tristeza, mais cedo ou mais tarde. Contudo, também sei que lido com ele todos os dias... De cada vez que solto um som mais forte, de cada vez que escrevo uma palavra, que crio poemas e relatos de mim... de cada vez que amuo quando o orgulho se sobrepõe. Sem me aperceber, deixo fugir um pouco do meu ser de dentro de mim a cada instante, a cada risada, a cada olhar, por mais que o tente desviar... Sei que sou sem querer e também sei que o que sou é, muitas vezes, as palavras rudes, o fugir de um gesto afectuoso, o refugiar-me na distância. Sei que, talvez, possa ser presente pela minha ausência ou pela minha euforia estranha. Sou uma antítese aos olhos do mundo e aos meus olhos. Em suma, mostro o meu ser a todos a todo o momento... todavia, a subtileza desse mostrar pode-se desvanecer na brisa do dia. Por isso, anseio as noites. Anseio o escuro porque sei que é dele que fujo, porque sei que é ele que tenho de enfrentar. Tento formar a coragem à medida que sinto o momento chegar... mas, por todas as vezes, vou dormir mais cedo deixando a batalha para outra noite. Vou descansar o corpo, esperando amassar a memória de outra noite de derrota por ausência. Tento esconder-me no sono e perder-me nos sonhos de um mundo alheio e tão meu. Por isso, custa o acordar... Não! Não quero levantar-me e esperar por outro momento de luta que sei que nunca conseguirei vencer.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
Hurt
I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
I wear my crown of shit
On my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stain of time
The feeling disappears
You are someone else
I am still right here
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way
Nine Inch Nails
Resolvi fazer post desta música porque a adoro. Tem uma letra fenomenal, muito tocante e sentida, bem como a melodia que é bastante calma e nos embala nos sons e nas palavras.
Aproveito também para dedicar este post à pessoa que me deu a conhecer a música que, por sua vez, também gosta muito dela. Na minha opinião, e ainda não confrontei a pessoa com esta, a letra da música tem muito a ver com o seu ser; a ideia contida é muito semelhante aos seus pensamentos e certos versos são semelhantes a frases que outrora disse numa das nossas conversas alargadas.
Apercebi-me desse facto há pouco enquanto me deixava levar pela música e achei necessário mostrar-to, duma forma personalizada, devo dizer :)
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
I wear my crown of shit
On my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stain of time
The feeling disappears
You are someone else
I am still right here
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way
Nine Inch Nails
Resolvi fazer post desta música porque a adoro. Tem uma letra fenomenal, muito tocante e sentida, bem como a melodia que é bastante calma e nos embala nos sons e nas palavras.
Aproveito também para dedicar este post à pessoa que me deu a conhecer a música que, por sua vez, também gosta muito dela. Na minha opinião, e ainda não confrontei a pessoa com esta, a letra da música tem muito a ver com o seu ser; a ideia contida é muito semelhante aos seus pensamentos e certos versos são semelhantes a frases que outrora disse numa das nossas conversas alargadas.
Apercebi-me desse facto há pouco enquanto me deixava levar pela música e achei necessário mostrar-to, duma forma personalizada, devo dizer :)
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Assim
Tenho saudades de escrever como já não me lembrava, mas sinto que as minhas mãos estão magoadas, frágeis e sem forças. A minha cabeça pesa-me e não consigo pensar com clareza. Os sentimentos formam nós que me apertam o coração. O meu coração que é frio e duro como uma rocha, aquele a quem nunca ninguém tem acesso e, portanto, do qual nada sabem. O meu coração é assim... pequeno, gélido e só... Pequeno porque o aperto com as amarras da repugnância do emocional; gélido porque não permito em tempo algum que um raio de luz ou uma onda de calor nele penetre; só porque os outros não fazem nem nunca farão parte dele. É assim, sobrevivente da minha malícia, esquartejado pelas minhas próprias mãos, sufocado pelo aperto de não querer sentir... Eu sou o meu coração. Aquela que não se dá nem deixa que lhe deêm. A que sorri com vontade na presença dos outros, mas chora sozinha no seu canto. Aquela que tem vergonha das suas lágrimas e engole-as com o desgosto num sufoco. A que fica com o sabor amargo na boca das palavras mal ditas, a quem dói os ouvidos por não saber escutar, a que se revolta por não saber compreender. Esta sou eu. A distante, a ausente, a rapariga dos sorrisos frios, das mãos gélidas e dos olhos grandes e baços... Os olhos que já não são janelas para o interior, mas vidros embaciados por entre os quais nada é visível. Sou a rapariga da euforia da rua e da tristeza do quarto fechado. O que sinto está enterrado em mim e nas minhas palavras. Os meus textos são o ponto de luz na escuridão da minha própria incompreensão. São a minha libertação do sufoco das lágrimas secas e dos sorrisos apagados... São o guindaste amável que afasta o peso da minha cabeça. São as mãos delicadas de um ninguém que me massaja os ombros e a face. São a brisa morna de Verão que me oferece uma calma momentânea. Os meus textos são a fonte de serenidade que resta em mim. Deixo nas palavras rudes e desencadeadas o sentimento recalcado do meu coração. Transfiro o meu sofrimento para os textos para sentir o meu próprio alívio. Deixo a vós, palavras, a linha que cose o meu coração, o fogo que queima as minhas mãos, as lágrimas ácidas que corroem os meus olhos, a amargura que me resseque os pulmões e a secura que me empasta a boca. Deixo-vos os meus gritos para que me dêm o silêncio e deixo-vos o meu ser agitado para que eu possa dormir sem pressaltos.
Deixem-me...

Raquel (olhares.com)
Deixem-me porque eu quero o silêncio que nunca existe... Deixem-me porque eu quero o que não me podem dar... Deixem-me porque eu sou uma antítese e causo danos em meu redor... Deixem-me porque sou rude, revoltada e sem mão nos meus actos... Deixem-me porque não quero ser responsável... Deixem-me porque me sinto morta, presa ao chão e lá quero ficar... Deixem-me porque eu sei que assim não vos perturbo mais...
07 de Dezembro de 2004
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Mergulhar
Sustenho a respiração
E mergulho...
Cansei-me do calor.
Quero algo fresco...
Preciso despertar!
Estendo os braços
E puxo-os para trás
Com toda a força que tenho.
Bato os pés energicamente
Para sentir os ossos estalar.
Preciso esticar o corpo.
Fecho os olhos
E deixo-me deslizar...
Sinto a agua fria
Moldar a minha cara.
Ah...! Arrefeço...
Encolho-me...
E deixo-me rolar
Ao sabor da àgua.
Sinto um turbilhão de sensações
Percorrer todo o meu corpo.
Mil imagens correm na minha mente.
Ah...! Sinto-me viva.
A frescura trespassa o corpo
E toca-me o espírito.
Agora posso sorrir...
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Alguns Blogs
Estes são alguns Blogs que aconselho a visitar. Devo confessar que não os visito com muita frequência apesar de gostar muito de os ler, enfim... contradições minhas.
http://mysoulpieces.blogspot.com
http://tadenoite.blogspot.com
http://caminhadaspelovazio.blogspot.com
http://necrosophia.blogspot.com
http://segundoimpacto.blogspot.com
http://mysoulpieces.blogspot.com
http://tadenoite.blogspot.com
http://caminhadaspelovazio.blogspot.com
http://necrosophia.blogspot.com
http://segundoimpacto.blogspot.com
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Despreendimento
Hoje vou tentar escrever algo feliz
Algo com um sabor doce e uma cor alegre
Deixo para trás, por hoje, o preto e branco
Deixo para trás lamúrios, choros e gritos
Esboço um sorriso para que seja mais fácil
Respiro fundo para sentir o que me rodeia
Fecho os olhos e inclino a cabeça para trás
Tento relaxar deste stress diário fatigante
Agora estou pronta para começar a escrita
Mas não sei o que sinto nem o que penso
Que posso eu escrever com esta indefinição?
Tento recordar... esforço-me por relembrar!
Um cheiro morno passa por meu nariz
Um sol quente aquece a minha face branca
Sinto-me a ganhar cor e a ficar com calor
Dispo instintivamente o casaquinho que trago
Sinto a brisa que brincava com meus cabelos
E, agora, vejo o verde da relva nos meus pés
Estou descalça e ela é macia e faz cócegas
E as flores dão cor a esta tela de sensações
Decido sentar-me nesta almofada natural
Banhada por esta luz suave e, agora, morna
Fecho os olhos, mole por todo este descanso
Passo os dedos pelas pétalas e pela relva
Sinto-me a subir...levada pela brisa morna
Deitada, com a cabeça nos braços recolhidos
Abro os olhos e vejo as nuvens de algodão
Sinto-me calma naquela imensa suavidade
Sinto-me a pairar sem o peso do corpo
Que fui obrigada a carregar quando nasci
Sinto-me, então, leve e livre de tentações
Deixo-me ir por onde me leva esta brisa
Não quero descer, não quero voltar
A terra já acho que conheço demasiado
O pó que me cega e me sufoca deixo-o lá
Lá em baixo onde a carne ficou sem mim
Agora sou só eu aqui neste ar diferente
Respiro um ar puro que nunca respirei
Não preciso beliscar-me, nem tocar-me
Sei que sou... Não é sonho...
Por isso, não receio acordar para a terra
Sei que estou desperta, mais que nunca
A anestesia do corpo deixei-a para trás
Sinto, agora, o despertar do espírito
Quero ir...
Não receio deixar tudo para trás
O mundo material em que vivi
O que me importa vem comigo
Vem em mim, faz parte de mim
Agora vou...
Algo com um sabor doce e uma cor alegre
Deixo para trás, por hoje, o preto e branco
Deixo para trás lamúrios, choros e gritos
Esboço um sorriso para que seja mais fácil
Respiro fundo para sentir o que me rodeia
Fecho os olhos e inclino a cabeça para trás
Tento relaxar deste stress diário fatigante
Agora estou pronta para começar a escrita
Mas não sei o que sinto nem o que penso
Que posso eu escrever com esta indefinição?
Tento recordar... esforço-me por relembrar!
Um cheiro morno passa por meu nariz
Um sol quente aquece a minha face branca
Sinto-me a ganhar cor e a ficar com calor
Dispo instintivamente o casaquinho que trago
Sinto a brisa que brincava com meus cabelos
E, agora, vejo o verde da relva nos meus pés
Estou descalça e ela é macia e faz cócegas
E as flores dão cor a esta tela de sensações
Decido sentar-me nesta almofada natural
Banhada por esta luz suave e, agora, morna
Fecho os olhos, mole por todo este descanso
Passo os dedos pelas pétalas e pela relva
Sinto-me a subir...levada pela brisa morna
Deitada, com a cabeça nos braços recolhidos
Abro os olhos e vejo as nuvens de algodão
Sinto-me calma naquela imensa suavidade
Sinto-me a pairar sem o peso do corpo
Que fui obrigada a carregar quando nasci
Sinto-me, então, leve e livre de tentações
Deixo-me ir por onde me leva esta brisa
Não quero descer, não quero voltar
A terra já acho que conheço demasiado
O pó que me cega e me sufoca deixo-o lá
Lá em baixo onde a carne ficou sem mim
Agora sou só eu aqui neste ar diferente
Respiro um ar puro que nunca respirei
Não preciso beliscar-me, nem tocar-me
Sei que sou... Não é sonho...
Por isso, não receio acordar para a terra
Sei que estou desperta, mais que nunca
A anestesia do corpo deixei-a para trás
Sinto, agora, o despertar do espírito
Quero ir...
Não receio deixar tudo para trás
O mundo material em que vivi
O que me importa vem comigo
Vem em mim, faz parte de mim
Agora vou...
quinta-feira, janeiro 20, 2005
Chiu...

Lina Maria (olhares.com)
Quero só deitar-me na cama ou no chão e ficar... no meu silêncio, sem ouvir a respiração de mais ninguém a não ser a minha... a minha respiração lenta e pausada. Quero sentir-me e ouvir-me... Quero estudar-me e compreender-me. Quero ficar aqui... no escuro, no silêncio da minha alma inquieta, na minha paz... Não sei ao certo o que procuro, mas sei que o faço. Talvez queira encontrar a ternura do meu ser... Mas... querer-me-ei ver... verdadeiramente? Não sei... mas, para já, sei que quero silêncio, escuro e apenas eu.
terça-feira, janeiro 18, 2005
Incapacity
I try to express my thoughts
But I usually fail
I mix the words
And I find no trail
Then I try not to think
And just try to feel
To write the words
That can make me heal
But in this path
Foggy and uncertain
I find my wounds
Open, breathing pain
And so I just quit
Tired of this confusion
I leave my bruises
To a better surgeon
2nd January 2005
P.S. Prefiro o português para me exprimir, no entanto, decidi fazer post deste poema porque foi o primeiro que fiz em inglês.
But I usually fail
I mix the words
And I find no trail
Then I try not to think
And just try to feel
To write the words
That can make me heal
But in this path
Foggy and uncertain
I find my wounds
Open, breathing pain
And so I just quit
Tired of this confusion
I leave my bruises
To a better surgeon
2nd January 2005
P.S. Prefiro o português para me exprimir, no entanto, decidi fazer post deste poema porque foi o primeiro que fiz em inglês.
terça-feira, janeiro 11, 2005
MA
"Don't drag me down
Just because you're down
And just cause you're blue
Don't make me too(...)"
Massive Attack - Better Things
Just because you're down
And just cause you're blue
Don't make me too(...)"
Massive Attack - Better Things
segunda-feira, janeiro 10, 2005
Caminho
Há em mim um sufoco
Um desespero calado
Um caminho oco
Enfim, apagado...
Um destino sem traço
Com pés descalços
Um caminho sem passo
Por tantos precalços
Um medo envolvente
Tão medonho, tão frio
Tão temido, tão presente
Tão gélido como é o rio
E, assim me envolve
Num fechar cerrado
Que, por vezes, volve
O que não devia ser encontrado
Um desespero calado
Um caminho oco
Enfim, apagado...
Um destino sem traço
Com pés descalços
Um caminho sem passo
Por tantos precalços
Um medo envolvente
Tão medonho, tão frio
Tão temido, tão presente
Tão gélido como é o rio
E, assim me envolve
Num fechar cerrado
Que, por vezes, volve
O que não devia ser encontrado
25 de Novembro de 2004
Este poema ainda é do tempo em que escrevia poesia, por vezes, exageradamente. Não sei porque ficou guardado. Já não me lembro da altura em que o escrevi, mas sei que continua a aplicar-se a este presente. Não sei que mais dele dizer... saiu-me assim e assim ficou. Enfim... as palavras foram ditas.
És aborrecida!
Estou demasiado cansada para escrever algo decente. Mas houve um certo alguém que me despertou para tal e eu fiquei em bicos de pés. Conhecem a sensação? Aquela em que não conseguem pensar em muito mais a não ser em equilibrarem-se; não estão com os pés bem assentes no chão para raciocinarem nem com eles completamente no ar, a flutuarem, para deixar fluir as emoções. Pois bem, estou nesse impasse, a tentar decifrar se quero escrever ou não. Bem... com papel e caneta à minha frente a vontade aparece sempre; a questão é se eu serei capaz de fazer uso desses instrumentos que tanto valor têm para mim. Ah... e mais uma vez esta questão importuna-me. Tantas e tantas vezes já lhe dei o papel principal nos meus textos, mas não há maneira de se cansar dessa posição; sempre que penso em escrever, lá vem ela (contente da vida) para me pedir , ou exigir, um pouco mais de fama.
- Não te cansas que eu diga sempre o mesmo , ainda que por variadas palavras, acerca da tua pessoa?
É aborrecido, devo confessar. por vezes, ocorrem-me tantos (e diversos) temas e quando os tento escrever, lá vem ela intrometer-se. Parece que é apenas ela o infortúnio da minha vida, a questão de fundo dos meus problemas.
- Ah! como tu consegues aborrecer-me (até) quando me encontro em dias de sossego e sorrisos de aguarelas. Podias descansar um pouco (de preferência quando eu fosse escrever). Fazia-te a cama se necessário, desde que me deixasses na minha paz. E por tanto me importunares perco-me no raciocínio. Sei que ia escrever sobre um assunto que me anda a assolar, mas tu agora tiraste-me a vontade. Arre! Que o vento te leve.
- Não te cansas que eu diga sempre o mesmo , ainda que por variadas palavras, acerca da tua pessoa?
É aborrecido, devo confessar. por vezes, ocorrem-me tantos (e diversos) temas e quando os tento escrever, lá vem ela intrometer-se. Parece que é apenas ela o infortúnio da minha vida, a questão de fundo dos meus problemas.
- Ah! como tu consegues aborrecer-me (até) quando me encontro em dias de sossego e sorrisos de aguarelas. Podias descansar um pouco (de preferência quando eu fosse escrever). Fazia-te a cama se necessário, desde que me deixasses na minha paz. E por tanto me importunares perco-me no raciocínio. Sei que ia escrever sobre um assunto que me anda a assolar, mas tu agora tiraste-me a vontade. Arre! Que o vento te leve.
terça-feira, janeiro 04, 2005
"Nota ao acaso"
"O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história de Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam.
(...)
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas - tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassilábicos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo."
Álvaro de Campos (1935?)
Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história de Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam.
(...)
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas - tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassilábicos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo."
Álvaro de Campos (1935?)
Citação
"Conheceram-me logo pelo que eu não era e eu não desmenti e perdi-me. Quando quis tirar a máscara estava colada à pele."
Álvaro de Campos
Álvaro de Campos
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Em meu peito
Percorro o peito com os dedos...
Levo-os à boca e recordo
Aqueles doces momentos
Que me deixaram marcada
Neste peito que acaricio
Neste peito que palpita
Quando recordo, revivo...
Mas também é este peito que arde
É este peito que dói sem noção
Este peito que dá vontade de rasgar
De abrir, expôr, libertar...
É este peito que arde
Quando as palavras não fartam
Quando as imagens cansam
Quando tudo fica preso
Quando tudo explode e não se vê
É neste peito...
Que o invisível ocorre
Que o inexplicável surge
É este peito...
Que a dor abraça.
Levo-os à boca e recordo
Aqueles doces momentos
Que me deixaram marcada
Neste peito que acaricio
Neste peito que palpita
Quando recordo, revivo...
Mas também é este peito que arde
É este peito que dói sem noção
Este peito que dá vontade de rasgar
De abrir, expôr, libertar...
É este peito que arde
Quando as palavras não fartam
Quando as imagens cansam
Quando tudo fica preso
Quando tudo explode e não se vê
É neste peito...
Que o invisível ocorre
Que o inexplicável surge
É este peito...
Que a dor abraça.
segunda-feira, dezembro 27, 2004
Agonia poética
Eu sinto-a bem perto de mim.
Desenha-me sorrisos nos lábios.
Deixa um brilho em meus olhos.
Eu sinto-a...
Mas não a sei...
Como assim?
Sinto os nós a formarem-se
"Como assim?" pergunto
Saber... O que há para saber?
Ai! Os pensamentos que vêm
E logo partem
E me deixam de rastos
Junto com as emoções
Que não sei
Mas que sinto...
Ai! Porquê escrever assim?
Porquê desta forma
E não daquela que ocupa as linhas?
Só vejo o branco...
Gemo em silêncio
As mãos anseiam por se contorcerem
A cabeça por se lançar para trás
Os olhos por fecharem
Os dentes por rangerem
Tão fortemente, com vontade de partir
Ai! Esta agonia que me parte
Não me mata
Porque morte de poeta não dói
O que dói é o que o agonia
As dores de pensamento
A paragem que a mão decide fazer
As dores dos ossos e dos músculos
Os lábios que anseiam ser trincados
Ai! Morte de poeta só existe
Naquelas letras que se formam
Para aliviar a dor
Para sujeitar o poeta ao papel
À tinta, à mão, aos olhares
As letras matam o poeta
Porque são arma perfeita
Contra a imperfeição da mão
A mão que dói quando escreve
A mão que não escreve
Porque não sabe
A mão que não se liga ao coração
E só obedece à mente
Ao raciocínio que mata o poeta
O poeta morre pelas mesmas mãos
Que julga poder usufruir
Para aliviar o seu sofrimento
O poeta morre...
Sem querer
Por não saber
E por sentir.
Desenha-me sorrisos nos lábios.
Deixa um brilho em meus olhos.
Eu sinto-a...
Mas não a sei...
Como assim?
Sinto os nós a formarem-se
"Como assim?" pergunto
Saber... O que há para saber?
Ai! Os pensamentos que vêm
E logo partem
E me deixam de rastos
Junto com as emoções
Que não sei
Mas que sinto...
Ai! Porquê escrever assim?
Porquê desta forma
E não daquela que ocupa as linhas?
Só vejo o branco...
Gemo em silêncio
As mãos anseiam por se contorcerem
A cabeça por se lançar para trás
Os olhos por fecharem
Os dentes por rangerem
Tão fortemente, com vontade de partir
Ai! Esta agonia que me parte
Não me mata
Porque morte de poeta não dói
O que dói é o que o agonia
As dores de pensamento
A paragem que a mão decide fazer
As dores dos ossos e dos músculos
Os lábios que anseiam ser trincados
Ai! Morte de poeta só existe
Naquelas letras que se formam
Para aliviar a dor
Para sujeitar o poeta ao papel
À tinta, à mão, aos olhares
As letras matam o poeta
Porque são arma perfeita
Contra a imperfeição da mão
A mão que dói quando escreve
A mão que não escreve
Porque não sabe
A mão que não se liga ao coração
E só obedece à mente
Ao raciocínio que mata o poeta
O poeta morre pelas mesmas mãos
Que julga poder usufruir
Para aliviar o seu sofrimento
O poeta morre...
Sem querer
Por não saber
E por sentir.
domingo, dezembro 26, 2004
Impedimento
Sinto o nó percorrer o peito e alojar-se na garganta com vontade de criar raízes. Sinto a mão parar para pensar e esperar para escrever.
É tão triste este cenário... Os olhos e a boca descaem e as sobrancelhas franzem. Sinto um novo nó. Desta vez, no estômago. Não sei se grito ou se choro. Sinto-me tão frustrada, irritada, desapontada comigo mesma. Parece que fui decapitada e de mãos cortadas para ser castigada por um crime anónimo e desconhecido. Quero lhes bater. Sim! As minhas mãos anseiam por apertar um pescoço e com as unhas rasgar a pele, arranhar, cortar, desfazer... A amabilidade do meu olhar evapora-se como uma gota de água num deserto abraçado pelo calor infernal. Os meus dedos abrem e fecham esperando encontrar algo para esmagar. Sinto uma vontade incontrolável de morder. Os meus lábios começam a sangrar de tanto os roer e consigo ouvir o roçar dos dentes com vontade de rachar. A fúria eleva o meu corpo, agita-o. Sinto como se me amarrassem os braços com tanta força que até os meus ossos gemem; sinto-me a ser agitada por mãos frias, fortes que amarram, arranham, prendem; sinto as unhas fincarem a carne dos meus fracos braços... Caio abandonada, gelada e moribunda. Sinto, agora, o cheiro da dor, do sangue que escorre nas minhas vestes e acaricia a minha pele. Levo as mãos ensanguentadas aos lábios e saboreio o sabor metálico daquele líquido vermelho que teima em sair do meu corpo. Dói-me o peito e os braços já nem os sinto. Mas o peito começa-me a arder... Dói, dói, dói! Sinto-me a queimar por dentro... As lágrimas caem, agora, como forma de fuga daquele fogo interior. O meu corpo atraiçoa-me... de tal maneira, que desejo separar-me dele; desejo afastar-me e ser livre. Libertar-me daquela jaula que se mata e me impede; de transbordar emoções, de proferir sons, de escrever palavras. Aquela jaula que me impede de me exprimir, que me apresenta obstáculos que me levam à loucura, ao masoquismo; porque sim! São minhas as mãos gélidas que me agitam e me rasgam, vem de mim o sofrimento de que tanto me lamento, vem de mim a estupidez de não saber escrever o que mais quero... Sim! Vem de mim a deficiência e não do corpo.
É tão triste este cenário... Os olhos e a boca descaem e as sobrancelhas franzem. Sinto um novo nó. Desta vez, no estômago. Não sei se grito ou se choro. Sinto-me tão frustrada, irritada, desapontada comigo mesma. Parece que fui decapitada e de mãos cortadas para ser castigada por um crime anónimo e desconhecido. Quero lhes bater. Sim! As minhas mãos anseiam por apertar um pescoço e com as unhas rasgar a pele, arranhar, cortar, desfazer... A amabilidade do meu olhar evapora-se como uma gota de água num deserto abraçado pelo calor infernal. Os meus dedos abrem e fecham esperando encontrar algo para esmagar. Sinto uma vontade incontrolável de morder. Os meus lábios começam a sangrar de tanto os roer e consigo ouvir o roçar dos dentes com vontade de rachar. A fúria eleva o meu corpo, agita-o. Sinto como se me amarrassem os braços com tanta força que até os meus ossos gemem; sinto-me a ser agitada por mãos frias, fortes que amarram, arranham, prendem; sinto as unhas fincarem a carne dos meus fracos braços... Caio abandonada, gelada e moribunda. Sinto, agora, o cheiro da dor, do sangue que escorre nas minhas vestes e acaricia a minha pele. Levo as mãos ensanguentadas aos lábios e saboreio o sabor metálico daquele líquido vermelho que teima em sair do meu corpo. Dói-me o peito e os braços já nem os sinto. Mas o peito começa-me a arder... Dói, dói, dói! Sinto-me a queimar por dentro... As lágrimas caem, agora, como forma de fuga daquele fogo interior. O meu corpo atraiçoa-me... de tal maneira, que desejo separar-me dele; desejo afastar-me e ser livre. Libertar-me daquela jaula que se mata e me impede; de transbordar emoções, de proferir sons, de escrever palavras. Aquela jaula que me impede de me exprimir, que me apresenta obstáculos que me levam à loucura, ao masoquismo; porque sim! São minhas as mãos gélidas que me agitam e me rasgam, vem de mim o sofrimento de que tanto me lamento, vem de mim a estupidez de não saber escrever o que mais quero... Sim! Vem de mim a deficiência e não do corpo.
terça-feira, dezembro 21, 2004
Preguiça
Sento-me e olho para o lado,
Deito a cabeça e penso...
Perto do sono
E sem querer dormir...
(É só preguiça!)
Sinto-me desconfortável
E ajeito a cabeça entre as mãos.
As pálpebras descem,
Mas estou longe de adormecer.
Fico pachorrenta
Sem saber o que fazer...
Saber até sei,
Mas não tenho vontade.
Milhares de cenários passam-me pela cabeça...
E eu... sem sequer um dedo mexer.
Ah preguiça que me consomes!
Roubas-me a vontade e estendes-me assim...
Julgava eu que tinha imaginação,
Julgava eu que tinha energia
Até chegares tu e dizeres-me que não.
Deito a cabeça e penso...
Perto do sono
E sem querer dormir...
(É só preguiça!)
Sinto-me desconfortável
E ajeito a cabeça entre as mãos.
As pálpebras descem,
Mas estou longe de adormecer.
Fico pachorrenta
Sem saber o que fazer...
Saber até sei,
Mas não tenho vontade.
Milhares de cenários passam-me pela cabeça...
E eu... sem sequer um dedo mexer.
Ah preguiça que me consomes!
Roubas-me a vontade e estendes-me assim...
Julgava eu que tinha imaginação,
Julgava eu que tinha energia
Até chegares tu e dizeres-me que não.
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Alguém
Sinto que ela aprendeu a não chorar, talvez esteja anestesiada por todos os comprimidos que a cercam. Embebida em tanta dor física e mágoa emocional, como é possível que não grite? Marcada no corpo e na mente pela história que a fez, deixada com feridas abertas e lágrimas outrora secas por uma mão trémula ainda macia, vejo-a agora de boca fechada e braços cruzados, sentada no sofá com a manta nas pernas a olhar a televisão. Mas o seu olhar está perdido; perdido nas memórias que a assolam e que a prendem ao passado. Vejo o seu corpo ali, mas sinto que o seu espírito viajou. Não lhe sinto a presença e entristece-me saber que a sua chama se apagou, os seus sorrisos morreram e as gargalhadas... já nem me lembro como eram. No entanto, ela não grita, não chora... Talvez lamente os seus males em suspiros... mas são fracos e perdem-se no ar. Apenas o seu olhar a denuncia; um olhar perdido, triste, cheio de dor. Observo-a, tantas vezes, a mergulhar profundamente nas emoções que a consomem e nos pensamentos que a confundem. Sei que quando olha o mar transporta-se para aquele infinito do horizonte e vagueia, divaga, sente... Sei que gosta daquela linha inatingível porque a leva para longe; longe do mundo em que foi posta para viver, conviver e sofrer. Sei que se quer afastar da dor terrível que se apodera do seu corpo (daí os comprimidos) e dos golpes duros do pensamento que esfaqueiam a sua mente. Isola-se... em pensamentos e palavras... Isola-se... e tantas vezes não é vista.
14 de Dezembro de 2004
14 de Dezembro de 2004
domingo, dezembro 12, 2004
Passagem de um livro
"Há em nós um ser escondido, desconhecido, que fala uma língua estrangeira, e com o qual, mais cedo ou mais tarde, teremos que conversar."
Fraçois Taillandier, in A Minha Melhor Amiga
Fraçois Taillandier, in A Minha Melhor Amiga
Eu
Eu, eu, eu, eu...
Porque não tu ou vós
Ou até mesmo eles?
Porquê sempre eu
O tema dos meus escritos,
A razão das minhas palavras,
A água do meu choro,
O motivo do meu lamentar?
Sinto-me incapaz,
De membros mutilados,
De mente vazia
E ideias perdidas
Para escrever
O teu,
O vosso,
O deles.
Estou dentro do eu
Para poder compreender,
Decifrar, achar razões
E deixá-las no papel.
Mas não entro num tu,
Num vós, num eles
Para vasculhar e perceber
O que nem sei procurar.
Porque não tu ou vós
Ou até mesmo eles?
Porquê sempre eu
O tema dos meus escritos,
A razão das minhas palavras,
A água do meu choro,
O motivo do meu lamentar?
Sinto-me incapaz,
De membros mutilados,
De mente vazia
E ideias perdidas
Para escrever
O teu,
O vosso,
O deles.
Estou dentro do eu
Para poder compreender,
Decifrar, achar razões
E deixá-las no papel.
Mas não entro num tu,
Num vós, num eles
Para vasculhar e perceber
O que nem sei procurar.
quinta-feira, dezembro 09, 2004
Digo tanto
Digo tanto
Que me afogo nas palavras
E perco-me nos pensamentos
Digo tanto
Que não encontro linha de raciocínio
E tudo o que digo é fora de tempo
Que me afogo nas palavras
E perco-me nos pensamentos
Digo tanto
Que não encontro linha de raciocínio
E tudo o que digo é fora de tempo
segunda-feira, dezembro 06, 2004
Passagem de um livro
"Se não vistes nenhum de nós,
e por isso não existimos,
também não existis vós,
porque também não vos vimos."
Manuel António Pina, in A lha do Chifre de Ouro
e por isso não existimos,
também não existis vós,
porque também não vos vimos."
Manuel António Pina, in A lha do Chifre de Ouro
domingo, dezembro 05, 2004
Impaciência
É a impaciência que me arrasta
Até às masmorras da incomprensão
E me anestesia os sentidos
Perante gestos e palavras da multidão
É a impaciência que me atira
Para os caminhos do delírio
E para as malhas do desespero
Que me consomem o espírito
É a impaciência que me humilha
A cada gesto mal feito
A cada palavra mal dita
Que tornam o meu exprimir sem jeito
É a impaciência que me desgasta
Por não me ensinar como agir
E por me deixar tão fraca
Sem forças para mais fingir
Até às masmorras da incomprensão
E me anestesia os sentidos
Perante gestos e palavras da multidão
É a impaciência que me atira
Para os caminhos do delírio
E para as malhas do desespero
Que me consomem o espírito
É a impaciência que me humilha
A cada gesto mal feito
A cada palavra mal dita
Que tornam o meu exprimir sem jeito
É a impaciência que me desgasta
Por não me ensinar como agir
E por me deixar tão fraca
Sem forças para mais fingir
sexta-feira, dezembro 03, 2004
Deixa...
Deixa morrer o que já parecia morto. Deixa morrer o que pelo passado quer ser enterrado. Não puxes por algo que já não tem por onde puxar. Não queiras o que já não há para dar. A luz que queres voltar a ver já foi coberta pelo manto da escuridão que não consegues decifrar, que não consegues levantar. Não podes controlar tudo, sabes? Não controlas sequer uma pequena parte. Não te exaltes pelo que já nada podes fazer. Deixa estar... Não está tudo ao teu alcance. Não está tudo nas tuas mãos. Sim, vê-te como pequeno que és. O poder que julgas possuir é na verdade um véu sobre a tua impotência. Cobres-te do que não és para poderes aguentar o que não consegues. Esquece, deixa estar... O que tem que ser não pode ser mudado por mais que queiras, há coisas que têm que ser da maneira que são, e não da maneira que queres que sejam, por isso não te exaltes pelo que nunca vais conseguir, por isso, deixa morrer o que quer ser morto e enterrado.
quarta-feira, dezembro 01, 2004
Dentro de mim
É nas perguntas que me perco
E é nesse perder que me adoro.
É nessa facilidade de me ausentar que me admiro
E é nesse remoer de pensamentos que suspiro.
É nesses momentos de clareza que sorrio
E é nesses sorrisos que rio.
Quando penso,
Vagueio,
Imagino,
Divago...
É nesse viajar ao interior que vejo
E é nesse ver que percebo.
É nesse murmurar que me escuto
E é nesse escutar que luto.
É nessa luta constante em que existo
E é nesse cansaço que desisto.
E é nesse perder que me adoro.
É nessa facilidade de me ausentar que me admiro
E é nesse remoer de pensamentos que suspiro.
É nesses momentos de clareza que sorrio
E é nesses sorrisos que rio.
Quando penso,
Vagueio,
Imagino,
Divago...
É nesse viajar ao interior que vejo
E é nesse ver que percebo.
É nesse murmurar que me escuto
E é nesse escutar que luto.
É nessa luta constante em que existo
E é nesse cansaço que desisto.
terça-feira, novembro 30, 2004
Se...
Eu escreveria tanto mais
Se fosse Bocage ou Pessoa.
Eu escreveria tanto mais
Se soubesse fazê-lo.
Eu escreveria tanto mais
Se tivesse veia poética.
Mas não sou,
Não sei,
E não tenho.
Porque escrevo
O que escrevo então?
Este porquê eu não sei...
Se fosse Bocage ou Pessoa.
Eu escreveria tanto mais
Se soubesse fazê-lo.
Eu escreveria tanto mais
Se tivesse veia poética.
Mas não sou,
Não sei,
E não tenho.
Porque escrevo
O que escrevo então?
Este porquê eu não sei...
Pergunta
Queres saber o meu porquê?
Então olha para ti.
Sabes o teu porquê?
Se souberes não o digas.
É o teu.
O meu também é o meu.
Pensas que to vou dizer?
Onde estaria depois o mistério?
Onde estariam depois os porquês?
Não gostas de indagar?
Eu cá gosto.
Sabe bem.
Sabe melhor que respostas.
Essas rematam.
A pergunta alarga.
A pergunta expande.
Pergunta...
Podes sempre fazê-lo.
Não te impeço.
Só não esperes que te responda.
O meu porquê está dentro de mim.
Não tens que descobrir o meu porquê
Tens que me descobrir a mim.
Vá, perdeste a coragem?
O desafio é muito grande?
Pensei que quisesses saber.
A tua vontade não é assim tão forte.
Querias uma resposta que rematasse?
Que acabasse?
Querias o fácil?
Pois, desculpa-me...
A descoberta não é fácil.
Perguntar porquê talvez o seja.
Responder a esse é que já não.
Querias ter a parte fácil
E dar-me a difícil?
Pois, eu vou partilhar contigo o difícil.
Descobre o porquê.
Vá, assim também me ajudas.
Não sei o porquê completo.
Também ainda não me descobri.
Então olha para ti.
Sabes o teu porquê?
Se souberes não o digas.
É o teu.
O meu também é o meu.
Pensas que to vou dizer?
Onde estaria depois o mistério?
Onde estariam depois os porquês?
Não gostas de indagar?
Eu cá gosto.
Sabe bem.
Sabe melhor que respostas.
Essas rematam.
A pergunta alarga.
A pergunta expande.
Pergunta...
Podes sempre fazê-lo.
Não te impeço.
Só não esperes que te responda.
O meu porquê está dentro de mim.
Não tens que descobrir o meu porquê
Tens que me descobrir a mim.
Vá, perdeste a coragem?
O desafio é muito grande?
Pensei que quisesses saber.
A tua vontade não é assim tão forte.
Querias uma resposta que rematasse?
Que acabasse?
Querias o fácil?
Pois, desculpa-me...
A descoberta não é fácil.
Perguntar porquê talvez o seja.
Responder a esse é que já não.
Querias ter a parte fácil
E dar-me a difícil?
Pois, eu vou partilhar contigo o difícil.
Descobre o porquê.
Vá, assim também me ajudas.
Não sei o porquê completo.
Também ainda não me descobri.
Porque escreves?
Porque escreves?
Melhor, porque sufocas sem a escrita?
Porque é que tudo tem que estar por escrito?
Não sabes passar sem escrever?
Sabes que isso é doença?
Sabes que não o deves fazer?
Digo-te que não o faças.
Digo-te para teu bem.
Não te alivia isso,
Isso que chamas de escrita .
Letras e palavras?
Que é isso?
Não é nada.
Afasta-te enquanto te aviso.
Afasta-te porque sou eu que o digo.
Vá, ouve-me!
Não vês que só falo verdade?
Nunca te irei mentir...
Não escrevas,
Isso só faz pensar.
Faz mal...
Deixa isso!
Não me ouves?
Continuo...
Porque escreves?
Porque preferes não me ouvir?
É assim tão importante?
Não vejo nada de importante nisso.
E tu estás a ver bem?
A mim parece-me que não.
Melhor, porque sufocas sem a escrita?
Porque é que tudo tem que estar por escrito?
Não sabes passar sem escrever?
Sabes que isso é doença?
Sabes que não o deves fazer?
Digo-te que não o faças.
Digo-te para teu bem.
Não te alivia isso,
Isso que chamas de escrita .
Letras e palavras?
Que é isso?
Não é nada.
Afasta-te enquanto te aviso.
Afasta-te porque sou eu que o digo.
Vá, ouve-me!
Não vês que só falo verdade?
Nunca te irei mentir...
Não escrevas,
Isso só faz pensar.
Faz mal...
Deixa isso!
Não me ouves?
Continuo...
Porque escreves?
Porque preferes não me ouvir?
É assim tão importante?
Não vejo nada de importante nisso.
E tu estás a ver bem?
A mim parece-me que não.
Escreverias
Escreverias sem cessar
Se soubesses o que sinto
Não é para te espantar
Mas não sei o que pinto
Escreverias sem cessar
Se soubesses o que penso
Não é para te alarmar
Mas não tenho bom senso
Escreverias sem cessar
Se tivesses conhecimento
Que ando a chorar
Por cantos de tormento
Escreverias sem cessar
Se não fosses eu
Perdida no ar
Sem nada seu
Se soubesses o que sinto
Não é para te espantar
Mas não sei o que pinto
Escreverias sem cessar
Se soubesses o que penso
Não é para te alarmar
Mas não tenho bom senso
Escreverias sem cessar
Se tivesses conhecimento
Que ando a chorar
Por cantos de tormento
Escreverias sem cessar
Se não fosses eu
Perdida no ar
Sem nada seu
Adormecido
No cenário da tua vida
Aclamas noites alucinantes
De gentes estonteantes
Que são tanto como tu
No teatro do teu olhar
Há quem note que a coragem
Não passa de uma miragem
Com preguiça de gritar
No repetir do teu mostrar
Inventas-te uma história
Que em ti não há memória
Porque sabes que não é tua...
Continuas a ensaiar
A conveniência do sorriso
O planear do improviso
Que te faz sentir maior
No artifício dos teus gestos
Pensas abraçar o mundo
Quando nem por um segundo
Te abraças a ti mesmo
E assim vais vivendo
E assim andando aí
E assim perdendo em ti
Tudo aquilo que nunca foste...
Quando um dia acordares
Numa noite sem mentira
E te vires onde não estás
Vais querer voltar para trás...
Toranja
Adoro esta letra porque me identifico com ela. E provavelmente muitas mais pessoas o farão. Vivemos num teatro em que o que mostramos é o que pensamos ser conveniente os outros verem. Dizemo-nos fortes quando trememos por dentro, dizemo-nos grandiosos quando nos sentimos pequenos ao lado de tudo e todos... dizemos o que não somos porque não sabemos olhar para dentro e vermo-nos e, assim, construimos uma personagem agradável aos outros olhos enquanto nos vamos perdendo nesse cenário falso e de mentira. Mas nada como a letra da música para exprimir as palavras ocas que vou tentando encadear.
P.S. Resolvi ocultar o refrão porque penso que não tem muito a ver com o que eu pretendia transmitir.
Aclamas noites alucinantes
De gentes estonteantes
Que são tanto como tu
No teatro do teu olhar
Há quem note que a coragem
Não passa de uma miragem
Com preguiça de gritar
No repetir do teu mostrar
Inventas-te uma história
Que em ti não há memória
Porque sabes que não é tua...
Continuas a ensaiar
A conveniência do sorriso
O planear do improviso
Que te faz sentir maior
No artifício dos teus gestos
Pensas abraçar o mundo
Quando nem por um segundo
Te abraças a ti mesmo
E assim vais vivendo
E assim andando aí
E assim perdendo em ti
Tudo aquilo que nunca foste...
Quando um dia acordares
Numa noite sem mentira
E te vires onde não estás
Vais querer voltar para trás...
Toranja
Adoro esta letra porque me identifico com ela. E provavelmente muitas mais pessoas o farão. Vivemos num teatro em que o que mostramos é o que pensamos ser conveniente os outros verem. Dizemo-nos fortes quando trememos por dentro, dizemo-nos grandiosos quando nos sentimos pequenos ao lado de tudo e todos... dizemos o que não somos porque não sabemos olhar para dentro e vermo-nos e, assim, construimos uma personagem agradável aos outros olhos enquanto nos vamos perdendo nesse cenário falso e de mentira. Mas nada como a letra da música para exprimir as palavras ocas que vou tentando encadear.
P.S. Resolvi ocultar o refrão porque penso que não tem muito a ver com o que eu pretendia transmitir.
sexta-feira, novembro 26, 2004
Cenário
Queria imaginar um cenário bonito
Então imaginei pássaros e flores...
Mas pareceu-me muito vulgar
Então pensei um pouco mais...
Decidi imaginar cores diversas
E vi o encarnado e o preto...
Mas só consegui ver linhas...
Então decidi imaginar formas
E imaginei um corpo...
Mas achei demasiado erótico...
Então pensei, desta vez, em livros
E agradou-me a ideia...
Quis cores para os livros
E imaginei beje e preto...
Preto nas letras, beje nas páginas...
Queria um cenário mais que visual
Então imaginei o cheiro...
Um cheiro a papel, velho e mofo
E senti-me bem naquele ambiente...
Um sentimento confortável, porém incompleto...
Então decidi imaginar o tacto...
Imaginei mãos e dedos
E o toque nas páginas...
Não precisei de imaginar mais
Estava já sentada à secretária
Com livros abertos no colo
Folheava, folheava, folheava...
Fique lá até o dia adormecer
Deixei-me ficar até eu adormecer...
Então imaginei pássaros e flores...
Mas pareceu-me muito vulgar
Então pensei um pouco mais...
Decidi imaginar cores diversas
E vi o encarnado e o preto...
Mas só consegui ver linhas...
Então decidi imaginar formas
E imaginei um corpo...
Mas achei demasiado erótico...
Então pensei, desta vez, em livros
E agradou-me a ideia...
Quis cores para os livros
E imaginei beje e preto...
Preto nas letras, beje nas páginas...
Queria um cenário mais que visual
Então imaginei o cheiro...
Um cheiro a papel, velho e mofo
E senti-me bem naquele ambiente...
Um sentimento confortável, porém incompleto...
Então decidi imaginar o tacto...
Imaginei mãos e dedos
E o toque nas páginas...
Não precisei de imaginar mais
Estava já sentada à secretária
Com livros abertos no colo
Folheava, folheava, folheava...
Fique lá até o dia adormecer
Deixei-me ficar até eu adormecer...
Notas íntimas
"Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações cujo termo era o infinito."
Fernando Pessoa (1910?)
Fernando Pessoa (1910?)
quinta-feira, novembro 25, 2004
Desespero
Estou só, com medo, perdida e confusa... As palavras fogem-me tal como o choro que penso ser alívio. A capacidade de analisar evaporou-se, a razão ausentou-se... Não sei pensar e não sei sentir. Que sei eu afinal? O que ando a fazer? A réstia de inspiração que julguei ter aliou-se à razão e abandonou-me... Sinto que fiquei sem nada, nua e vazia. Um vazio diferente dos outros; um vazio que já não sei caracterizar; um vazio que me contorce e me agonia; um vazio que afinal me faz sentir. Não é, então, tão vazio assim... É mais um aperto junto ao peito que dificulta a respiração e me faz soltar gritos de silêncio. Sinto-me presa ao meu chão de repugna, aquele que me é tão familiar. É um desespero... Um desespero calado e disfarçado. Não daqueles que me faz trepar paredes, mas daqueles que me faz engolir a mim própria.
quarta-feira, novembro 24, 2004
Insónia
Oh retrato da Morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
Bocage
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
Bocage
Roma e Grécia
"(...) ninguém compara a grandeza ruidosa de Roma à super-grandeza da Grécia. A Grécia criou uma civilização, que Roma simplesmente espalhou, distribuiu. Temos ruínas romanas e ideias gregas. Roma é, salvo o que sobremorre nas fórmulas invitais dos códigos, uma memória de uma glória; a Grécia sobrevive-se nos nossos ideais e nos nossos sentimentos."
Fernando Pessoa (1912)
Fernando Pessoa (1912)
Antítese
É a luz que espero
E a escuridão que finto
É o preencher que quero
E o vazio que sinto
É o sabor doce na boca
E o amargo no coração
É o horror nos olhos
E o bonito na imaginação
É o sorriso que forço
E a lágrima que cai
É o riso que esforço
E o choro que sai
É uma antítese que sou
E é isto que detesto
Não saber onde estou
Nem onde está tudo o resto
E a escuridão que finto
É o preencher que quero
E o vazio que sinto
É o sabor doce na boca
E o amargo no coração
É o horror nos olhos
E o bonito na imaginação
É o sorriso que forço
E a lágrima que cai
É o riso que esforço
E o choro que sai
É uma antítese que sou
E é isto que detesto
Não saber onde estou
Nem onde está tudo o resto
segunda-feira, novembro 22, 2004
Espírito de festa
As estrelas são pretas num céu repleto de luzes e ornatos coloridos, em noites de festa, onde os da terra convivem animadamente sem regras ou limites. Festejam o que nem sabem e festejam porque sabe bem o vinho na boca e o jogo diante de seus olhos. Atiram dardos, jogam cartas ou xadrez e ganham prémios sem valor algum ou do valor de uma exibição exarcebada de algo inútil que leva o corpo à exaustão e cujas consequências são as de dor e ressaca. O copo na mão, o cigarro na boca e os gestos bruscos e descoordenados são sinais de alguém que é capaz, com coragem e, por isso, merecedor de respeito. Os mais calados são fracos ou jovens; os que não dançam ou cantam são perdedores e inúteis em festas de pompa igual. O espírito necessário é de alguém que grite, cante, dance, sem vergonha e com coragem para mostrar aos outros tudo o que sabe, embora, muitas das vezes nada de proveitoso, uma vez que, se limitam à demonstração de palhaçadas normalmente bem vindas e aplaudidas pelos que assistem. É este o espírito verdadeiro de festa, alguém que perde o contacto com a realidade e que transborda as emoções correntes agindo da forma que bem lhe apetecer. É assim que vivemos em tempo de exaltação, dotados de um espírito iludido com luzes e prémios, enganados pelo próprio engano, cegos para a vida e com a incapacidade impressionante de encarar a realidade. É assim que afogámos as nossas mágoas quando o pensar nelas nos provoca confusão, receio e tristeza...É assim que esquecemos que vivemos para aprender e para evoluír.
quinta-feira, novembro 18, 2004
Assim escrevo
Não é que tenha inspiração
Ou imaginação fértil
Ou até mesmo jeito
Simplesmente acontece
É um pouco ao acaso
Um propósito sem querer
Um diz que não
Para dizer sim
É como que um impulso
Uma vontade incontrolável
Um fascínio sem descrição
Um jeito sem jeito meio estranho
Ou é como um movimento
Independente e alheio
Um gesto que existe
E eu não sei como
É um acto irracional
Talvez emocional
Imaginativo e incerto
Estranho e agradável
É assim que escrevo
Não porque sei
Mas porque me apetece
E me sinto bem
Ou imaginação fértil
Ou até mesmo jeito
Simplesmente acontece
É um pouco ao acaso
Um propósito sem querer
Um diz que não
Para dizer sim
É como que um impulso
Uma vontade incontrolável
Um fascínio sem descrição
Um jeito sem jeito meio estranho
Ou é como um movimento
Independente e alheio
Um gesto que existe
E eu não sei como
É um acto irracional
Talvez emocional
Imaginativo e incerto
Estranho e agradável
É assim que escrevo
Não porque sei
Mas porque me apetece
E me sinto bem
Digo
Digo que não sou
Mas sou
Digo que não sinto
Mas sinto
Digo que sei
Mas não sei
Digo que dói
Mas não sinto
Digo que calo
Mas falo
Digo que sonho
Mas acordo
Digo que é belo
Mas não gosto
Digo por dizer
E não me calo
Digo que sim
Porque há não
Digo preto
Porque há branco
Digo feio
Porque há belo
Digo que falo
Mas não digo
Mas sou
Digo que não sinto
Mas sinto
Digo que sei
Mas não sei
Digo que dói
Mas não sinto
Digo que calo
Mas falo
Digo que sonho
Mas acordo
Digo que é belo
Mas não gosto
Digo por dizer
E não me calo
Digo que sim
Porque há não
Digo preto
Porque há branco
Digo feio
Porque há belo
Digo que falo
Mas não digo
quarta-feira, novembro 17, 2004
Livro
Deslizo os dedos pela capa
Sinto a textura rugosa
Levo-o junto à cara
E sinto o cheiro a papel velho
Uma primeira abertura
Arrasta páginas
Folheio-o com cuidado
E respiro a sua história
Deixo-me levar
Pelo deleite da leitura
Absorvo as palavras
E preencho-me de significados
Mergulho nas páginas
Desapareço noutro mundo
Alheio ao meu
Alheio ao vosso
Toca-me em sítios inatingíveis
Desconhecidos, impossíveis
No meu mundo, no vosso mundo
Não naquele mundo
Toca-me onde pensei
Não sentir o toque
Toca-me duma maneira
Que julguei não existir
Toca-me porque deixo
Porque mergulho
Porque adoro
Porque sim
É... não tem
É letras
É palavras
É significados
É poder
É calma
É suave
É profundo
É o que adoro
Que preenche
Que aquece
Que ilumina
É tudo aquilo
Que pode
Que atinge
Que toca
É um livro...
Sinto a textura rugosa
Levo-o junto à cara
E sinto o cheiro a papel velho
Uma primeira abertura
Arrasta páginas
Folheio-o com cuidado
E respiro a sua história
Deixo-me levar
Pelo deleite da leitura
Absorvo as palavras
E preencho-me de significados
Mergulho nas páginas
Desapareço noutro mundo
Alheio ao meu
Alheio ao vosso
Toca-me em sítios inatingíveis
Desconhecidos, impossíveis
No meu mundo, no vosso mundo
Não naquele mundo
Toca-me onde pensei
Não sentir o toque
Toca-me duma maneira
Que julguei não existir
Toca-me porque deixo
Porque mergulho
Porque adoro
Porque sim
É... não tem
É letras
É palavras
É significados
É poder
É calma
É suave
É profundo
É o que adoro
Que preenche
Que aquece
Que ilumina
É tudo aquilo
Que pode
Que atinge
Que toca
É um livro...
Cair
É o sono e a confusão
O neveoeiro e o cansaço
O pesar e o turbilhão
O frio de aço
O gelo no coração
O tapar da visão
A pedra na mão
A amarga desilusão
O cair do corpo
O desistir da alma
O olhar morto
A estranha calma
É um fechar
Cerrar
Calar
Ficar
A agonia e a dor
Do fingir sentir
O perder do amor
Do que é existir
Um morrer
Perder
Falecer
Esquecer
O neveoeiro e o cansaço
O pesar e o turbilhão
O frio de aço
O gelo no coração
O tapar da visão
A pedra na mão
A amarga desilusão
O cair do corpo
O desistir da alma
O olhar morto
A estranha calma
É um fechar
Cerrar
Calar
Ficar
A agonia e a dor
Do fingir sentir
O perder do amor
Do que é existir
Um morrer
Perder
Falecer
Esquecer
segunda-feira, novembro 15, 2004
Noite de brisa
A leve brisa da noite acaricia a face
O luar brilha no olhar
Na longa espera que tudo passe
Sento-me a ver a noite acabar
O sabor da canela ainda nos lábios
O cheiro nos cabelos a madeira e vela queimada
Um toque suave em instantes sábios
Foram memórias duma noite passada
O abraço forte e envolvente
O balançar carinhoso e lento
Uma respiração quente
Presente nas noites de alento
A lareira apagada
A vela derretida
Uma noite passada
Sem despedida
O beijo que se afasta
A mão que desliza
Um olhar que basta
Numa noite de brisa
O luar brilha no olhar
Na longa espera que tudo passe
Sento-me a ver a noite acabar
O sabor da canela ainda nos lábios
O cheiro nos cabelos a madeira e vela queimada
Um toque suave em instantes sábios
Foram memórias duma noite passada
O abraço forte e envolvente
O balançar carinhoso e lento
Uma respiração quente
Presente nas noites de alento
A lareira apagada
A vela derretida
Uma noite passada
Sem despedida
O beijo que se afasta
A mão que desliza
Um olhar que basta
Numa noite de brisa
segunda-feira, novembro 08, 2004
Não sou eu
Olho-me ao espelho, mas não me vejo; aquele corpo não me pertence... Nada do que vejo é meu e muito menos eu. Não me identifico com o corpo nem com o nome. Chamam-me, mas não olho. Não é por mim que chamam, chamam por um nome. Não me expresso pelas mãos que tanto adoro ou pelos olhos que misteriosamente aprecio. Nada do que mostro sou; nada do que sou mostro. Vivo uma fantasia perturbada, vagueando por caminhos que finjo conhecer. Sinto-me cheia do vazio, pois engano-me a cada momento com ilusões planeadas e passos em falso. Tudo são cenas em palco e nada é real. Tudo é artificial e nada é real. Aqui tudo é efémero e nada me pertence. Afundo-me em papéis e pensamentos...Sufoco com lágrimas secas e sorrisos apagados...Perco-me nos lençóis do meu ser e nas palavras da minha vida...Complico o simples, mas ainda assim tento compreender o complicado. Minhas mãos murcham as flores, meu olhar esfaqueia as peles... Sinto-me a cair, mas continuo em palco. Sinto-me a fugir, mas encontro-me presa por amarras ténues que não sou capaz de quebrar. Sinto-me morrer, mas existo sem o corpo.
quarta-feira, outubro 13, 2004
Rumos
Queixamo-nos do sofrimento, mas conseguimos viver sem ele? É mais um sentimento que nos faz sentir vivos. É talvez o sentimento que conhecemos melhor. Mas digam lá se não devemos agradecer tanto sofrimento.. É através dele que aprendemos a maior parte das coisas na nossa vida. Podem-nos avisar com todo o amor que uma certa coisa nos prejudica, mas só conseguimos perceber esse prejuizo quando o sentimos "na pele". Digam a um puto pequeno que se puser os dedos na tomada vai apanhar um choque.. ele fica a pensar o que será um choque, então lá vai ele descobrir e a partir do momento em que o sentiu, passou a saber o que é, e se por acaso não gostou, não vai voltar a fazê-lo.
Acham mesmo que evoluimos a partir do amor? Eu não. Somos demasiado preguiçosos e, numa palavra menos específica, "burros", para evoluirmos sem sofrer. Basta ver que fazemos bastantes borradas, sofremos as consequências desses actos, mas no minuto a seguir somos capazes de fazer o mesmo. Não é uma situação digna de um abanão?
Nós que somos tão inteligentes...Não temos a capacidade de perceber que se escolhermos seguir por um certo caminho que nos leva a consequências desastrosas, esse caminho não é dos melhores? Não temos a inteligência suficiente para analisar a nossa vida e tomar rumos diferentes quando necessário?
Penso que temos essa inteligência, mas o caminho mais fácil é sempre pelo que seguimos. Apercebemo-nos que algo está mal, mas dá tanto trabalho mudar...
Há quem pense que se vamos morrer porquê darmo-nos ao trabalho...Mas e se a vida depois da morte existir mesmo? Ou se for apenas uma transformação na nossa vida e não um fim? A desculpa da morte é mesmo apenas uma desculpa... Vivemos por algum motivo. Não se questionam porque motivo nasceram? O que vieram cá fazer? Claro que sim... O difícil é encontrar as respostas, por isso temos que fazer o possível para as encontrar. O papel de vítima é o mais confortável, mas também o mais cobarde. Talvez pareça falar por falar. Confesso que também eu tenho que percorrer esse caminho, estou apenas a relatar ou a tentar relatar o meu ponto de vista.
Deixo aqui este pensamento, talvez um pouco mal estruturado e incompleto, mas por agora fica assim.
Acham mesmo que evoluimos a partir do amor? Eu não. Somos demasiado preguiçosos e, numa palavra menos específica, "burros", para evoluirmos sem sofrer. Basta ver que fazemos bastantes borradas, sofremos as consequências desses actos, mas no minuto a seguir somos capazes de fazer o mesmo. Não é uma situação digna de um abanão?
Nós que somos tão inteligentes...Não temos a capacidade de perceber que se escolhermos seguir por um certo caminho que nos leva a consequências desastrosas, esse caminho não é dos melhores? Não temos a inteligência suficiente para analisar a nossa vida e tomar rumos diferentes quando necessário?
Penso que temos essa inteligência, mas o caminho mais fácil é sempre pelo que seguimos. Apercebemo-nos que algo está mal, mas dá tanto trabalho mudar...
Há quem pense que se vamos morrer porquê darmo-nos ao trabalho...Mas e se a vida depois da morte existir mesmo? Ou se for apenas uma transformação na nossa vida e não um fim? A desculpa da morte é mesmo apenas uma desculpa... Vivemos por algum motivo. Não se questionam porque motivo nasceram? O que vieram cá fazer? Claro que sim... O difícil é encontrar as respostas, por isso temos que fazer o possível para as encontrar. O papel de vítima é o mais confortável, mas também o mais cobarde. Talvez pareça falar por falar. Confesso que também eu tenho que percorrer esse caminho, estou apenas a relatar ou a tentar relatar o meu ponto de vista.
Deixo aqui este pensamento, talvez um pouco mal estruturado e incompleto, mas por agora fica assim.
Responde-me
Lua que emerges da escuridão da noite,
Vês-me na janela com olhar melancólico?
Nevoeiro que escondes tudo em teu redor,
Vês-me a caminhar na confusão?
Frio que congelas sentimentos,
Não me vês a sofrer em caminhos vazios?
Não me vês Natureza anciando por tudo e nada?
Não sentes meus desejos estranhos?
Não percebes que quero o que não posso?
Não vês que não me vejo?
Não me encontro...
Não me sinto...
Já não sinto o sufoco na garganta
Nem o ardor no peito a que me habituei
Já não ouço aquela voz
Nem o grito mudo no escuro
Onde está a dor?
Que foi feito de mim?
Vês-me na janela com olhar melancólico?
Nevoeiro que escondes tudo em teu redor,
Vês-me a caminhar na confusão?
Frio que congelas sentimentos,
Não me vês a sofrer em caminhos vazios?
Não me vês Natureza anciando por tudo e nada?
Não sentes meus desejos estranhos?
Não percebes que quero o que não posso?
Não vês que não me vejo?
Não me encontro...
Não me sinto...
Já não sinto o sufoco na garganta
Nem o ardor no peito a que me habituei
Já não ouço aquela voz
Nem o grito mudo no escuro
Onde está a dor?
Que foi feito de mim?
domingo, outubro 03, 2004
Perdi-me
Perdi-te há muito tempo.
Já não te vejo,
Não te ouço,
Nem te sinto.
Duvido da tua existência.
Foste imaginação, sonho, fantasia?
Alguma vez te senti?
Que foste tu?
Porque desapareceste?
Desejo-te, mas não te conheço mais.
Foste feita para mudar?
Foste feita para desaparecer?
Serás para sempre diferente?
Tenho saudades de algo que já não conheço.
Querer-te-ei eu de volta?
Amar-te-ei agora neste presente?
As dúvidas percorrem-me.
Serás tu, memória escondida,
Um escape ao meu presente?
Serás algo criado por mim
Apenas como refúgio?
Serás desculpa, razão?
Quero-te mas esqueço-te...
Já não te vejo,
Não te ouço,
Nem te sinto.
Duvido da tua existência.
Foste imaginação, sonho, fantasia?
Alguma vez te senti?
Que foste tu?
Porque desapareceste?
Desejo-te, mas não te conheço mais.
Foste feita para mudar?
Foste feita para desaparecer?
Serás para sempre diferente?
Tenho saudades de algo que já não conheço.
Querer-te-ei eu de volta?
Amar-te-ei agora neste presente?
As dúvidas percorrem-me.
Serás tu, memória escondida,
Um escape ao meu presente?
Serás algo criado por mim
Apenas como refúgio?
Serás desculpa, razão?
Quero-te mas esqueço-te...
quinta-feira, setembro 30, 2004
Melancolia
Trago em mim o sabor amargo da melancolia...
A leve sombra do passado, presente e futuro...
Trago em mim o que necessito...
Trago em mim o desconhecido...
Sinto-me perdida...
Mergulhada...
Escondida...
Sombria e fria...
Vazia e preenchida
Do que não quero e do que desejo...
Assemelho-me ao chão que tanto me repugna...
Sem forças...
Sem vontade...
Sem coragem...
Permaneço, assim, estendida...
Sim, sou masoquista...
Gosto do meu sofrimento...
Faz-me sentir viva...
Desperta-me...
A saudade da dor invade-me
Quando um ligeiro sorriso percorre meus lábios...
Fecho os olhos...
Mergulho novamente na melancolia do meu ser.
A leve sombra do passado, presente e futuro...
Trago em mim o que necessito...
Trago em mim o desconhecido...
Sinto-me perdida...
Mergulhada...
Escondida...
Sombria e fria...
Vazia e preenchida
Do que não quero e do que desejo...
Assemelho-me ao chão que tanto me repugna...
Sem forças...
Sem vontade...
Sem coragem...
Permaneço, assim, estendida...
Sim, sou masoquista...
Gosto do meu sofrimento...
Faz-me sentir viva...
Desperta-me...
A saudade da dor invade-me
Quando um ligeiro sorriso percorre meus lábios...
Fecho os olhos...
Mergulho novamente na melancolia do meu ser.
quarta-feira, setembro 29, 2004
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê.
Fernando Pessoa
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê.
Fernando Pessoa
terça-feira, setembro 28, 2004
sábado, setembro 25, 2004
Introdução
Queria fazer deste blog o meu espaço de recolhimento e reflexão. Mas porquê fazê-lo aqui e não num caderno, como já tenho vindo a fazer? Porquê expôr os meus pensamentos a olhares curiosos? Sabendo que estou sujeita a críticas exteriores porquê criar este blog?
Pensei várias vezes na hipótese de não o fazer, mas considerei o facto das críticas feitas pelos outros serem proveitosas para a remodelação das minhas opiniões. Penso que é necessário considerar várias opiniões e diferentes conhecimentos para podermos criar melhor um ponto de vista, além de ter a vantagem da minha escrita não ficar enterrada num caderno perdido no meio de tantos outros...Dou assim "asas" à minha opinião duma maneira diferente. Não pretendo escrever textos bonitos, mas apenas tentar ser o mais verdadeira possível nas minhas palavras.
Não sei bem qual o objectivo deste blog, estas são ideias vagas do que queria que ele fosse. Quando não tiver a gostar não volto a pôr cá os dedos.
E deixo assim a minha introdução neste blog, espero ter a disposição suficiente para voltar a escrever aqui.
Pensei várias vezes na hipótese de não o fazer, mas considerei o facto das críticas feitas pelos outros serem proveitosas para a remodelação das minhas opiniões. Penso que é necessário considerar várias opiniões e diferentes conhecimentos para podermos criar melhor um ponto de vista, além de ter a vantagem da minha escrita não ficar enterrada num caderno perdido no meio de tantos outros...Dou assim "asas" à minha opinião duma maneira diferente. Não pretendo escrever textos bonitos, mas apenas tentar ser o mais verdadeira possível nas minhas palavras.
Não sei bem qual o objectivo deste blog, estas são ideias vagas do que queria que ele fosse. Quando não tiver a gostar não volto a pôr cá os dedos.
E deixo assim a minha introdução neste blog, espero ter a disposição suficiente para voltar a escrever aqui.
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