segunda-feira, fevereiro 28, 2005

No dia um

Está demasiado calmo para escrever,
Escrever da forma que o tenho feito:
Com todos aqueles lamentos,
Todas aquelas lágrimas engolidas,
Aquelas feridas abertas e aquela dor...

As palavras soam-me tão estranhas
Tão distantes, sem sentido...
Os meus dedos tentam alcançá-las
Porém, o esforço perde-se no ar
E os dedos acabam por desistir.

Não sei escrever palavras bonitas
Como aquelas que se gostam de ler
Ou aquelas que obrigam a repensar

Essas palavras não as encontro
Para paz interior e finais felizes,
Apenas para desespero da falta
Dessas emoções a atingir...

Ouço as gargalhadas dos que conversam,
O galope desenfreado da cadela...

01 de Janeiro de 2005

[Encontrava-me, nesta altura, numa aldeia ecológica. O ar era tão puro, o verde tão bonito, as montanhas inspiradoras e uma calma pairava em mim. O yoga, a dança e a meditação eram práticas correntes o que conferia uma paz (ainda que momentânea) de espiríto. Passei lá apenas uma noite e uma tarde, mas adorei a experiência. Foi, com certeza, a melhor passagem de ano que já tive oportunidade de experienciar.]

domingo, fevereiro 27, 2005

The Chains of Our Mind

It seems what makes us happy
Is what we wanted to have
It seems our present happiness
Has its place in the past

It seems we don’t seek the future
But we regret what it’s gone
And we don’t live the present
Trapped with all these thoughts

We go round and round…
Staying always in the same place
We don’t seem to find a way
To get free from these chains

16th January 2005

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Afastamento

Já não sabes disfarçar que a minha presença te incomoda, que a minha imagem fere os teus olhos. Já não sabes disfarçar... Eu vejo na tua cara o desgosto quando me aproximo, as tuas expressões e os teus olhares confirmam os receios que sempre tive. Os receios que nunca me abandonaram porque me sentia insegura face ao que se passava. Foi tudo tão rápido e tão intenso que nunca julguei que durasse por muito tempo. Tudo o que nos era comum parecia ilusão; todos os olhares amáveis que substituiam as palavras, todos os sons desencadeados que formavam conversas... Nesse espaço de tempo senti-me intimimamente ligada a ti, julguei ter encontrado alguém com quem um simples gesto bastava, alguém com os mesmos gostos e ideias, com as mesmas paixões e com necessidades semelhantes... Mas o tempo passou... e os meus receios realizaram-se, os meus receios realizaram-se! Naquela alegria, tantas vezes eufórica, senti-me bem, compreendida e arrisco-me a dizer amada, mas o mundo fora desse circuito continuava e tu e eu viviamos nele, mas nele eu não quis continuar... sentia-me receosa de continuar num mundo com o qual nunca me identifiquei tanto como contigo. Mas tu tinhas uma vida nesse mundo e, muitas vezes, tentei seguir-te, caminhar contigo, integrar-me, mas sempre me senti uma intrusa, uma desconhecida... Era o teu mundo não o meu, um mundo há muito construido por ti e no qual nunca tinha existido. Era tão difícil sentir-me parte dele. Até que cometi um erro. Quando me tentei ligar a outra pessoa, quando julguei que o tempo nos ajuda a gostar, mas afinal... Esse tempo causou problemas e, penso que foi nessa altura que tudo se quebrou. Quando senti vergonha de falar com um olhar, quando já pouco me contavas, quando te senti a afastar. Foi apenas nessa altura que me senti cansada de variar o meu humor pelos teus, foi aí que senti que tu para mim agias de outra forma. Senti-me triste... os meus receios apoderavam-se, agora, de mim com uma força extraordinária. As minhas emoções para contigo começaram a variar a um ritmo muito acelerado e, então, calei-me e afastei-me. Esperei, sinceramente, que sentisses a minha falta e viesses ter comigo e esse foi outro dos meus erros. Não tinha o direito de esperar tal coisa. Mas eu quis apenas uma prova... E, assim de repente, tudo o que se tinha passado entre nós pareceu-me um sonho muito longínquo. A nossa ligação quebrou-se como um vidro... rachou, aos poucos foram caindo pedaços, com o tempo foram calcados e agora já não são se vêem... estão enterrados no chão. Tento passar por cima e esquecer porque sei que nada jamais será igual... a mágoa profunda não deixa. Mas é tão difícil fazer de conta que nada se passou! É difícil tentar esquecer a única pessoa com quem mais me identifiquei. Por isso, espero tanto poder sair daqui e ir para um sítio longe onde as recordações não me visitem, onde tudo seja novo e onde possa começar, uma vez mais, do zero. É errado... mas o passado jamais tornará a ser presente e o futuro que se aproxima não traz a estrutura desse período que tanto amei. E deambulo, agora, por aqui e por ali esperando...

sábado, fevereiro 19, 2005

Por cobardia

Por vezes, quero tanto voar...! Levantar os pés, erguer o corpo e lançar-me à escuridão da noite, esperando ser agarrada pelos seus braços, esperando ser abraçada pelo bafo envolvente do seu ar. Quero sentir-me envolvida naquela névoa suave; quero ser aconchegada pelo poder do seu sopro. Quero sentir o frio gélido, que passeia no ar, gelar-me o nariz, moldar-me a cara e entrar, sorrateiramente, no meu corpo e quero ver o vapor sair da minha boca e desvanecer-se no céu escuro.
Quero sentir-me a voar de encontro às estrelas; de encontro aos chamados anjos. Quero ter o que parece ser uma utopia: a paz de espírito que fará com que possa dormir descansada. Sim... quero poder fechar os olhos sem receios, estender os braços e suspirar... Quero poder expôr-me ao mistério da noite sem medos. Quero ser assim, segura de mim, livre do mundo provocador e sentir-me em consonância com o mundo puro. Quero ter os olhos bem abertos para poder ver com sentimento o escuro que me rodeia; para poder ver a claridade, o brilho, a magia do negro cerrado.
Quero olhar o céu em noites de lua-cheia e uivar... rasgar a pele e arrancar os ossos com cuidado e expôr os meus pulmões ao mundo.
Por vezes, quero tanto gritar... Abrir a boca e soltar a voz até ficar rouca e sem força. Quero cantar e lançar o meu som aos cantos do mundo.
E por vezes, quero tanto rasgar-me...! Despir as roupas, arranhar a pele, sangrar, correr e escorregar... Quero partir os dedos dos pés, virar os dedos das mãos, abrir a boca até cortar os lábios, estender os tendões do pescoço até não poder mais... Quero tanto soltar-me...! Não existir aqui, neste corpo imundo que me causa nojo e desgosto; este corpo que parece não ajudar e só me desgasta, que me impede e me anestesia. Quero ser uma só e mais ninguém.
Tantas vezes quis entrar dentro de mim e procurar, percorrer, encontrar... mas em cada tentativa uma nova porta me barrava o caminho, uma nova janela se fechava e me deixava às escuras num mundo tão desconhecido. Então, por vezes, ousei desistir... Ousei deixar as portas fechadas e o interior abafado. Ousei desistir porque não conseguia ver a luz... Quis a facilidade e não tive forças para continuar. Não quis percorrer o escuro com receio e acabei por barrar a entrada em mim. Tive medo; medo do que não via, do que não sabia e voltei para trás, tentando esquecer que um dia tentei, para que não vivesse com a memória dum falhanço. Não queria admitir o maior erro. Quis escondê-lo por detrás do sorriso e dos gestos amistosos, tentei ignorar a escuridão pensando que aquela porta não seria necessária aberta e enclausurei, então, o meu ser naquele mundo frio e dum negro pesado que me turva a mente. Desisti, porque a cobardia, uma vez mais, se revelou em mim. Sou cobarde e o peso da preguiça faz-me rastejar nestes chãos sujos que vomito... Ah! Como pude pensar que seria fácil? Como pude fechar-me por dentro e pensar que seria a melhor maneira? Que seria a melhor maneira, deixar-me às escuras e ir viver para um mundo de falsas luzes e enganos constantes... Como pude ser tão enganada por mim? Eu sei e talvez sempre soubesse que o meu ser definhava dentro das portas que construi em mim. Eu sei e sempre soube que teria que lidar com a sua tristeza, mais cedo ou mais tarde. Contudo, também sei que lido com ele todos os dias... De cada vez que solto um som mais forte, de cada vez que escrevo uma palavra, que crio poemas e relatos de mim... de cada vez que amuo quando o orgulho se sobrepõe. Sem me aperceber, deixo fugir um pouco do meu ser de dentro de mim a cada instante, a cada risada, a cada olhar, por mais que o tente desviar... Sei que sou sem querer e também sei que o que sou é, muitas vezes, as palavras rudes, o fugir de um gesto afectuoso, o refugiar-me na distância. Sei que, talvez, possa ser presente pela minha ausência ou pela minha euforia estranha. Sou uma antítese aos olhos do mundo e aos meus olhos. Em suma, mostro o meu ser a todos a todo o momento... todavia, a subtileza desse mostrar pode-se desvanecer na brisa do dia. Por isso, anseio as noites. Anseio o escuro porque sei que é dele que fujo, porque sei que é ele que tenho de enfrentar. Tento formar a coragem à medida que sinto o momento chegar... mas, por todas as vezes, vou dormir mais cedo deixando a batalha para outra noite. Vou descansar o corpo, esperando amassar a memória de outra noite de derrota por ausência. Tento esconder-me no sono e perder-me nos sonhos de um mundo alheio e tão meu. Por isso, custa o acordar... Não! Não quero levantar-me e esperar por outro momento de luta que sei que nunca conseguirei vencer.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Hurt

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear my crown of shit
On my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stain of time
The feeling disappears
You are someone else
I am still right here

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
You could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Nine Inch Nails

Resolvi fazer post desta música porque a adoro. Tem uma letra fenomenal, muito tocante e sentida, bem como a melodia que é bastante calma e nos embala nos sons e nas palavras.
Aproveito também para dedicar este post à pessoa que me deu a conhecer a música que, por sua vez, também gosta muito dela. Na minha opinião, e ainda não confrontei a pessoa com esta, a letra da música tem muito a ver com o seu ser; a ideia contida é muito semelhante aos seus pensamentos e certos versos são semelhantes a frases que outrora disse numa das nossas conversas alargadas.
Apercebi-me desse facto há pouco enquanto me deixava levar pela música e achei necessário mostrar-to, duma forma personalizada, devo dizer :)

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Assim

Tenho saudades de escrever como já não me lembrava, mas sinto que as minhas mãos estão magoadas, frágeis e sem forças. A minha cabeça pesa-me e não consigo pensar com clareza. Os sentimentos formam nós que me apertam o coração. O meu coração que é frio e duro como uma rocha, aquele a quem nunca ninguém tem acesso e, portanto, do qual nada sabem. O meu coração é assim... pequeno, gélido e só... Pequeno porque o aperto com as amarras da repugnância do emocional; gélido porque não permito em tempo algum que um raio de luz ou uma onda de calor nele penetre; só porque os outros não fazem nem nunca farão parte dele. É assim, sobrevivente da minha malícia, esquartejado pelas minhas próprias mãos, sufocado pelo aperto de não querer sentir... Eu sou o meu coração. Aquela que não se dá nem deixa que lhe deêm. A que sorri com vontade na presença dos outros, mas chora sozinha no seu canto. Aquela que tem vergonha das suas lágrimas e engole-as com o desgosto num sufoco. A que fica com o sabor amargo na boca das palavras mal ditas, a quem dói os ouvidos por não saber escutar, a que se revolta por não saber compreender. Esta sou eu. A distante, a ausente, a rapariga dos sorrisos frios, das mãos gélidas e dos olhos grandes e baços... Os olhos que já não são janelas para o interior, mas vidros embaciados por entre os quais nada é visível. Sou a rapariga da euforia da rua e da tristeza do quarto fechado. O que sinto está enterrado em mim e nas minhas palavras. Os meus textos são o ponto de luz na escuridão da minha própria incompreensão. São a minha libertação do sufoco das lágrimas secas e dos sorrisos apagados... São o guindaste amável que afasta o peso da minha cabeça. São as mãos delicadas de um ninguém que me massaja os ombros e a face. São a brisa morna de Verão que me oferece uma calma momentânea. Os meus textos são a fonte de serenidade que resta em mim. Deixo nas palavras rudes e desencadeadas o sentimento recalcado do meu coração. Transfiro o meu sofrimento para os textos para sentir o meu próprio alívio. Deixo a vós, palavras, a linha que cose o meu coração, o fogo que queima as minhas mãos, as lágrimas ácidas que corroem os meus olhos, a amargura que me resseque os pulmões e a secura que me empasta a boca. Deixo-vos os meus gritos para que me dêm o silêncio e deixo-vos o meu ser agitado para que eu possa dormir sem pressaltos.

Deixem-me...


Raquel (olhares.com)

Deixem-me porque eu quero o silêncio que nunca existe... Deixem-me porque eu quero o que não me podem dar... Deixem-me porque eu sou uma antítese e causo danos em meu redor... Deixem-me porque sou rude, revoltada e sem mão nos meus actos... Deixem-me porque não quero ser responsável... Deixem-me porque me sinto morta, presa ao chão e lá quero ficar... Deixem-me porque eu sei que assim não vos perturbo mais...

07 de Dezembro de 2004

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Mergulhar

*

Sustenho a respiração
E mergulho...

Cansei-me do calor.

Quero algo fresco...
Preciso despertar!

Estendo os braços
E puxo-os para trás
Com toda a força que tenho.

Bato os pés energicamente
Para sentir os ossos estalar.

Preciso esticar o corpo.

Fecho os olhos
E deixo-me deslizar...
Sinto a agua fria
Moldar a minha cara.

Ah...! Arrefeço...

Encolho-me...
E deixo-me rolar
Ao sabor da àgua.

Sinto um turbilhão de sensações
Percorrer todo o meu corpo.
Mil imagens correm na minha mente.

Ah...! Sinto-me viva.

A frescura trespassa o corpo
E toca-me o espírito.

Agora posso sorrir...
* fotografia por Ricardo B. Gomes (olhares.com)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Despreendimento

Hoje vou tentar escrever algo feliz
Algo com um sabor doce e uma cor alegre
Deixo para trás, por hoje, o preto e branco
Deixo para trás lamúrios, choros e gritos

Esboço um sorriso para que seja mais fácil
Respiro fundo para sentir o que me rodeia
Fecho os olhos e inclino a cabeça para trás
Tento relaxar deste stress diário fatigante

Agora estou pronta para começar a escrita
Mas não sei o que sinto nem o que penso
Que posso eu escrever com esta indefinição?
Tento recordar... esforço-me por relembrar!

Um cheiro morno passa por meu nariz
Um sol quente aquece a minha face branca
Sinto-me a ganhar cor e a ficar com calor
Dispo instintivamente o casaquinho que trago

Sinto a brisa que brincava com meus cabelos
E, agora, vejo o verde da relva nos meus pés
Estou descalça e ela é macia e faz cócegas
E as flores dão cor a esta tela de sensações

Decido sentar-me nesta almofada natural
Banhada por esta luz suave e, agora, morna
Fecho os olhos, mole por todo este descanso
Passo os dedos pelas pétalas e pela relva

Sinto-me a subir...levada pela brisa morna
Deitada, com a cabeça nos braços recolhidos
Abro os olhos e vejo as nuvens de algodão
Sinto-me calma naquela imensa suavidade

Sinto-me a pairar sem o peso do corpo
Que fui obrigada a carregar quando nasci
Sinto-me, então, leve e livre de tentações
Deixo-me ir por onde me leva esta brisa

Não quero descer, não quero voltar
A terra já acho que conheço demasiado
O pó que me cega e me sufoca deixo-o lá
Lá em baixo onde a carne ficou sem mim

Agora sou só eu aqui neste ar diferente
Respiro um ar puro que nunca respirei
Não preciso beliscar-me, nem tocar-me
Sei que sou... Não é sonho...

Por isso, não receio acordar para a terra
Sei que estou desperta, mais que nunca
A anestesia do corpo deixei-a para trás
Sinto, agora, o despertar do espírito

Quero ir...

Não receio deixar tudo para trás
O mundo material em que vivi
O que me importa vem comigo
Vem em mim, faz parte de mim

Agora vou...

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Chiu...


Lina Maria (olhares.com)

Quero só deitar-me na cama ou no chão e ficar... no meu silêncio, sem ouvir a respiração de mais ninguém a não ser a minha... a minha respiração lenta e pausada. Quero sentir-me e ouvir-me... Quero estudar-me e compreender-me. Quero ficar aqui... no escuro, no silêncio da minha alma inquieta, na minha paz... Não sei ao certo o que procuro, mas sei que o faço. Talvez queira encontrar a ternura do meu ser... Mas... querer-me-ei ver... verdadeiramente? Não sei... mas, para já, sei que quero silêncio, escuro e apenas eu.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Incapacity

I try to express my thoughts
But I usually fail
I mix the words
And I find no trail

Then I try not to think
And just try to feel
To write the words
That can make me heal

But in this path
Foggy and uncertain
I find my wounds
Open, breathing pain

And so I just quit
Tired of this confusion
I leave my bruises
To a better surgeon

2nd January 2005

P.S. Prefiro o português para me exprimir, no entanto, decidi fazer post deste poema porque foi o primeiro que fiz em inglês.

terça-feira, janeiro 11, 2005

MA

"Don't drag me down
Just because you're down
And just cause you're blue
Don't make me too(...)"

Massive Attack - Better Things

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Caminho

Há em mim um sufoco
Um desespero calado
Um caminho oco
Enfim, apagado...

Um destino sem traço
Com pés descalços
Um caminho sem passo
Por tantos precalços

Um medo envolvente
Tão medonho, tão frio
Tão temido, tão presente
Tão gélido como é o rio

E, assim me envolve
Num fechar cerrado
Que, por vezes, volve
O que não devia ser encontrado

25 de Novembro de 2004

Este poema ainda é do tempo em que escrevia poesia, por vezes, exageradamente. Não sei porque ficou guardado. Já não me lembro da altura em que o escrevi, mas sei que continua a aplicar-se a este presente. Não sei que mais dele dizer... saiu-me assim e assim ficou. Enfim... as palavras foram ditas.

És aborrecida!

Estou demasiado cansada para escrever algo decente. Mas houve um certo alguém que me despertou para tal e eu fiquei em bicos de pés. Conhecem a sensação? Aquela em que não conseguem pensar em muito mais a não ser em equilibrarem-se; não estão com os pés bem assentes no chão para raciocinarem nem com eles completamente no ar, a flutuarem, para deixar fluir as emoções. Pois bem, estou nesse impasse, a tentar decifrar se quero escrever ou não. Bem... com papel e caneta à minha frente a vontade aparece sempre; a questão é se eu serei capaz de fazer uso desses instrumentos que tanto valor têm para mim. Ah... e mais uma vez esta questão importuna-me. Tantas e tantas vezes já lhe dei o papel principal nos meus textos, mas não há maneira de se cansar dessa posição; sempre que penso em escrever, lá vem ela (contente da vida) para me pedir , ou exigir, um pouco mais de fama.
- Não te cansas que eu diga sempre o mesmo , ainda que por variadas palavras, acerca da tua pessoa?
É aborrecido, devo confessar. por vezes, ocorrem-me tantos (e diversos) temas e quando os tento escrever, lá vem ela intrometer-se. Parece que é apenas ela o infortúnio da minha vida, a questão de fundo dos meus problemas.
- Ah! como tu consegues aborrecer-me (até) quando me encontro em dias de sossego e sorrisos de aguarelas. Podias descansar um pouco (de preferência quando eu fosse escrever). Fazia-te a cama se necessário, desde que me deixasses na minha paz. E por tanto me importunares perco-me no raciocínio. Sei que ia escrever sobre um assunto que me anda a assolar, mas tu agora tiraste-me a vontade. Arre! Que o vento te leve.

terça-feira, janeiro 04, 2005

"Nota ao acaso"

"O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história de Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam.

(...)

Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas - tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassilábicos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo."

Álvaro de Campos (1935?)

Citação

"Conheceram-me logo pelo que eu não era e eu não desmenti e perdi-me. Quando quis tirar a máscara estava colada à pele."

Álvaro de Campos

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Em meu peito

Percorro o peito com os dedos...
Levo-os à boca e recordo
Aqueles doces momentos
Que me deixaram marcada
Neste peito que acaricio
Neste peito que palpita
Quando recordo, revivo...

Mas também é este peito que arde
É este peito que dói sem noção
Este peito que dá vontade de rasgar
De abrir, expôr, libertar...

É este peito que arde
Quando as palavras não fartam
Quando as imagens cansam
Quando tudo fica preso
Quando tudo explode e não se vê

É neste peito...
Que o invisível ocorre
Que o inexplicável surge

É este peito...
Que a dor abraça.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Agonia poética

Eu sinto-a bem perto de mim.
Desenha-me sorrisos nos lábios.
Deixa um brilho em meus olhos.
Eu sinto-a...
Mas não a sei...

Como assim?

Sinto os nós a formarem-se
"Como assim?" pergunto
Saber... O que há para saber?

Ai! Os pensamentos que vêm
E logo partem
E me deixam de rastos
Junto com as emoções
Que não sei
Mas que sinto...

Ai! Porquê escrever assim?
Porquê desta forma
E não daquela que ocupa as linhas?

Só vejo o branco...

Gemo em silêncio
As mãos anseiam por se contorcerem
A cabeça por se lançar para trás
Os olhos por fecharem
Os dentes por rangerem
Tão fortemente, com vontade de partir

Ai! Esta agonia que me parte
Não me mata
Porque morte de poeta não dói
O que dói é o que o agonia
As dores de pensamento
A paragem que a mão decide fazer
As dores dos ossos e dos músculos
Os lábios que anseiam ser trincados

Ai! Morte de poeta só existe
Naquelas letras que se formam
Para aliviar a dor
Para sujeitar o poeta ao papel
À tinta, à mão, aos olhares

As letras matam o poeta
Porque são arma perfeita
Contra a imperfeição da mão
A mão que dói quando escreve
A mão que não escreve
Porque não sabe
A mão que não se liga ao coração
E só obedece à mente
Ao raciocínio que mata o poeta

O poeta morre pelas mesmas mãos
Que julga poder usufruir
Para aliviar o seu sofrimento

O poeta morre...
Sem querer
Por não saber
E por sentir.

domingo, dezembro 26, 2004

Impedimento

Sinto o nó percorrer o peito e alojar-se na garganta com vontade de criar raízes. Sinto a mão parar para pensar e esperar para escrever.
É tão triste este cenário... Os olhos e a boca descaem e as sobrancelhas franzem. Sinto um novo nó. Desta vez, no estômago. Não sei se grito ou se choro. Sinto-me tão frustrada, irritada, desapontada comigo mesma. Parece que fui decapitada e de mãos cortadas para ser castigada por um crime anónimo e desconhecido. Quero lhes bater. Sim! As minhas mãos anseiam por apertar um pescoço e com as unhas rasgar a pele, arranhar, cortar, desfazer... A amabilidade do meu olhar evapora-se como uma gota de água num deserto abraçado pelo calor infernal. Os meus dedos abrem e fecham esperando encontrar algo para esmagar. Sinto uma vontade incontrolável de morder. Os meus lábios começam a sangrar de tanto os roer e consigo ouvir o roçar dos dentes com vontade de rachar. A fúria eleva o meu corpo, agita-o. Sinto como se me amarrassem os braços com tanta força que até os meus ossos gemem; sinto-me a ser agitada por mãos frias, fortes que amarram, arranham, prendem; sinto as unhas fincarem a carne dos meus fracos braços... Caio abandonada, gelada e moribunda. Sinto, agora, o cheiro da dor, do sangue que escorre nas minhas vestes e acaricia a minha pele. Levo as mãos ensanguentadas aos lábios e saboreio o sabor metálico daquele líquido vermelho que teima em sair do meu corpo. Dói-me o peito e os braços já nem os sinto. Mas o peito começa-me a arder... Dói, dói, dói! Sinto-me a queimar por dentro... As lágrimas caem, agora, como forma de fuga daquele fogo interior. O meu corpo atraiçoa-me... de tal maneira, que desejo separar-me dele; desejo afastar-me e ser livre. Libertar-me daquela jaula que se mata e me impede; de transbordar emoções, de proferir sons, de escrever palavras. Aquela jaula que me impede de me exprimir, que me apresenta obstáculos que me levam à loucura, ao masoquismo; porque sim! São minhas as mãos gélidas que me agitam e me rasgam, vem de mim o sofrimento de que tanto me lamento, vem de mim a estupidez de não saber escrever o que mais quero... Sim! Vem de mim a deficiência e não do corpo.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Preguiça

Sento-me e olho para o lado,
Deito a cabeça e penso...

Perto do sono
E sem querer dormir...
(É só preguiça!)

Sinto-me desconfortável
E ajeito a cabeça entre as mãos.

As pálpebras descem,
Mas estou longe de adormecer.

Fico pachorrenta
Sem saber o que fazer...

Saber até sei,
Mas não tenho vontade.

Milhares de cenários passam-me pela cabeça...
E eu... sem sequer um dedo mexer.

Ah preguiça que me consomes!
Roubas-me a vontade e estendes-me assim...

Julgava eu que tinha imaginação,
Julgava eu que tinha energia
Até chegares tu e dizeres-me que não.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Alguém

Sinto que ela aprendeu a não chorar, talvez esteja anestesiada por todos os comprimidos que a cercam. Embebida em tanta dor física e mágoa emocional, como é possível que não grite? Marcada no corpo e na mente pela história que a fez, deixada com feridas abertas e lágrimas outrora secas por uma mão trémula ainda macia, vejo-a agora de boca fechada e braços cruzados, sentada no sofá com a manta nas pernas a olhar a televisão. Mas o seu olhar está perdido; perdido nas memórias que a assolam e que a prendem ao passado. Vejo o seu corpo ali, mas sinto que o seu espírito viajou. Não lhe sinto a presença e entristece-me saber que a sua chama se apagou, os seus sorrisos morreram e as gargalhadas... já nem me lembro como eram. No entanto, ela não grita, não chora... Talvez lamente os seus males em suspiros... mas são fracos e perdem-se no ar. Apenas o seu olhar a denuncia; um olhar perdido, triste, cheio de dor. Observo-a, tantas vezes, a mergulhar profundamente nas emoções que a consomem e nos pensamentos que a confundem. Sei que quando olha o mar transporta-se para aquele infinito do horizonte e vagueia, divaga, sente... Sei que gosta daquela linha inatingível porque a leva para longe; longe do mundo em que foi posta para viver, conviver e sofrer. Sei que se quer afastar da dor terrível que se apodera do seu corpo (daí os comprimidos) e dos golpes duros do pensamento que esfaqueiam a sua mente. Isola-se... em pensamentos e palavras... Isola-se... e tantas vezes não é vista.

14 de Dezembro de 2004

domingo, dezembro 12, 2004

Passagem de um livro

"Há em nós um ser escondido, desconhecido, que fala uma língua estrangeira, e com o qual, mais cedo ou mais tarde, teremos que conversar."

Fraçois Taillandier, in A Minha Melhor Amiga

Eu

Eu, eu, eu, eu...
Porque não tu ou vós
Ou até mesmo eles?
Porquê sempre eu
O tema dos meus escritos,
A razão das minhas palavras,
A água do meu choro,
O motivo do meu lamentar?

Sinto-me incapaz,
De membros mutilados,
De mente vazia
E ideias perdidas
Para escrever
O teu,
O vosso,
O deles.

Estou dentro do eu
Para poder compreender,
Decifrar, achar razões
E deixá-las no papel.
Mas não entro num tu,
Num vós, num eles
Para vasculhar e perceber
O que nem sei procurar.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Digo tanto

Digo tanto
Que me afogo nas palavras
E perco-me nos pensamentos

Digo tanto
Que não encontro linha de raciocínio
E tudo o que digo é fora de tempo

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Passagem de um livro

"Se não vistes nenhum de nós,
e por isso não existimos,
também não existis vós,
porque também não vos vimos."

Manuel António Pina, in A lha do Chifre de Ouro

domingo, dezembro 05, 2004

Impaciência

É a impaciência que me arrasta
Até às masmorras da incomprensão
E me anestesia os sentidos
Perante gestos e palavras da multidão

É a impaciência que me atira
Para os caminhos do delírio
E para as malhas do desespero
Que me consomem o espírito

É a impaciência que me humilha
A cada gesto mal feito
A cada palavra mal dita
Que tornam o meu exprimir sem jeito

É a impaciência que me desgasta
Por não me ensinar como agir
E por me deixar tão fraca
Sem forças para mais fingir

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Deixa...

Deixa morrer o que já parecia morto. Deixa morrer o que pelo passado quer ser enterrado. Não puxes por algo que já não tem por onde puxar. Não queiras o que já não há para dar. A luz que queres voltar a ver já foi coberta pelo manto da escuridão que não consegues decifrar, que não consegues levantar. Não podes controlar tudo, sabes? Não controlas sequer uma pequena parte. Não te exaltes pelo que já nada podes fazer. Deixa estar... Não está tudo ao teu alcance. Não está tudo nas tuas mãos. Sim, vê-te como pequeno que és. O poder que julgas possuir é na verdade um véu sobre a tua impotência. Cobres-te do que não és para poderes aguentar o que não consegues. Esquece, deixa estar... O que tem que ser não pode ser mudado por mais que queiras, há coisas que têm que ser da maneira que são, e não da maneira que queres que sejam, por isso não te exaltes pelo que nunca vais conseguir, por isso, deixa morrer o que quer ser morto e enterrado.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Dentro de mim

É nas perguntas que me perco
E é nesse perder que me adoro.
É nessa facilidade de me ausentar que me admiro
E é nesse remoer de pensamentos que suspiro.
É nesses momentos de clareza que sorrio
E é nesses sorrisos que rio.

Quando penso,
Vagueio,
Imagino,
Divago...

É nesse viajar ao interior que vejo
E é nesse ver que percebo.
É nesse murmurar que me escuto
E é nesse escutar que luto.
É nessa luta constante em que existo
E é nesse cansaço que desisto.

terça-feira, novembro 30, 2004

Se...

Eu escreveria tanto mais
Se fosse Bocage ou Pessoa.
Eu escreveria tanto mais
Se soubesse fazê-lo.
Eu escreveria tanto mais
Se tivesse veia poética.

Mas não sou,
Não sei,
E não tenho.

Porque escrevo
O que escrevo então?
Este porquê eu não sei...

Pergunta

Queres saber o meu porquê?
Então olha para ti.
Sabes o teu porquê?
Se souberes não o digas.
É o teu.
O meu também é o meu.
Pensas que to vou dizer?
Onde estaria depois o mistério?
Onde estariam depois os porquês?
Não gostas de indagar?
Eu cá gosto.
Sabe bem.
Sabe melhor que respostas.
Essas rematam.
A pergunta alarga.
A pergunta expande.
Pergunta...
Podes sempre fazê-lo.
Não te impeço.
Só não esperes que te responda.
O meu porquê está dentro de mim.
Não tens que descobrir o meu porquê
Tens que me descobrir a mim.
Vá, perdeste a coragem?
O desafio é muito grande?
Pensei que quisesses saber.
A tua vontade não é assim tão forte.
Querias uma resposta que rematasse?
Que acabasse?
Querias o fácil?
Pois, desculpa-me...
A descoberta não é fácil.
Perguntar porquê talvez o seja.
Responder a esse é que já não.
Querias ter a parte fácil
E dar-me a difícil?
Pois, eu vou partilhar contigo o difícil.
Descobre o porquê.
Vá, assim também me ajudas.
Não sei o porquê completo.
Também ainda não me descobri.

Porque escreves?

Porque escreves?
Melhor, porque sufocas sem a escrita?
Porque é que tudo tem que estar por escrito?

Não sabes passar sem escrever?
Sabes que isso é doença?
Sabes que não o deves fazer?

Digo-te que não o faças.
Digo-te para teu bem.
Não te alivia isso,
Isso que chamas de escrita .

Letras e palavras?
Que é isso?
Não é nada.

Afasta-te enquanto te aviso.
Afasta-te porque sou eu que o digo.
Vá, ouve-me!

Não vês que só falo verdade?
Nunca te irei mentir...
Não escrevas,
Isso só faz pensar.

Faz mal...
Deixa isso!
Não me ouves?

Continuo...
Porque escreves?
Porque preferes não me ouvir?

É assim tão importante?
Não vejo nada de importante nisso.
E tu estás a ver bem?
A mim parece-me que não.

Escreverias

Escreverias sem cessar
Se soubesses o que sinto
Não é para te espantar
Mas não sei o que pinto

Escreverias sem cessar
Se soubesses o que penso
Não é para te alarmar
Mas não tenho bom senso

Escreverias sem cessar
Se tivesses conhecimento
Que ando a chorar
Por cantos de tormento

Escreverias sem cessar
Se não fosses eu
Perdida no ar
Sem nada seu

Adormecido

No cenário da tua vida
Aclamas noites alucinantes
De gentes estonteantes
Que são tanto como tu
No teatro do teu olhar
Há quem note que a coragem
Não passa de uma miragem
Com preguiça de gritar
No repetir do teu mostrar
Inventas-te uma história
Que em ti não há memória
Porque sabes que não é tua...

Continuas a ensaiar
A conveniência do sorriso
O planear do improviso
Que te faz sentir maior
No artifício dos teus gestos
Pensas abraçar o mundo
Quando nem por um segundo
Te abraças a ti mesmo
E assim vais vivendo
E assim andando aí
E assim perdendo em ti
Tudo aquilo que nunca foste...

Quando um dia acordares
Numa noite sem mentira
E te vires onde não estás
Vais querer voltar para trás...


Toranja

Adoro esta letra porque me identifico com ela. E provavelmente muitas mais pessoas o farão. Vivemos num teatro em que o que mostramos é o que pensamos ser conveniente os outros verem. Dizemo-nos fortes quando trememos por dentro, dizemo-nos grandiosos quando nos sentimos pequenos ao lado de tudo e todos... dizemos o que não somos porque não sabemos olhar para dentro e vermo-nos e, assim, construimos uma personagem agradável aos outros olhos enquanto nos vamos perdendo nesse cenário falso e de mentira. Mas nada como a letra da música para exprimir as palavras ocas que vou tentando encadear.

P.S. Resolvi ocultar o refrão porque penso que não tem muito a ver com o que eu pretendia transmitir.

sexta-feira, novembro 26, 2004

Cenário

Queria imaginar um cenário bonito
Então imaginei pássaros e flores...
Mas pareceu-me muito vulgar
Então pensei um pouco mais...
Decidi imaginar cores diversas
E vi o encarnado e o preto...
Mas só consegui ver linhas...
Então decidi imaginar formas
E imaginei um corpo...
Mas achei demasiado erótico...
Então pensei, desta vez, em livros
E agradou-me a ideia...
Quis cores para os livros
E imaginei beje e preto...
Preto nas letras, beje nas páginas...
Queria um cenário mais que visual
Então imaginei o cheiro...
Um cheiro a papel, velho e mofo
E senti-me bem naquele ambiente...
Um sentimento confortável, porém incompleto...
Então decidi imaginar o tacto...
Imaginei mãos e dedos
E o toque nas páginas...
Não precisei de imaginar mais
Estava já sentada à secretária
Com livros abertos no colo
Folheava, folheava, folheava...
Fique lá até o dia adormecer
Deixei-me ficar até eu adormecer...

Notas íntimas

"Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações cujo termo era o infinito."
Fernando Pessoa (1910?)

quinta-feira, novembro 25, 2004

Desespero

Estou só, com medo, perdida e confusa... As palavras fogem-me tal como o choro que penso ser alívio. A capacidade de analisar evaporou-se, a razão ausentou-se... Não sei pensar e não sei sentir. Que sei eu afinal? O que ando a fazer? A réstia de inspiração que julguei ter aliou-se à razão e abandonou-me... Sinto que fiquei sem nada, nua e vazia. Um vazio diferente dos outros; um vazio que já não sei caracterizar; um vazio que me contorce e me agonia; um vazio que afinal me faz sentir. Não é, então, tão vazio assim... É mais um aperto junto ao peito que dificulta a respiração e me faz soltar gritos de silêncio. Sinto-me presa ao meu chão de repugna, aquele que me é tão familiar. É um desespero... Um desespero calado e disfarçado. Não daqueles que me faz trepar paredes, mas daqueles que me faz engolir a mim própria.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Insónia

Oh retrato da Morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

Bocage

Roma e Grécia

"(...) ninguém compara a grandeza ruidosa de Roma à super-grandeza da Grécia. A Grécia criou uma civilização, que Roma simplesmente espalhou, distribuiu. Temos ruínas romanas e ideias gregas. Roma é, salvo o que sobremorre nas fórmulas invitais dos códigos, uma memória de uma glória; a Grécia sobrevive-se nos nossos ideais e nos nossos sentimentos."
Fernando Pessoa (1912)

Antítese

É a luz que espero
E a escuridão que finto
É o preencher que quero
E o vazio que sinto

É o sabor doce na boca
E o amargo no coração
É o horror nos olhos
E o bonito na imaginação

É o sorriso que forço
E a lágrima que cai
É o riso que esforço
E o choro que sai

É uma antítese que sou
E é isto que detesto
Não saber onde estou
Nem onde está tudo o resto

segunda-feira, novembro 22, 2004

Espírito de festa

As estrelas são pretas num céu repleto de luzes e ornatos coloridos, em noites de festa, onde os da terra convivem animadamente sem regras ou limites. Festejam o que nem sabem e festejam porque sabe bem o vinho na boca e o jogo diante de seus olhos. Atiram dardos, jogam cartas ou xadrez e ganham prémios sem valor algum ou do valor de uma exibição exarcebada de algo inútil que leva o corpo à exaustão e cujas consequências são as de dor e ressaca. O copo na mão, o cigarro na boca e os gestos bruscos e descoordenados são sinais de alguém que é capaz, com coragem e, por isso, merecedor de respeito. Os mais calados são fracos ou jovens; os que não dançam ou cantam são perdedores e inúteis em festas de pompa igual. O espírito necessário é de alguém que grite, cante, dance, sem vergonha e com coragem para mostrar aos outros tudo o que sabe, embora, muitas das vezes nada de proveitoso, uma vez que, se limitam à demonstração de palhaçadas normalmente bem vindas e aplaudidas pelos que assistem. É este o espírito verdadeiro de festa, alguém que perde o contacto com a realidade e que transborda as emoções correntes agindo da forma que bem lhe apetecer. É assim que vivemos em tempo de exaltação, dotados de um espírito iludido com luzes e prémios, enganados pelo próprio engano, cegos para a vida e com a incapacidade impressionante de encarar a realidade. É assim que afogámos as nossas mágoas quando o pensar nelas nos provoca confusão, receio e tristeza...É assim que esquecemos que vivemos para aprender e para evoluír.

quinta-feira, novembro 18, 2004

Assim escrevo

Não é que tenha inspiração
Ou imaginação fértil
Ou até mesmo jeito
Simplesmente acontece

É um pouco ao acaso
Um propósito sem querer
Um diz que não
Para dizer sim

É como que um impulso
Uma vontade incontrolável
Um fascínio sem descrição
Um jeito sem jeito meio estranho

Ou é como um movimento
Independente e alheio
Um gesto que existe
E eu não sei como

É um acto irracional
Talvez emocional
Imaginativo e incerto
Estranho e agradável

É assim que escrevo
Não porque sei
Mas porque me apetece
E me sinto bem

Digo

Digo que não sou
Mas sou
Digo que não sinto
Mas sinto
Digo que sei
Mas não sei
Digo que dói
Mas não sinto
Digo que calo
Mas falo
Digo que sonho
Mas acordo
Digo que é belo
Mas não gosto
Digo por dizer
E não me calo
Digo que sim
Porque há não
Digo preto
Porque há branco
Digo feio
Porque há belo
Digo que falo
Mas não digo

quarta-feira, novembro 17, 2004

Livro

Deslizo os dedos pela capa
Sinto a textura rugosa
Levo-o junto à cara
E sinto o cheiro a papel velho

Uma primeira abertura
Arrasta páginas
Folheio-o com cuidado
E respiro a sua história

Deixo-me levar
Pelo deleite da leitura
Absorvo as palavras
E preencho-me de significados

Mergulho nas páginas
Desapareço noutro mundo
Alheio ao meu
Alheio ao vosso

Toca-me em sítios inatingíveis
Desconhecidos, impossíveis
No meu mundo, no vosso mundo
Não naquele mundo

Toca-me onde pensei
Não sentir o toque
Toca-me duma maneira
Que julguei não existir

Toca-me porque deixo
Porque mergulho
Porque adoro
Porque sim

É... não tem
É letras
É palavras
É significados

É poder
É calma
É suave
É profundo

É o que adoro
Que preenche
Que aquece
Que ilumina

É tudo aquilo
Que pode
Que atinge
Que toca

É um livro...

Cair

É o sono e a confusão
O neveoeiro e o cansaço
O pesar e o turbilhão
O frio de aço

O gelo no coração
O tapar da visão
A pedra na mão
A amarga desilusão

O cair do corpo
O desistir da alma
O olhar morto
A estranha calma

É um fechar
Cerrar
Calar
Ficar

A agonia e a dor
Do fingir sentir
O perder do amor
Do que é existir

Um morrer
Perder
Falecer
Esquecer

segunda-feira, novembro 15, 2004

Noite de brisa

A leve brisa da noite acaricia a face
O luar brilha no olhar
Na longa espera que tudo passe
Sento-me a ver a noite acabar

O sabor da canela ainda nos lábios
O cheiro nos cabelos a madeira e vela queimada
Um toque suave em instantes sábios
Foram memórias duma noite passada

O abraço forte e envolvente
O balançar carinhoso e lento
Uma respiração quente
Presente nas noites de alento

A lareira apagada
A vela derretida
Uma noite passada
Sem despedida

O beijo que se afasta
A mão que desliza
Um olhar que basta
Numa noite de brisa

segunda-feira, novembro 08, 2004

Não sou eu

Olho-me ao espelho, mas não me vejo; aquele corpo não me pertence... Nada do que vejo é meu e muito menos eu. Não me identifico com o corpo nem com o nome. Chamam-me, mas não olho. Não é por mim que chamam, chamam por um nome. Não me expresso pelas mãos que tanto adoro ou pelos olhos que misteriosamente aprecio. Nada do que mostro sou; nada do que sou mostro. Vivo uma fantasia perturbada, vagueando por caminhos que finjo conhecer. Sinto-me cheia do vazio, pois engano-me a cada momento com ilusões planeadas e passos em falso. Tudo são cenas em palco e nada é real. Tudo é artificial e nada é real. Aqui tudo é efémero e nada me pertence. Afundo-me em papéis e pensamentos...Sufoco com lágrimas secas e sorrisos apagados...Perco-me nos lençóis do meu ser e nas palavras da minha vida...Complico o simples, mas ainda assim tento compreender o complicado. Minhas mãos murcham as flores, meu olhar esfaqueia as peles... Sinto-me a cair, mas continuo em palco. Sinto-me a fugir, mas encontro-me presa por amarras ténues que não sou capaz de quebrar. Sinto-me morrer, mas existo sem o corpo.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Rumos

Queixamo-nos do sofrimento, mas conseguimos viver sem ele? É mais um sentimento que nos faz sentir vivos. É talvez o sentimento que conhecemos melhor. Mas digam lá se não devemos agradecer tanto sofrimento.. É através dele que aprendemos a maior parte das coisas na nossa vida. Podem-nos avisar com todo o amor que uma certa coisa nos prejudica, mas só conseguimos perceber esse prejuizo quando o sentimos "na pele". Digam a um puto pequeno que se puser os dedos na tomada vai apanhar um choque.. ele fica a pensar o que será um choque, então lá vai ele descobrir e a partir do momento em que o sentiu, passou a saber o que é, e se por acaso não gostou, não vai voltar a fazê-lo.
Acham mesmo que evoluimos a partir do amor? Eu não. Somos demasiado preguiçosos e, numa palavra menos específica, "burros", para evoluirmos sem sofrer. Basta ver que fazemos bastantes borradas, sofremos as consequências desses actos, mas no minuto a seguir somos capazes de fazer o mesmo. Não é uma situação digna de um abanão?
Nós que somos tão inteligentes...Não temos a capacidade de perceber que se escolhermos seguir por um certo caminho que nos leva a consequências desastrosas, esse caminho não é dos melhores? Não temos a inteligência suficiente para analisar a nossa vida e tomar rumos diferentes quando necessário?
Penso que temos essa inteligência, mas o caminho mais fácil é sempre pelo que seguimos. Apercebemo-nos que algo está mal, mas dá tanto trabalho mudar...
Há quem pense que se vamos morrer porquê darmo-nos ao trabalho...Mas e se a vida depois da morte existir mesmo? Ou se for apenas uma transformação na nossa vida e não um fim? A desculpa da morte é mesmo apenas uma desculpa... Vivemos por algum motivo. Não se questionam porque motivo nasceram? O que vieram cá fazer? Claro que sim... O difícil é encontrar as respostas, por isso temos que fazer o possível para as encontrar. O papel de vítima é o mais confortável, mas também o mais cobarde. Talvez pareça falar por falar. Confesso que também eu tenho que percorrer esse caminho, estou apenas a relatar ou a tentar relatar o meu ponto de vista.
Deixo aqui este pensamento, talvez um pouco mal estruturado e incompleto, mas por agora fica assim.

Responde-me

Lua que emerges da escuridão da noite,
Vês-me na janela com olhar melancólico?
Nevoeiro que escondes tudo em teu redor,
Vês-me a caminhar na confusão?
Frio que congelas sentimentos,
Não me vês a sofrer em caminhos vazios?

Não me vês Natureza anciando por tudo e nada?
Não sentes meus desejos estranhos?
Não percebes que quero o que não posso?
Não vês que não me vejo?
Não me encontro...
Não me sinto...

Já não sinto o sufoco na garganta
Nem o ardor no peito a que me habituei
Já não ouço aquela voz
Nem o grito mudo no escuro
Onde está a dor?
Que foi feito de mim?

domingo, outubro 03, 2004

Perdi-me

Perdi-te há muito tempo.
Já não te vejo,
Não te ouço,
Nem te sinto.

Duvido da tua existência.
Foste imaginação, sonho, fantasia?
Alguma vez te senti?
Que foste tu?
Porque desapareceste?

Desejo-te, mas não te conheço mais.
Foste feita para mudar?
Foste feita para desaparecer?
Serás para sempre diferente?

Tenho saudades de algo que já não conheço.
Querer-te-ei eu de volta?
Amar-te-ei agora neste presente?
As dúvidas percorrem-me.

Serás tu, memória escondida,
Um escape ao meu presente?
Serás algo criado por mim
Apenas como refúgio?
Serás desculpa, razão?
Quero-te mas esqueço-te...

quinta-feira, setembro 30, 2004

Melancolia

Trago em mim o sabor amargo da melancolia...
A leve sombra do passado, presente e futuro...
Trago em mim o que necessito...
Trago em mim o desconhecido...

Sinto-me perdida...
Mergulhada...
Escondida...
Sombria e fria...
Vazia e preenchida
Do que não quero e do que desejo...

Assemelho-me ao chão que tanto me repugna...
Sem forças...
Sem vontade...
Sem coragem...
Permaneço, assim, estendida...

Sim, sou masoquista...
Gosto do meu sofrimento...
Faz-me sentir viva...
Desperta-me...

A saudade da dor invade-me
Quando um ligeiro sorriso percorre meus lábios...
Fecho os olhos...
Mergulho novamente na melancolia do meu ser.

quarta-feira, setembro 29, 2004

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê.

Fernando Pessoa

sábado, setembro 25, 2004

Introdução

Queria fazer deste blog o meu espaço de recolhimento e reflexão. Mas porquê fazê-lo aqui e não num caderno, como já tenho vindo a fazer? Porquê expôr os meus pensamentos a olhares curiosos? Sabendo que estou sujeita a críticas exteriores porquê criar este blog?
Pensei várias vezes na hipótese de não o fazer, mas considerei o facto das críticas feitas pelos outros serem proveitosas para a remodelação das minhas opiniões. Penso que é necessário considerar várias opiniões e diferentes conhecimentos para podermos criar melhor um ponto de vista, além de ter a vantagem da minha escrita não ficar enterrada num caderno perdido no meio de tantos outros...Dou assim "asas" à minha opinião duma maneira diferente. Não pretendo escrever textos bonitos, mas apenas tentar ser o mais verdadeira possível nas minhas palavras.
Não sei bem qual o objectivo deste blog, estas são ideias vagas do que queria que ele fosse. Quando não tiver a gostar não volto a pôr cá os dedos.
E deixo assim a minha introdução neste blog, espero ter a disposição suficiente para voltar a escrever aqui.