quinta-feira, abril 28, 2005

Dimensões

Um ímpeto move-me à escrita
E dele alimento a caneta
Até que os olhos se perdem
No imenso branco do papel

Vagueiam perdidos no pensamento
Alheados do brusco sentir exterior
Que anestesia fortemente a alma
Tal é o choque do subtil com o real

Um real indefinido a todos
Porque vive de si para si
Reflecte-se em si mesmo
E a dimensão torna-se outra

O choque é então ilusão
Não chega a existir
Porque os diferentes reais
Jamais se encontrarão

Vivo assim num despertar
E adormecer ilusório
O exterior não existe em mim
Só o interior me engole

É o exterior ilusão?
Como é ilusão o choque de reais?
Do meu real com o real em si
Que é real e ninguém conhece

27-04-05

sexta-feira, abril 22, 2005

Re-definições

"Nunca vamos ter o amor a rir para nós
Quando queremos nós ter o sorriso maior."

Da Weasel [com Manel Cruz, vocalista dos Pluto] - Casa (Vem fazer de conta)

quarta-feira, abril 20, 2005

Sobre livros

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um de páginas em branco que pudesse ser rabiscado à vontade porque a ideia de algo permanente não me agrada.

2 -Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Penso que em relação a isso costumo afinizar-me muito com as personagens que gosto. Por vezes, adopto expressões semelhantes sem me aperceber; sou influenciada sem querer, mas por poucos momentos. No entanto, não tenho nenhum em especial que me "apanhe".

3 -Qual foi o último livro que compraste?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett

4 -Qual o último livro que leste?
Por inteiro, penso que foi "Harry Potter e a Ordem da Fénix" - J.K. Rowling

5 - Que livros, estás a ler?
"Viagens na minha Terra" - Almeida Garrett
"Choque do Futuro" - Alvin Toffler


6 -Cinco livros que levarias para uma ilha deserta.
"O Rosto e as Máscaras" - Fernando Pessoa (antologia cronológica, organizada e prefaciada por David Mourão-Ferreira)
"Os Filhos da Droga" - Christiane F.
"A minha Melhor Amiga" - Anne-Sophie Brasme
Um caderno em branco (e respectiva caneta ou lápis)
Um desconhecido, obrigatoriamente, de poesia


7 -Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Talvez as três primeiras que lerem isto serão essas três pessoas :) Mas vou passa-lo a quem quiser lê-lo; está à vista de todos que por aqui passeiam.


[Achei engraçado este questionário que vi nos blogs Tá de noite e My Soul Pieces e copiei-o para aqui. Pode ser que vos interesse lê-lo e copiar para os vossos Blogs. Sempre se fica a conhecer um bocadinho mais de quem o responde.]

terça-feira, abril 19, 2005

Nota

Este é só um pequeno post para agradecer aqueles que deram uma opinião no post anterior e para anunciar que o título da peça foi votado e escolhido segunda-feira; a peça intitula-se, agora, por "Realidade fictícia". A meu ver, é um título interessante, embora não fosse o meu preferido. De qualquer das maneiras, entre este e um outro que estava com grande destaque "Eles andam aí!", fico satisfeita por ter sido o actual o mais votado.

domingo, abril 17, 2005

Preciso duma opinião

Eu tenho aulas de teatro na escola e andamos a ensaiar uma peça para apresentar no fim do ano, só que não sabemos que título lhe havemos de dar, por isso, vou tentar resumir o melhor que posso (apesar de ainda não ter a peça toda) e dar-vos a escolher alguns títulos que uns colegas meus proporam de forma a ajudarem-nos :)
Muito bem... A peça é basicamente sobre os diferentes grupos que existem entre os adolescentes e os respectivos problemas. Existem as betas, os noctívagos, os dreads, os cromos da Net, os góticos, um gay, um traficante de exames, uma intelectual e os freaks. Os grupos vivem uma vida que os pode levar a enfrentar sérios problemas no futuro. Eu interpreto duas personagens: a Luana e a Lipa. A primeira está inserida no grupo dos góticos, constituido pelo namorado Roger, a amiga da banda Verónica, a extrema Erika e a Paloma e caracteriza-se pelo facto de serem anti-sociais e nem sequer conseguirem criar laços fortes de amizade dentro do próprio grupo. A Lipa faz parte do grupo dos noctívagos, constituido pela melhor amiga Kak's e pelo irmão Pikas que, por sua vez, vai aliciar a irmã para o mundo da noite repleto de drogas, álcool e rapazes. No meio de toda esta "anarquia juvenil" andam uns ET's que aterram no campo de basquetebol da escola no início da peça e que são invisíveis devido a um dispositivo. Estes decidem estudar as crias da espécie porque lhes resta pouco tempo naquele planeta. Porém, à medida que o estudo avança, levados pelo espanto das barbaridades com que se deparam, estes vêem-se obrigados a desligar o dispositivo de invisiblidade e a intervir na vida de cada adolescente, de forma a, mostrar-lhes o futuro. Uma vez visto o futuro pelo adolescente este, de regresso ao presente e sem se aperceber do que acabara de acontecer, conscencializa-se e tenta deixar algumas coisas que prejudicavam a sua vida, como a droga, a vergonha (ex. dos cromos e do gay) e outras coisas mais que iriam destruir o seu futuro. Assim sendo (espero ter-me feito entender no resumo) os títulos propostos foram estes:

Eles andam aí!
/ Eles andem aí! (ou um ou outro)
Efeito boomerang
Efeito extraterrestre
Só não vê quem não quer
O código da adolescência
/ O Código Adolescente (ou um ou outro)
Afinal são nossos amigos
O nosso reflexo
Nós somos piores
A nossa sombra
Ligação extraterrestre
Uma espécie aparte
Acreditas em ET's?
Afinal eles existem
Tudo louco
Atinem, pá!
O abc da adolescência
Uma peça do outro mundo
O Senhor dos ET's
Os ET's e os prisioneiros da adolescência
(à estilo Harry Potter)
O futuro é agora
Realidade fictícia
Saber quem somos
(ideia do meu irmão)

terça-feira, abril 12, 2005

Devaneio

A verdade é que a provável bipolaridade do meu ser pode ser explicada pela indefinição do mesmo.

segunda-feira, abril 11, 2005

Ecoponto doméstico


"Os ecopontos podem ser adquiridos nos super e hipermercados, nomeadamente, Jumbo, Continente, Feira Nova, Modelo, etc. a um preço que deverá rondar cerca de 10/12 euros.
(...)
Os ecopontos domésticos são disponibilizados incluindo um guia de reciclagem de edição e responsabilidade da Sociedade Ponto Verde, que contém as regras de separação de embalagens, para facilitar ainda mais a tarefa.
(...)
Estes ecopontos, (...) dispõem de três divisões e permitem separar num só contentor os diferentes materiais, à semelhança do que acontece com os ecopontos de rua. Ou seja, possuem uma divisão para o plástico e o metal, outra para o papel/cartão (especialmente concebida para o formato dos jornais e revistas) e finalmente uma para o vidro."

Para mais informações visitem o link: http://www.pontoverde.pt/sala_imprensa/sala_imprensa_press63.html
Porque nunca é demais lembrar...

E para que conste, também ainda tenho que comprar um :$ (só porque acho mais eficiente em comparação com as sacas penduradas na cozinha)

Sempre pensei que me preocupava com os males feitos ao meio ambiente, até me aperceber que nem a separação de lixo em casa fazia. Ora bem, quem se preocupa de corpo e alma, faz algo pela sua causa, não é verdade? E muitos podem associar, apenas, as fábricas à poluição, mas penso que todos tomamos consciência que não parte exclusivamente dos outros prejudicar ou ajudar o meio ambiente, não é? Afinal de contas, nós também não poluímos? Se de cada vez que fossemos ao supermercado, olhassemos antes para o rótulo e verificassemos se o produto é um forte contaminador para o ambiente, em vez de olharmos exclusivamente para a marca e os "afins" que esta promete, estariamos a contribuir para vivermos num mundo mais fresco. E quem diz ir ao supermercado, diz outras coisas. A separação de lixo em casa é uma delas. Não custa nada, pois não? Quero dizer... é preciso ter cuidado com o que se separa porque nem tudo pode ser reciclado, mas há guias que nos informam e sites como o ponto verde. Penso que não custa nada tentar reanimar o nosso planeta. Afinal, é o único que nós temos.

Quando penso no mundo actual, a ideia imediata (talvez por ser citadina) que me vem à cabeça é o fumo, o barulho, o stress e, consequência disso, pessoas rezingonas, o trânsito, edifícos, cruzamentos, buzinas, passadeiras, alcatrão, preto... Por vezes dá vontade de dar um berro seco e esperar que tudo pare, tal como nos filmes. Vê-se apenas o vácuo da vida das pessoas. Serão felizes? Alguns podem julgar que sim. Talvez o sejam, talvez não. Será que se lembram de pensar nisso sequer? Para a frente, para trás... para ali, para acolá... Agora, neste instante, atrasos... esgotamento... a sucção da vida. Cansaço... "Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo, cansaço...".
Talvez não sejam todos assim. Mas é essa a imagem e a sensação que tenho quando penso neste mundo. Sim há o verde, os montes, o azul, os rios... há o riso, o sorriso... Há quem os procure? Agora, talvez mais. Porque eu acredito que cada vez mais pessoas se apercebem o que está a acontecer ao planeta. Mais e mais pessoas se apercebem e sentem que a cidade satura tudo em si e ao seu redor mais próximo. Tentam, agora, uma forma de evasão da agitação diária. Eu que ainda sou jovem e não sofro dum mal desses ainda muito grande (penso eu), sinto necessidade de respirar. Assim, o ar puro, que por vezes, posso sentir em Esposende. Perto da praia, da maresia, da brisa fresca... é tudo tão suave e tão bom...
Talvez esteja a divagar demasiado, mas a verdade é que sinto saudades de sentir. Sinto-me anestesiada pela cidade (que até é pequena). Precisava de algum espécie de meditação, descanso, sorriso puros e suaves como quem fica alegre alheadamente...
Todo este discurso... que não sei adjectivar, para apelar à sensibilidade de quem me lê e da minha própria. Nós somos Natureza, mas parece que tentamos rasgar o nosso cordão umbilical, ferindo o que eu considero a origem. Já são tão notáveis os danos que fizemos ao longo de séculos. Os ventos zangam-se, as águas agitam-se, a terra treme, as estações confundem-se... Não sentem? Contudo, nunca é tarde demais para nos preocuparmos e agirmos. Tentemos...

sábado, abril 02, 2005

Tentativa falhada

Hoje quero ser escritora
Assim na noite calada
Que não é tão calada assim

Envolvida na música de piano
Tentando alhear-me ao ritmo da casa
Tento penetrar no mundo das palavras

É como adormecer
E acordar noutra dimensão:
A dimensão palavrada

A passagem é difícil:
O adormecer demora
E o acordar pouco acontece

É preciso ser consciente
Não deixar fluir o espírito
Não sair do corpo pensante

As emoções não escrevem
Escrevem-se emoções
De mão rija e não solta

De pensamento pensado
Porque divagado é sentido
Alia-se às emoções

Quero que esse repouse
No canto ameno do sono
Envolvido na névoa sentida

Porque não quero mais aquelas
Aquelas palavras descoordenadas
Sem nexo, com emoção em demasia

Enjoei, cansei e desisti
Porque queria ser escritora
À noite quando desperta o coração

sábado, março 26, 2005

Dejà vu

Julguei-te
E perdi-me
Na imensidão do teu olhar

Calei-te
E sofri
Com o teu silêncio prolongado

Engasguei-me
Comi palavras
E esqueci outras

Rodei
Sem preocupação

Insultei
Gritei
Desmedidamente

E fugi

Em mim
De mim
Tudo era eu

Não gostei
Mas fiz
Detestei
Mas repeti

E não te ouvi
E calei-te
E ousei julgar

Acusei-te
E não aceitei
As tuas palavras
Porque eram soltas
Porque magoavam

Esqueci
Beijei
E passei

Mas repeti...

Desculpa

É repetido
É cansativo

Mas a rua
O contacto
Tudo me droga lá fora

Poetismo

Uma ideia que tive há pouco tempo levou-me à criação deste Blog. Poetismo... apenas isso, poesia e poetas; foi com esse fim que considerei criar outro Blog. Com a minha participação, de Lana, de O Empalador e de Perséfone, esperamos poder partilhar convosco, leitores de Blogs, a delícia que é a leitura da poesia que, na minha opinião, guarda consigo uma beleza própria. Espero que visitem e apreciem :)

sexta-feira, março 25, 2005

Noite de Luxúria

Hoje quero beijos!
Dói-me a garganta
Mas berro.
A água secou
E o sorriso abriu.
As portas abertas
Deixam a luz entrar.

Já me vês?
Sim!
Sim, sim, sim...

Estou aqui!
Berro, berro e berro.

De veste branca,
Transparente e suave
Me apresento a ti.

Eu sempre danço!
Vês-me? É só para ti!

Beija-me!
Agarra-me!
Leva-me!

Estou aqui!
Para ti!
Para ti!

Quero tanto,
Mas tanto
Sentir as tuas mãos.

Percorre-me...
Vá! Eu já deixo...
Sou para ti...

Só por hoje
Porque é noite de luxúria....

segunda-feira, março 21, 2005

Só de emoção

Diz que me amas!

Não é bem isso que quero ouvir
Mas diz que gostas de mim!

Diz-lo com convicção
Diz-lo para eu acreditar
Diz-lo vezes sem conta

De maneiras diferentes
Faz-me crer que tu
Tu me amas

Não é amar
É gostar

Mas diz-mo!
Queria tanto ouvi-lo...
Não! Quero!
Agora, neste instante!

E é neste instante
Em que não estás
E é neste instante
Que preciso

E preciso tanto...

Mas são das palavras
Dessas letras coladas
Que tanto preciso?

Não sei...

Quero uma palavra
Que me beije

Beija-me!

Com ardor, paixão
Esquece o amor!
Não existe....

Ama-me de paixão
E esquece o sentimento

Ama-me só de emoção
E mais não peço
E mais nem sequer quero

Ama-me de emoção
E esquece o sentimento!

segunda-feira, março 14, 2005

Ego

Sabes quantas vezes quis chorar sem razão nenhuma? Quantas vezes tu não possas imaginar. Sabes que de todas essas vezes prendi o choro? E sabes porquê? Porque me senti ridícula por não ter razão. Porque sem motivo fico perdida, sem referências... Porque sem motivo o importante desaparece. Porque o motivo me faz pensar, indagar, sentir, acreditar. Porque tudo que possas imaginar para mim tem que ter razão ou deixo-o de parte na caixa onde vês "Por definir". E sabes que o pensar me causa dores de cabeça? Por isso me vês de mãos escondidas nos cabelos a tapar a cara e de olhos direccionados para o chão. E por isso me vês, por vezes, cerrar os lábios para não dizer o que penso. Mas tu sabes que o digo, não sabes? Claro que sim. Tu recriminas-me por isso. Não sei coser a boca e digo o que penso pelas palavras que não são doces de ouvir e digo-o duma forma bruta e arrogante. E sabes porquê? É simples de explicar, chama-se orgulho. Aquele sentimento do qual o ego se alimenta tão intensamente. O ego... esse bicho roedor do nosso coração que nos tenta sempre colocar num pedestal. Atencioso ele, não? Claro que não! Destrói-nos! Rasga-nos fazendo-nos acreditar que nos preenche. Traiçoeiro, isso sim! É esse mesmo ego que não me deixa chorar sem razão. Que me impede de deixar escorrer as mágoas do meu coração. É esse mesmo ego que se apresenta a ti e a todos. É ele que recriminas. Mas é a mim também, não é? Claro que sim. Eu deixo o meu ego tomar conta de mim, duma tal maneira que tudo o que uma vez vi junto de mim se vai afastando... Lá longe vejos os reflexos. Lá longe ouço as vozes distorcidas. Mas já nada entra aqui. A crosta formou-se forte e não parece mostrar fraquezas por onde um sopro, um suspiro doce possa espreitar e rachá-la.

A criança que fui chora na estrada...

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

[A lágrima quase espreitou mal li a primeira quadra. Adoro este poema! Diz-me tanto...]

domingo, março 13, 2005

Frase apropriada

"A minha vida não tem nexo
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim."

Ornatos Violeta - Débil Mental

quarta-feira, março 02, 2005

Selvagismo do ser

Sou selvagem do meu mais profundo ser
A primitividade habita em mim
Sorrateira, duma estranha inteligência,
Como um pequeno engenho programado

Ao mínimo ruído mal captado desperta
Soltando ondas de calor e agitação
Percorrendo o caminho que se lhe depara
Até encontrar um meio de fuga

Escapando de uma matéria densa
Lança-se numa forte brusquidão
Como se de um sufoco apertado
Se tentasse libertar

Contorce-se e vocifera
Como se de mão atadas se encontrasse
Impossiblitada de atingir por actos
Necessitada de praguejar e gritar

Os olhos espelham cólera
E os lábios são mordidos
Por uma irritação profunda
Pela incapacidade de atingir

Mas eis que a fúria se acalma...

De imediato, toma conhecimento
Que as suas palavras foram fortes
Para atingirem e criarem danos
Em todo o seu maldito redor

Apercebe-se dos efeitos causados
E delicia-se com o caos provocado
Ri silenciosa e maliciosamente
E goza, agora, baixinho...

Satisfez os seus caprichos
Mesquinhos e maldosos
Fica completamente saciada
E não oferece resistência

Deixa-se engolir pela carne
De encontro ao seu antro
Pronta para hibernar levemente
Atenta a outra faísca atraente

“Deixo-te a ti as questões,
oh corpo inútil!”
Resmunga ela
Enquanto mergulha...

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

No dia um

Está demasiado calmo para escrever,
Escrever da forma que o tenho feito:
Com todos aqueles lamentos,
Todas aquelas lágrimas engolidas,
Aquelas feridas abertas e aquela dor...

As palavras soam-me tão estranhas
Tão distantes, sem sentido...
Os meus dedos tentam alcançá-las
Porém, o esforço perde-se no ar
E os dedos acabam por desistir.

Não sei escrever palavras bonitas
Como aquelas que se gostam de ler
Ou aquelas que obrigam a repensar

Essas palavras não as encontro
Para paz interior e finais felizes,
Apenas para desespero da falta
Dessas emoções a atingir...

Ouço as gargalhadas dos que conversam,
O galope desenfreado da cadela...

01 de Janeiro de 2005

[Encontrava-me, nesta altura, numa aldeia ecológica. O ar era tão puro, o verde tão bonito, as montanhas inspiradoras e uma calma pairava em mim. O yoga, a dança e a meditação eram práticas correntes o que conferia uma paz (ainda que momentânea) de espiríto. Passei lá apenas uma noite e uma tarde, mas adorei a experiência. Foi, com certeza, a melhor passagem de ano que já tive oportunidade de experienciar.]

domingo, fevereiro 27, 2005

The Chains of Our Mind

It seems what makes us happy
Is what we wanted to have
It seems our present happiness
Has its place in the past

It seems we don’t seek the future
But we regret what it’s gone
And we don’t live the present
Trapped with all these thoughts

We go round and round…
Staying always in the same place
We don’t seem to find a way
To get free from these chains

16th January 2005

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Afastamento

Já não sabes disfarçar que a minha presença te incomoda, que a minha imagem fere os teus olhos. Já não sabes disfarçar... Eu vejo na tua cara o desgosto quando me aproximo, as tuas expressões e os teus olhares confirmam os receios que sempre tive. Os receios que nunca me abandonaram porque me sentia insegura face ao que se passava. Foi tudo tão rápido e tão intenso que nunca julguei que durasse por muito tempo. Tudo o que nos era comum parecia ilusão; todos os olhares amáveis que substituiam as palavras, todos os sons desencadeados que formavam conversas... Nesse espaço de tempo senti-me intimimamente ligada a ti, julguei ter encontrado alguém com quem um simples gesto bastava, alguém com os mesmos gostos e ideias, com as mesmas paixões e com necessidades semelhantes... Mas o tempo passou... e os meus receios realizaram-se, os meus receios realizaram-se! Naquela alegria, tantas vezes eufórica, senti-me bem, compreendida e arrisco-me a dizer amada, mas o mundo fora desse circuito continuava e tu e eu viviamos nele, mas nele eu não quis continuar... sentia-me receosa de continuar num mundo com o qual nunca me identifiquei tanto como contigo. Mas tu tinhas uma vida nesse mundo e, muitas vezes, tentei seguir-te, caminhar contigo, integrar-me, mas sempre me senti uma intrusa, uma desconhecida... Era o teu mundo não o meu, um mundo há muito construido por ti e no qual nunca tinha existido. Era tão difícil sentir-me parte dele. Até que cometi um erro. Quando me tentei ligar a outra pessoa, quando julguei que o tempo nos ajuda a gostar, mas afinal... Esse tempo causou problemas e, penso que foi nessa altura que tudo se quebrou. Quando senti vergonha de falar com um olhar, quando já pouco me contavas, quando te senti a afastar. Foi apenas nessa altura que me senti cansada de variar o meu humor pelos teus, foi aí que senti que tu para mim agias de outra forma. Senti-me triste... os meus receios apoderavam-se, agora, de mim com uma força extraordinária. As minhas emoções para contigo começaram a variar a um ritmo muito acelerado e, então, calei-me e afastei-me. Esperei, sinceramente, que sentisses a minha falta e viesses ter comigo e esse foi outro dos meus erros. Não tinha o direito de esperar tal coisa. Mas eu quis apenas uma prova... E, assim de repente, tudo o que se tinha passado entre nós pareceu-me um sonho muito longínquo. A nossa ligação quebrou-se como um vidro... rachou, aos poucos foram caindo pedaços, com o tempo foram calcados e agora já não são se vêem... estão enterrados no chão. Tento passar por cima e esquecer porque sei que nada jamais será igual... a mágoa profunda não deixa. Mas é tão difícil fazer de conta que nada se passou! É difícil tentar esquecer a única pessoa com quem mais me identifiquei. Por isso, espero tanto poder sair daqui e ir para um sítio longe onde as recordações não me visitem, onde tudo seja novo e onde possa começar, uma vez mais, do zero. É errado... mas o passado jamais tornará a ser presente e o futuro que se aproxima não traz a estrutura desse período que tanto amei. E deambulo, agora, por aqui e por ali esperando...

sábado, fevereiro 19, 2005

Por cobardia

Por vezes, quero tanto voar...! Levantar os pés, erguer o corpo e lançar-me à escuridão da noite, esperando ser agarrada pelos seus braços, esperando ser abraçada pelo bafo envolvente do seu ar. Quero sentir-me envolvida naquela névoa suave; quero ser aconchegada pelo poder do seu sopro. Quero sentir o frio gélido, que passeia no ar, gelar-me o nariz, moldar-me a cara e entrar, sorrateiramente, no meu corpo e quero ver o vapor sair da minha boca e desvanecer-se no céu escuro.
Quero sentir-me a voar de encontro às estrelas; de encontro aos chamados anjos. Quero ter o que parece ser uma utopia: a paz de espírito que fará com que possa dormir descansada. Sim... quero poder fechar os olhos sem receios, estender os braços e suspirar... Quero poder expôr-me ao mistério da noite sem medos. Quero ser assim, segura de mim, livre do mundo provocador e sentir-me em consonância com o mundo puro. Quero ter os olhos bem abertos para poder ver com sentimento o escuro que me rodeia; para poder ver a claridade, o brilho, a magia do negro cerrado.
Quero olhar o céu em noites de lua-cheia e uivar... rasgar a pele e arrancar os ossos com cuidado e expôr os meus pulmões ao mundo.
Por vezes, quero tanto gritar... Abrir a boca e soltar a voz até ficar rouca e sem força. Quero cantar e lançar o meu som aos cantos do mundo.
E por vezes, quero tanto rasgar-me...! Despir as roupas, arranhar a pele, sangrar, correr e escorregar... Quero partir os dedos dos pés, virar os dedos das mãos, abrir a boca até cortar os lábios, estender os tendões do pescoço até não poder mais... Quero tanto soltar-me...! Não existir aqui, neste corpo imundo que me causa nojo e desgosto; este corpo que parece não ajudar e só me desgasta, que me impede e me anestesia. Quero ser uma só e mais ninguém.
Tantas vezes quis entrar dentro de mim e procurar, percorrer, encontrar... mas em cada tentativa uma nova porta me barrava o caminho, uma nova janela se fechava e me deixava às escuras num mundo tão desconhecido. Então, por vezes, ousei desistir... Ousei deixar as portas fechadas e o interior abafado. Ousei desistir porque não conseguia ver a luz... Quis a facilidade e não tive forças para continuar. Não quis percorrer o escuro com receio e acabei por barrar a entrada em mim. Tive medo; medo do que não via, do que não sabia e voltei para trás, tentando esquecer que um dia tentei, para que não vivesse com a memória dum falhanço. Não queria admitir o maior erro. Quis escondê-lo por detrás do sorriso e dos gestos amistosos, tentei ignorar a escuridão pensando que aquela porta não seria necessária aberta e enclausurei, então, o meu ser naquele mundo frio e dum negro pesado que me turva a mente. Desisti, porque a cobardia, uma vez mais, se revelou em mim. Sou cobarde e o peso da preguiça faz-me rastejar nestes chãos sujos que vomito... Ah! Como pude pensar que seria fácil? Como pude fechar-me por dentro e pensar que seria a melhor maneira? Que seria a melhor maneira, deixar-me às escuras e ir viver para um mundo de falsas luzes e enganos constantes... Como pude ser tão enganada por mim? Eu sei e talvez sempre soubesse que o meu ser definhava dentro das portas que construi em mim. Eu sei e sempre soube que teria que lidar com a sua tristeza, mais cedo ou mais tarde. Contudo, também sei que lido com ele todos os dias... De cada vez que solto um som mais forte, de cada vez que escrevo uma palavra, que crio poemas e relatos de mim... de cada vez que amuo quando o orgulho se sobrepõe. Sem me aperceber, deixo fugir um pouco do meu ser de dentro de mim a cada instante, a cada risada, a cada olhar, por mais que o tente desviar... Sei que sou sem querer e também sei que o que sou é, muitas vezes, as palavras rudes, o fugir de um gesto afectuoso, o refugiar-me na distância. Sei que, talvez, possa ser presente pela minha ausência ou pela minha euforia estranha. Sou uma antítese aos olhos do mundo e aos meus olhos. Em suma, mostro o meu ser a todos a todo o momento... todavia, a subtileza desse mostrar pode-se desvanecer na brisa do dia. Por isso, anseio as noites. Anseio o escuro porque sei que é dele que fujo, porque sei que é ele que tenho de enfrentar. Tento formar a coragem à medida que sinto o momento chegar... mas, por todas as vezes, vou dormir mais cedo deixando a batalha para outra noite. Vou descansar o corpo, esperando amassar a memória de outra noite de derrota por ausência. Tento esconder-me no sono e perder-me nos sonhos de um mundo alheio e tão meu. Por isso, custa o acordar... Não! Não quero levantar-me e esperar por outro momento de luta que sei que nunca conseguirei vencer.